Mamãe, falei coisa errada dos Racionais MC’s
Quinta-feira, 28 de junho de 2018

Mamãe, falei coisa errada dos Racionais MC’s

Foto: Racionais Mc’s/Instagram

A estrutura social e econômica brasileira, desde 1500, sempre foi marcada pela etnografia hierarquicamente submetida ao padrão estético, cultural, religioso e educacional etnocêntrico europeu e pela relegação do lugar de silencio a outras etnias, grupos sociais e religiosos por meio de violência, submissão, tortura e até mesmo concordância forçada e induzida mediante algumas vantagens pessoais  – como observamos, nos casos do período escravagista colonial, na figura das mucamas, escravos de fazendas, capitães do mato e escravos da casa grande.

Desta forma, conseguiu-se imputar subliminarmente em uma parcela da população brasileira um sentimento de que existem culturas e etnias que merecem estar onde o status quo e a historiografia os colocaram e se tal grupo não se encontra representado é por que “não se esforçou o suficiente” criando uma meritocracia falsa e uma sensação de conformidade e merecimento com as mazelas que lhe são apresentadas desde o nascimento.

Incrivelmente, quinhentos e poucos anos depois, a realidade se apresenta da mesma forma e com uma insurgência feroz de partidários e militantes dessa visão, justificando a desigualdade social somente como efeito da “preguiça”ou “vitimismo” de modo que qualquer denúncia é vista como inválida ou considerada apenas confirmação deste vitimismo.

Determinados espaços são tidos como não permitidos a determinados grupos, culturas, investigações, percepções ou perspectivas objetivas da realidade e os não permitidos somente são aceitos se encontrarem-se submetidos a essa concordância forçada ou induzida. Essa evidência ficou clara quando o álbum Sobrevivendo no Inferno do ano de 1997 do grupo de rap Racionais Mc’s foi colocado na bibliografia do concurso de admissão da Unicamp.

Isso foi motivo suficiente para que o youtuber e pré-candidato a deputado, Artur Moledo do Val, fizesse uma metralhadora de críticas rasas e uma análise musical e sociológica tão rasa quando o seu canal no YouTube que mistura mau gosto, polêmica e confronto a manifestações opostas ao seu posicionamento politico e ideológico – programa no qual as pessoas que são entrevistadas são previamente escolhidas fomentando o confronto até que uma explosão em estresse provoque alguma tirada ou frase de efeito para colocar sua aura de paladino da justiça após uma edição sorrateira dos vídeos.

Na última empreitada do Val, ele questiona a qualidade do referido álbum e da música dos Racionais Mc’s, apresentando-a como desqualificada ou abjeta. Em uma análise simples a partir da fundamentação teórica de Franz Boas (1858-1942), antropólogo teuto-americano, percebermos que não existe cultura primitiva ou ruim, superior ou inferior, e sim perspectivas de uma realidade objetiva que se descortina a partir do observador e do meio em que ele se encontra. Somente essa citação já seria o suficiente para invalidar todo o argumento do “crítico”. Todavia, vamos avaliar um pouco mais a fundo o referido álbum para não cairmos no discurso de uma só perspectiva.

Voltemos ao Brasil do ano de 1997, o pais enfrentava uma forte recessão do crescimento econômico que não ocorria na dinâmica e velocidade que os liberais da atualidade acham que ocorria. O “laisse faire laissez passer” de Adam Smith nem sempre passa em questão de meses. A estabilização econômica do governo Fernando Henrique Cardoso, mesmo sendo louvável em alguns tópicos do ponto de vista econômico, teve como contraponto desemprego de mão de obra menos qualificada, aumento da violência em grandes capitais e, em São Paulo, o bairro do Capão Redondo, local de surgimento dos Racionais, teve como prêmio ser considerado, em 1996, segundo o jornal Folha de São Paulo (30/01/1997), o mais violento da capital.

Nesse contexto nasce a matéria prima do grupo, refletida em toda sua obra. Musicalmente, o grupo utiliza bases rítmicas de Attitude – The Bar Keys, Tom Browne – Charisma, Edwin Starr – Easin Ine, influências de Jorge Ben, Tim Maia, James Brown, Cassiano, Belchior e Ray Charles.

Somente daí pode-se ouvir, sentir e concluir que sua musicalidade é repleta de referencias musicais, que passam pela MPB, Soul, Jazz o que torna o álbum musicalmente rico; a releitura dos estilos musicais aplicada a realidade social do grupo ganha influência da religiosidade sincrética brasileira através da percussão de atabaques, sinos de igreja, vocais góticos e de soul music.

Graficamente e da perspectiva artística visual,  temos a fotografia de Klaus Mitteldorf, fotógrafo e cineasta germano-brasileiro que possui em seu currículo prêmios como o Nikon Photo Contest International em 1980, 1982 e 1986 e o grande prêmio pelo primeiro lugar de Fotografia de Higashikawa no Japão. Suas fotos conseguem transmitir uma beleza artística e uma frieza realística que vão de encontro as fotos de Sebastião Salgado, retratando a miséria e a beleza em um mesmo plano estético.

O álbum dos Racionais Mc’s pode agradar ou desagradar quem ouve, mas o que se torna inegável é a qualidade da obra como retrato de uma cidade ou até mesmo de um pais excludente e míope que até hoje produz cegos que enxergam somente o que querem, como Arthur Moledo do Val que representa a ignorância dos que estudaram em boas e caras escolas, mas que nada aprenderam e continuam vivendo no paraíso, ignorando quem continua sobrevivendo no inferno.

Jucemir de Oliveira Vidal é pós-graduado em Recursos Humanos pela Universidade Candido Mendes, Graduado em Administração pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e Sociologia pela Universidade do Norte do Paraná.

Quinta-feira, 28 de junho de 2018
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