Copa do Mundo como metáfora da vida
Sexta-feira, 29 de junho de 2018

Copa do Mundo como metáfora da vida

Foto: EBC

Eu torço pelos times latinos em primeiro lugar, em segundo pelos africanos. Algumas vezes coincide dessas seleções terem tradição e títulos, mas na maioria das vezes não. Tudo bem. Pra mim serve para pensar que eu sei de que lado eu quero estar e esse lado nunca será do lado dos ricos, dos colonizadores e dos imperialistas. 

A experiência como espectadora da Copa é minha e eu torço para quem eu quiser. Mas sempre eu digo isso um especialista em futebol – que coincidentemente costuma ser homem – sai do bueiro pra me dizer que estou torcendo errado. Que eu deveria ver o futebol, a tradição das seleções, a técnica, a campanha feita na fase de classificação. Eu conheço as variáveis que importam para vocês, meus caros. Só que pra mim elas não dizem nada.

A beleza do futebol é que se trata de um esporte que pode, como diria L.F. Veríssimo a respeito do futebol de rua, ser praticado por times que variam de um a sei lá quantos de cada lado. Um esporte que precisa apenas de um par de chinelos ou tijolos/pedregulhos para marcar a trave, e qualquer objeto vagamente redondo que sirva de bola. E é um esporte em que algumas vezes um pequeno pode vencer um gigante.

A Copa do Mundo é um evento milionário e pouco acessível e, evidentemente, os times de países menores, não raro, mais pobres, não possuem a mesma chance de os grandes. Mas vez por outra surge um azarão, como a Costa Rica na copa passada, que foi só pela zuêra e indo mais longe do que se poderia imaginar.

Eu sempre soube que eles não tinham chance de vencer, mas eu torci mesmo assim. É bom ver que mesmo entre os que não tem chance diante dos gigantes, saber se comportar com dignidade estando no grupo de morte pode te levar longe. Porque muitas vezes a vida te coloca em situações em que você sabe que não vai vencer jogando no jogo que eles dominam. Mas você vai, você luta, você sangra. Na maioria das vezes você perde. Mas como diria Rocky Balboa, não se trata de bater, e sim o quanto você aguenta apanhar e permanecer na luta.

Fernando Pessoa dizia que o mundo é para quem nasce para conquistar, não pra quem pensa que pode (ainda que tenha razão). Conquistar o mundo é pros grandes, pra quem foi feito pra isso, em que pese estarmos tecnicamente em condições iguais de disputa. Eu olho pros pequenos como força e resistência diante do que é hegemônico e que parece impossível de vencer. Porque mesmo que a guerra seja algo feita por eles e para eles, algumas vezes é possível ganhar algumas batalhas.

Na Copa e na vida eu torço pelos pequenos. Vibro com eles por cada alegria pequenina, como a único da Panamá e uma celebração que poderia parecer desmedida para quem está acostumado com as vitórias. Quando você não está entre os grandes e vitoriosos, cada furtivo momento de glória tem sabor de conquista histórica. Quem torce por você sabe disso e vibra junto, porque está junto no mesmo barco.

Porque como dizia Clarice Lispector, a única salvação é a alegria. Num mundo que nos deprime e paralisa, alegria é resistência. As seleções que não tem chance mostram que vencer não é só ganhar o jogo, mas resistir altivo, sem servidão. Isso vale mais moralmente do que os três gols de uma potência habituada a vencer. Na Copa e na vida eu sou quem enfrenta adversários maiores e não perde a alegria guerreira. Usa vestes coloridas, dança e não perde a capacidade de sonhar. Porque eu creio que um dia iremos ter certeza da nossa força. Seremos capazes de nos auto-organizar de modo a não precisar mais dos grandes – de seus campeonatos e de suas regras – para sermos campeões.

Fhoutine Marie é Jornalista e Doutora em Ciências Sociais.

Sexta-feira, 29 de junho de 2018
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