Viva a Diversidade! Um relato sobre o Coral Câmara LGBT
Quinta-feira, 28 de junho de 2018

Viva a Diversidade! Um relato sobre o Coral Câmara LGBT

Foto: Coral Câmara LGBT 

Por Simony dos Anjos

 

Em 28 de junho é comemorado o dia Internacional do Orgulho LGBT+, essa data é celebrada em memória do que aconteceu em Nova Iorque, em 1969. Nesse dia, pessoas que frequentavam a Stonewall Inn, um local de encontro da população LGBT+ (até os dias de hoje), reagiram a uma série de batidas policiais que eram realizadas ali com frequência. Esse levante resultou na primeira parada do Orgulho LGBT em 1º de Julho de 1970. E para comemorar essa data, a coluna (fé)ministas cede o espaço para divulgar um projeto lindíssimo que é o Coral Câmara LGBT do Brasil, com a palavra o Maestro Ettore Ruggiero Verissimo:

Coral Câmara LGBT do Brasil por Maestro Ettore Verissimo

Eu sempre fui uma pessoa muito espiritualizada e, como maestro, considero a música uma forma muito clara de conexão com o mundo de lá. Acredito que temos missões na Terra e que o universo nos dá as ferramentas necessárias para cumprirmos nosso papel na ordem global. Para mim, se nos esquivarmos dessas responsabilidades, adiarmos nossa jornada ou nos desviarmos do caminho, o carma cobra seu preço.

Senti o meu chamado por um trabalho com a comunidade LGBT+ acompanhando as atividades de meu marido Gabriel Rajão, diretor da Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil.  “Se você apresentar um projeto embarcaremos juntos”, disse ele. Comentei com minha melhor amiga, a artista musical, bailarina e ativista vegana Bruna Dias, sobre a ideia de trabalharmos a música dentro do universo LGBT e foi o primeiro indício de que o chamado era divino. Bruna também estava atenta à falta de oportunidades para a pessoa LGBT, especialmente no segmento trans e desejava fazer sua parte na luta contra o preconceito.

O trabalho não foi simples e foram quase cinco meses até que conseguíssemos, junto à Câmara LGBT e à Assessoria de Cultura para Gêneros e Etnias do Governo do Estado de São Paulo, colocar em prática a ideia. Para nós, a princípio, estávamos meramente criando um Coral LGBT, mas não demorou muito para que entendêssemos a magnitude da nossa empreitada.

Os primeiros ensaios, cheios de incerteza, se tornaram ponto de encontro da diversidade, onde homossexuais, bissexuais, lésbicas, heterossexuais, cis e trans, pobres e ricos, velhos e novos, negros e brancos, se reconheceram e se transformaram em uma família. Uma coisa que não LGBTs não compreendem é que são raros os momentos em que nos sentimos verdadeiramente aceitos. Até poucos anos as únicas alternativas culturais para nossa comunidade se resumiam a baladas, momentos quando é difícil formar amizades verdadeiras. Assim a solidão é um predador natural do LGBT e na maioria das vezes não há a quem recorrer, pois um adolescente sair do armário em âmbito familiar – e conseguir o apoio – é um sonho quase impossível.

Para mim a voz é o reflexo da nossa personalidade, e quanto mais a trabalhamos, mais conseguimos dar força a nossa expressão pessoal. Para a comunidade trans, utilizar a própria voz é conquistar de volta seu poder de fala, de posicionamento, de adequação ao corpo que realmente lhe é devido.  O coral é hoje a voz de uma comunidade que quer transmitir uma mensagem de amor, uma mensagem de união, é a voz da resistência num mundo onde todos usam a luta e violência como armas de defesa. Nós não. Nós queremos contaminar, inflamar a sociedade somente com tolerância e respeito.

A cada nota certa ou errada, a cada nova canção íamos nos aproximando, conhecendo a história de cada um, nos reconhecendo em conversas sem pudor, sem barreiras. Vimos semelhanças e diferenças em nossas lutas, reconhecemos que a distância entre cada letrinha de nosso arco-íris (muitas vezes incentivado pela sociedade) só atrapalha nossa música. O coral é quase uma metáfora da luta LGBT: há talentos que sozinhos se destacam, mas mesmo estes, se não estiverem alinhados com o grupo, impedirão o canto coletivo.

O nosso caminho futuro ainda é desconhecido, mas fato é que, para nossa surpresa, fomos aceitos por onde passamos. Cantamos em bancos, em eventos do Governo, na Feira da Diversidade da Parada LGBT e quando piscamos estávamos com um ano de vida. Fomos aceitos no GALA Choruses, grupo de corais  LGBT mundiais com sede nos EUA. Nos amamos e brigamos como em qualquer família, crescemos e diminuímos quando temos que fazê-lo, mas nunca pararemos de cantar enquanto cada uma de nossas vozes for ouvida e respeitada. Bem-vindos ao Coral Câmara LGBT do Brasil por Maestro Ettore Verissimo. Bem-vindos à minha família.

 

Depoimentos

O Coral transformou minha vida. Num momento quando eu tinha problemas com auto estima o coral me reacendeu, pois aceitou minha voz dentro da minha identidade de gênero. O maestro respeita nossa individualidade e aqui posso dizer que encontrei não amigos, mas família”.

Mariane Clemente, transexual.

 

 “Entrei no coral por causa do meu irmão, ele é gay e me trouxe.  Sou heterossexual mas cresci no meio LGBT pois meu irmão é gay, porém foi somente aqui, neste grupo, que minha cabeça foi aberta, onde saí da minha caixinha para compreender por dentro esse universo. Amo tudo no Coral, é muito bom, você se reconhece como pessoa”.

Brenda Silva, 17 anos

 

O coral representa a força que eu precisava para viver tudo que sempre sonhei. Aqui, além da música, amo a convivência com todo mundo, com todos nós. O espaço para o LGBT é preterido no mundo, temos pouquíssimos e  precisamos mais desses encontros. O coral é exatamente o que buscava para interagir, sociabilizar, viver”.

Bárbara Elizier Dias Burnier, bissexual

 

Estou no coral desde o começo, agosto de 2017. O Coral é uma família, especialmente já que a minha é do interior. Aqui fui abraçado de uma forma muito linda. Curto tudo no espaço e como trabalho num lugar muito fechado, muito homofóbico. Aqui eu sou livre, é uma vibe diferente, um espaço  de liberdade sem preconceito”.

Eliézer Flávio dos Santos Souza, homoafetivo

 

Comecei em outubro de 2017, mas parei por um problema de saúde e voltei depois do Carnaval. O Coral é o evento que me tira de casa. Eu tinha parado de sair de casa, de cantar, de me divertir. As apresentações nos tiram o medo de errar a música, de não cantar certo. O Coral é alegria, é amizade. Aqui somos todos amigos e isso é mais importante”.

Marcos Vinícius  Rochenzel, Markito, 57 anos.

Quinta-feira, 28 de junho de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend