O feminismo como epistemologia da diferença
Quinta-feira, 28 de junho de 2018

O feminismo como epistemologia da diferença

Imagem: Federica Bordoni

Um dos grandes panos de fundo da discussão feminista é a crítica ao binarismo instaurado pelo patriarcado que divide o mundo em dois: um dominador – o masculino, e um dominado – o feminino. Esta desconstrução de estruturas binárias que atravessam o pensamento ocidental abala as estruturas do conhecimento assim fundadas. É com isso em mente que diversas estudiosas sustentam que, com o feminismo começa a existir uma própria epistemologia da diferença (ou com os feminismos, melhor dizendo. A opção por usar o termo no singular é apenas para ressaltar o que eles têm em comum). Esta nova epistemologia significa, basicamente, que conhecer o mundo não implica em reduzi-lo a um conjunto mínimo de proposições (que acaba sendo relacionado a um binário fundado no duplo “verdadeiro-falso”).

A epistemologia feminista mostra que o mundo humano, sendo em grande parte construído pelos próprios homens e mulheres, é multifacetado, plural, múltiplo. Não há sentido em uma teoria do conhecimento que tente reduzir o mundo a um conjunto mínimo de categorias para compreendê-lo, muito menos escolher este conjunto mínimo como referencial de conhecimento.

Segundo a epistemologia feminista, conhecer o mundo é pluralizá-lo, perceber as diferenças como amálgamas, sem tentar reduzi-las a algum referencial. Conhecer o mundo é emergir nas diferenças e, a partir delas, perceber o mundo não mais como unidade de sentido, mas como produzido por múltiplas matrizes de entendimento. Conhecer, desde este ponto de vista, não é mais encontrar a representação adequada, mas multiplicar olhares.

Tendo em vista tudo isso, há inclusive quem defenda que o feminismo é espécie de filosofia precursora da pós-modernidade. Jean-François Lyotard, ao invocar o termo “pós-moderno”, o fazia para pensar as condições em que as pessoas viveriam no presente, partindo de alguns pressupostos: a descrença nas metanarrativas; descrença e deslegitimação das fontes tradicionais que tem autoridade em relação ao conhecimento (como a ciência e o Estado, por exemplo); descrença em significados universalizantes; crença em uma crise da representação que coloca em questão a diferença entre o real e o simulacro; fragmentação e descentralização das identidades sociais, culturais e individuais[1].

Pois bem, ao se analisar a intersecção entre os preceitos do feminismo e os pressupostos enunciados por Lyotard, percebe-se como aquele chega a antecipar algumas das discussões travadas pela pós-modernidade.

  

A descrença nas metanarrativas. Uma metanarrativa é uma espécie de sistema teórico cujo objetivo é fornecer explicações ou descrições completas, abrangentes ou totalizantes do mundo. Diversas autoras feministas, em suas leituras críticas do patriarcado, o descrevem como uma estrutura forjada que atende a determinados interesses.

 

Assim, se por um lado o patriarcado, enquanto categoria de análise, aparece como uma tentativa de explicação que abrangeria um certo recorte das relações sociais, por outro lado ele está longe de ser uma explicação totalizante do mundo ou mesmo universalizante.

Descrença e deslegitimação das fontes tradicionais que têm autoridade em relação ao conhecimento. Uma olhada rápida no primeiro volume de O segundo sexo nos mostra como esta postura descrente já era forte em Simone de Beauvoir[2]. As discussões com a biologia, com a psicanálise, e até com o materialismo ortodoxo evidenciam uma relação tensa entre o pensamento beauvoireano e a autoridade da ciência. Mesmo na parte denominada História, na qual a autora mantém uma postura ora conservadora, ora ultra-inovadora, há indícios de uma visão desconfiada com relação à ciência. Desconfiança essa que antecipa, de algum modo, uma tese cara para Michel Foucault – décadas mais tarde – de que poder e conhecimento estão intimamente imbricados em uma rede multifacetada.

Descrença em significados universalizantes. Uma teoria tem sempre pretensões de universalidade, mesmo quando seus objetos são singulares. As feministas descobriram o quanto isso é nocivo não somente em termos teóricos, mas também sob a perspectiva da militância.

 

Judith Butler e Joan Scott afirmam que A teoria, no singular, é um termo altamente contestado no interior do discurso feminista. Nos Estados Unidos, principalmente, mas também na França, Ásia, América Latina e África, as autoras identificam como a questão era restringida  a uma mulher de um determinado segmento social.

A partir de então, pensar as questões raciais, sociais e étnicas, tornou-se um eixo de importância fundamental para o feminismo. Ser mulher não significa a mesma coisa para uma latina, para uma africana e para uma norte-americana de classe média. A afirmação “queremos o direito de trabalhar e nos sustentar”, comum entre as últimas, é praticamente sem sentido para uma latino-americana de classe pobre ou para uma africana, por exemplo. Não há, portanto, uma teoria feminista que acolha tudo o que pode ser dito sobre a mulher ou as mulheres e nenhum enunciado do discurso feminista tem a pretensão de validade universal.

Crença em uma crise da representação que coloca em questão a diferença entre o real e o simulacro. A questão da representação nos remete diretamente ao duplo essência-aparência. Novamente, Beauvoir entra em cena. O início do primeiro volume de O segundo sexo é uma pergunta: “O que é uma mulher?”.

Por que se perguntar por algo que parece evidente? Por que se perguntar por algo que as ciências já decidiram o que é, que já tem toda uma fisiologia, uma psicologia e uma ginecologia? Ao interrogar o que é uma mulher, ela descobre que a mulher não tem essência. Isso para a autora tem dois motivos: o primeiro é que a mulher foi tida como “o outro” do homem, isto é, definida em função deste; o segundo, é que ninguém nasce uma mulher[3].

Ser uma mulher é um processo de devir. Depois desta segunda constatação, que motivaria a ausência de essência na mulher, Beauvoir então passa a olhar algumas representações da mulher, desde um ponto de vista fenomenológico, no segundo volume do Segundo Sexo: a menina, a moça, a lésbica, a mulher casada, a mãe, a prostituta, a amante, a idosa, e por fim a mulher independente. Representações de que? Representações de um devir, de um movimento, de um processo e não de uma essência[4].

Fragmentação e descentralização das identidades sociais, culturais e individuais. Talvez este seja o ponto em que mais se aproximam os discursos feministas e os discursos pós-modernos, a partir especialmente da intersecção com a psicanálise. As já mencionadas Juliet Mitchel e Simone de Beauvoir, entre outras, saem na vanguarda desta discussão.

O que ocorre é que, se por um lado a psicanálise naturaliza estruturas constituídas culturalmente na história, ela, por outro lado, racha o sujeito. Não há mais um sujeito único, fundante, que é idêntico a ele mesmo. A subjetividade é esfacelada. A identidade da mulher se esvai pelo vento como a essência feminina (ligada à passividade, fragilidade, maternidade e outros “…ade” que tanta opressão trouxeram às mulheres).

Como a passagem da mulher pelo Édipo é sempre problemática, a subjetividade dela será sempre marcada por uma busca irrefreada daquilo que ela é ciente de não ter (enquanto o homem também não tem, mas tem a ilusão de possuir): o falo/poder. Críticas marxistas, existencialistas e pós-estruturalistas, no interior dos discursos feministas, deram outros rumos a esta discussão, mas como saldo de tudo isto, sobrou um sujeito fragmentado, um sujeito historicizado, um sujeito que anseia por ser nômade.

A proposta de desconstrução é, pois, a de desmontar a lógica das oposições binárias do pensamento tradicional, evidenciando que estas são históricas e socialmente construídas, e rejeitar o caráter fixo e permanente da oposição binária de uma historicizarão genuína em termos de diferença sexual, dando visibilidade aos sujeitos diferentes. A desconstrução da polaridade masculino/feminino poderá ser útil para desmontar a lógica binária que rege outros pares de conceitos a ela articulados, tais como público/privado, produção/reprodução, cultura/natureza etc.

Visto como pensamento da diferença, o feminismo aparece como um grande revisor da história. As relações entre feminismo e história são ricas, múltiplas e cheias de caminhos. O feminismo tem mostrado como a história, seguindo alguns interesses, apagou a mulher de suas páginas, fazendo com que ela aparecesse apenas como um outro do homem. Imagens onde a mulher aparece “produtivamente” são simplesmente esquecidas. Mas uma das coisas que o feminismo nos mostra é que a história não é o destino, assim como o corpo também não o é.

Afirmar que a história não é o destino quer dizer aqui que ela não segue nenhum caminho necessário. A história é construída. E como qualquer construção, ela é contingente, pode ser de outra forma. Pode ser desfeita, re-feita, re-construída de outros modos. O social que é o material da história não é sagrado. Não precisamos ter por ele nenhum tipo de reverência que nos impeça de tentar modificá-lo.

Laura Rodrigues Benda foi Juíza do Trabalho do TRT da 15ª Região e atualmente é Juíza do Trabalho do TRT da 2ª Região. É diretora de direitos humanos da AMATRA 2 (Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 2ª Região – biênio 2018/2020) e Presidenta da AJD (Associação Juízes para a Democracia). Escreve na coluna Sororidade em Pauta.

# feminismo:

#1 Por que o feminismo é tão necessário?

#2 Por que o feminismo é tão importante no contexto atual brasileiro?

#3 O que é Sororidade e por que precisamos falar sobre?

#4 Um pouco da história de conquistas dos direitos das mulheres e do feminismo

#5 Violência contra mulheres, violência doméstica e violência de gênero: qual a diferença?

#6 Pelo fim da cultura do estupro

#7 Do que estamos falando quando queremos legalizar o aborto?

#8 Tirem o racismo do feminismo: mulheres negras vão passar

#9 Transfeminismo: a pauta que nos ensina ir além do binarismo homem e mulher

#10 Meu cérebro, minhas ideias

#11 Homens, vocês têm medo de quê?

#12 Os problemas de um feminismo para consumo imediato


[1] J. F. Lyotad, La condition postmoderne : rapport sur le savoir, Éditions de Minuit, Paris, 1979.
[2] S. de Beauvoir, O Segundo Sexo, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2002.
[3] S. de Beauvoir, ob. cit.
[4] S. de Beauvoir, ob. cit.

O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Quinta-feira, 28 de junho de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]