Torcemos, apesar da seleção
Quarta-feira, 27 de junho de 2018

Torcemos, apesar da seleção

Foto: AFP/Arte: André Zanardo

Com crise ou sem crise, uma coisa é certa no Brasil e, pra falar a verdade, em quase todo o mundo. De 4 em 4 anos, quando a Copa do Mundo de Futebol Masculino começa, o clima toma conta do país e muda o ritmo da população. Esse ano, porém, até mesmo a grande mídia, sempre tomada por um ufanismo fora do comum nessas épocas, teve de admitir que o clima não era o mesmo de sempre.

Segundo o Datafolha[1], desde 1994, quando a pesquisa teve início, essa foi a primeira vez que mais da metade (53%) dos brasileiros disse estar desinteressada pela Copa do Mundo. E não se diga que essa falta de interesse é coisa de “pequeno burguês” ou de “problematizador de rede social”. A taxa de desinteresse pelo evento é maior entre as pessoas com renda familiar de até 2 salários mínimos.

Os motivos para essa queda no ânimo dos brasileiros podem ser diversos. Considerando que o mesmo explodiu depois de 2014, é possível que as razões econômicas sejam fortes. A crise vem tirando a capacidade de empolgação do brasileiro em várias áreas, e não haveria de ser diferente no futebol. Não há humor que resista ao desemprego.

Há, ainda, as razões políticas. Num país tão marcado pela corrupção como o nosso, perceber que uma instituição suja como a CBF comanda a sua seleção, sem dúvidas, espanta boa parte da torcida. Junte a isso um evento organizado pela igualmente suja FIFA e cooptado por uma emissora criminosa como a Globo, e o ranço do torcedor já tem todas as razões de existir. Aliás, não custa perguntar: por onde andam as notícias do caso “FIFAgate”, envolvendo, justamente, essas três instituições?

Também na seara política, há, no Brasil, a questão da identificação surgida na camisa da seleção desde 2013. Infelizmente, o manto canarinho foi mais um dos símbolos nacionais cooptados pela direita brasileira, que, sabe-se lá porque, fagocita tudo que cheire a nacionalismo embora, na prática, defenda tudo o que represente o entreguismo e o viralatismo nacional.

Esses, talvez, são apenas alguns dos motivos que podem ter levado o brasileiro a um desinteresse recorde pela competição e, em alguns casos, fez com que alguns brasileiros cheguem até mesmo a torcer contra a seleção. Porém, são todos motivos externos, que, a bem da verdade, não são jogados dentro das quatro linhas.

Quando se analisa a questão de forma interna, porém, confesso que entendo ainda mais aqueles que não conseguem mais simpatizar pelo esquadrão brasileiro. Não por conta dessa ladainha que insiste em chamar o futebol de pão e circo, ignorando a importância desse esporte na cultura brasileira. Tampouco pelas vazias comparações entre o salário de Neymar e dos professores do país, que em nada agregam à luta pela educação brasileira. Aliás, quem quer apoiar professor, apoia as suas greves ao invés de ficar fazendo esse tipo de comparação inútil.

Meus motivos para entender aqueles que não torcem para o Brasil são outros.

Desde 2006, e isso talvez seja apenas uma impressão pessoal, foi se construindo um abismo enorme entre os jogadores da seleção e a sua torcida. Aliás, entre jogadores e o resto do país. De ingressos cada vez mais caros a camisas sendo vendidas a R$ 400, a seleção foi expulsando o povo do futebol.

É verdade que, em menores proporções, o mesmo se viu nos clubes do país, principalmente após as “gourmetizações” trazidas pela Copa de 2014. Mas, na seleção, esse processo foi mais avançado. Além disso, por outro lado, os clubes gozam do “privilégio” de estarem presentes na vida cotidiana do brasileiro, o que facilita o sentimento apaixonado que ainda persiste.

Junte a isso o fato de que, de alguns anos pra cá, a ida de nossos craques (às vezes nem tão craques) para o exterior se acelerou. Jogadores têm sido vendidos para clubes europeus (nem sempre grandes e, hoje em dia, nem sempre europeus) sem sequer terem brilhado nos nossos campeonatos nacionais. Sem dúvidas, isso prejudica a identificação entre jogadores da seleção e a torcida brasileira.

Há, ainda, o fator futebolístico de uma seleção que, por décadas, teve o futebol arte em sua genética. Talvez a última seleção que implementou esse futebol que nos deu a fama que temos foi a de 2006, com um quadrado que era realmente mágico. Desde o fracasso na Copa daquele ano, porém, a seleção parece ter se entregado de vez ao pragmatismo do resultado, típico do futebol moderno.

A superexploração do marketing sobre jogadores de futebol também parece ter seus efeitos nesse processo. A excessiva preocupação com a imagem dos jogadores e o alto número de intermediários que se colocaram entre povo e jogador também afastaram o público. A blindagem e a proteção de craques pela mídia e por seus agentes (ou “parças”) soa como mimo e privilégio em um país cansado de mimos e privilégios.

E todos esses anos de afastamento acabaram refletindo no comportamento dos jogadores. Espanta, de verdade, a total falta de sensibilidade que os atletas nacionais têm em relação à vida dos brasileiros e ao cenário do país. É claro que todos ali são apenas atletas e nenhum deles tem uma real obrigação de manifestar publicamente suas opiniões mais políticas. Mas a falta de tato e empatia, ao menos para mim, sempre me espanta em qualquer ser humano.

Como, por exemplo, quando, no fim de maio, essa mesma seleção deixou o país rumo à Europa para a Copa, protagonizando uma cena patética em um avião celebrado com jatos d’água coloridos. Cena patética porque, naquele mesmo momento, o país estava parado pela greve dos caminhoneiros em uma das maiores crises políticas dos últimos tempos. Patética porque, também naquele momento, alguns aeroportos estavam fechados por falta de combustível. Total falta de tato da CBF em manter as festividades em um momento como aquele. Podiam simplesmente ter viajado sem maiores exposições. Fica difícil cobrar simpatia da torcida assim.

Porém, me surge uma pergunta: será que, dentre os 23 jogadores naquele avião, não teve um que tenha se sentido incomodado pela situação? Creio que não. Dias antes, quando o país já estava parado, parte dos atletas passeava de helicóptero pelo Rio de Janeiro.

Um deles, o craque do time, que só se manifesta nas redes sociais para “calar os críticos“, para “calar a boca de alguém“, para “mandar um recado aos haters“. Neymar está sempre mandando alguém calar a boca. Geralmente, a própria torcida. Nós.

A seleção seguiu e a Copa se iniciou. Após uma atuação desastrosa na estreia contra a Suíça, o time foi pressionado e contestado para o segundo jogo contra a Costa Rica. Na mesma semana, porém, foi outro drama que tomou as capas de jornais pelo Brasil.

A quinta-feira, véspera do jogo, se iniciou com todos os jornais do país estampando a foto de uma mãe chorando sobre o caixão de seu filho, segurando o seu uniforme da escola com manchas de sangue. Marcus Vinícius tinha só 14 anos e foi mais uma vítima da violência do Estado brasileiro. É claro que ninguém é obrigado a se manifestar. Ou, talvez,seja justamente a obrigação de todo cidadão brasileiro se indignar e se manifestar quando algo como isso ocorre. Mas, num grupo com 23 atletas e mais uma penca de membros da comissão técnica,não teve uma só pessoa que se sentisse tocada o suficiente pra fazer uma pequena manifestação que fosse? Um gol dedicado, uma mensagem na camisa, uma mera entrevista? Nada?

Contrastando com a comoção nacional com essa tragédia, ao final de mais um jogo pífio, com mais um gol salvador de Philippe Coutinho, foi Neymar quem roubou a cena. Parte da mídia, que passa a mão na cabeça do craque como se o mesmo fosse um menino de 14 anos, nos cobrou comoção com o forçado choro no centro do campo. “Pressão” e “drama” eram as palavras usadas. Ao que tudo indica, um helicóptero teria sobrevoado a Granja Comary distribuindo tiros, não a Maré. Como disse o jornal Meia Hora[2], “não dá“.

O jogador, é claro, depois de caminhar ao centro do campo em passadas milimetricamente planejadas e chorar com as mãos no rosto sem que se pudessem ver lágrimas, correu para as redes sociais para, mais uma vez, “mandar o seu recado”. Alguém tinha que “calar a boca”, de novo, lógico.

Piorando a situação e mostrando um descolamento da realidade ainda maior, o apresentador da Globo, Tiago Leifert, fez um vídeo perguntando aos brasileiros o que eles faziam aos 26 anos, tentando dizer que pressionamos demais o “menino Neymar”. O questionamento tinha a clara intenção de dizer que nenhum brasileiro de 26 anos estaria sujeito a pressões como o “menino” de 26 anos Ney.

Com a sensibilidade de alguém que, pelo visto, não foi só de futebol que aprendeu apenas jogando vídeo game, o vídeo de Leifert soou nojento, arrogante, bobo e descolado da realidade. Não à toa, gerou inúmeras críticas de brasileiros pelas redes que, com toda a razão, se sentiram ofendidos.

O Brasil tem uma taxa de desemprego jovem de quase 30%, o dobro da média mundial. O número de jovens “subutilizados” deve ser assustadoramente maior. 90% dos brasileiros não ganha nem R$ 2.800 por mês. 80% não chega a ganhar nem R$ 1.800. Dos cerca de 700 mil brasileiros presos, 55% não têm nem 30 anos. Isso sem contar os cerca de 25 mil menores de 18 anos presos. Das 4.222 pessoas mortas, em 2016, pela polícia no Brasil, 82% não tinham nem 30 anos.

Isso num país que trata um jovem pesquisador como vagabundo e paga uns R$ 1.000 pra quem trabalha o dia inteiro em um laboratório (quando paga, é claro). Isso numa semana em que um jovem não vai chegar aos 26 anos porque, aos 14, um blindado da polícia achou normal distribuir tiros em uma favela.

Enfim, respondendo à pergunta feita pela Globo, uma concessão pública que recebe, rotineiramente, alguns milhões em verbas públicas de propaganda estatal, na voz de Tiago Leifert: o que fazia o brasileiro aos 26 anos?

A julgar pelas estatísticas, o brasileiro com 26 anos teria grandes chances de estar procurando emprego ou sendo mal remunerado em um trabalho precário, escapando de ser morto pela polícia, evitando ser preso ou sendo chamado de vagabundo enquanto recebe um salário mínimo pra construir o pouco de Ciência que temos no país.

Que pessoas ricas e famosas podem sofrer distúrbios psicológicos devido à pressão, não há dúvidas. Aliás, não faltam casos icônicos que demonstrem isso. Todo ser humano, independente de renda, está vulnerável a esse tipo de problema. Quem parece não saber disso é a Globo e Leifert, que tripudiam de um país inteiro ao rebaixar todo o psicológico de um povo a uma carretilha sobre o potente e multicampeão time da Costa Rica.

Mais um dos muitos pequenos exemplos que mostram como essa simbiose entre Globo, CBF, FIFA, seleção e jogadores foi afastando cada vez mais boa parte dos torcedores da equipe canarinho.

Há quem possa dizer que misturar tudo isso ao futebol é coisa de gente chata. Porém, difícil mesmo seria separar um dos maiores movimentos de massa do mundo, como é o futebol, da política. Diga isso a Drogba pedindo o fim da guerra em seu país ao classificar a Costa do Marfim para a Copa de 2014. Ou então à torcida do Livorno enquanto ela entoa o cântico antifascista “Bella Ciao”.

Ou então diga ao próprio Neymar, que se utilizou de sua fama futebolística para demonstrar apoio e angariar votos para o tucano Aécio Neves nas eleições de 2014. Ou será que as relações políticas ficam só na hora de colher os louros? Na hora da crítica, política vira coisa de gente chata?

Posso estar sendo injusto e, talvez, esse abismo entre povo e seleção sempre tenha existido e a única novidade seja o mal humor nessa relação. Mas cresci ouvindo histórias de um Corinthians de Sócrates, Wladimir e Casagrande e talvez seja querer demais ver outra geração como essa no futebol. Não custa sonhar. Por enquanto, vou entendendo quem não consegue nutrir simpatia por uma seleção que não dialoga com o país.

Os fãs de futebol têm o costume de repetir que “não é só futebol” quando algo extraordinário acontece no esporte. Geralmente algo com teor político. A nossa seleção, infelizmente, é só futebol mesmo. Às vezes, nem isso.

Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.


[1]https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/06/desinteresse-com-a-copa-bate-recorde-e-atinge-53-no-pais-mostra-datafolha.shtml
[2]https://www.revistaforum.com.br/jornal-meia-hora-faz-capa-historica-com-mae-de-menino-baleado-nao-da/
Quarta-feira, 27 de junho de 2018
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