“Desculpe os relatos, mas é só isso que o Estado nos oferece”
Quinta-feira, 5 de julho de 2018

“Desculpe os relatos, mas é só isso que o Estado nos oferece”

Foto: Thathiana Gurgel
(Todas as fotos contidas no artigo foram tiradas e pertencem à Thathiana Gurgel)

Sexta-feira passada (29) realizamos a sétima visita do “Defensoria na Intervenção – 40 semanas na favela”, desta vez no Chapadão, zona norte do Rio. O que era para ser só mais uma das 40 visitas previstas para ouvir os moradores sobre as abordagens das forças de segurança durante a intervenção federal, e informar sobre direitos e deveres dos cidadãos, acabou transformando e impactando os que não vivem nestes territórios abandonados pelo poder público, que só se faz presente nas favelas através de seu braço armado. Os relatos do Chapadão são um grito de socorro. As palavras engasgadas dos moradores saíam como tiros de fuzis, que atingiam, mais uma vez, instituições que seguem lutando pela garantia de direitos, embora a sensação seja a de que seguimos enxugando um gelo que está prestes a virar água.

Uma vez a mãe de uma vítima de violência do Estado disse, antes de uma exibição do documentário Auto de Resistência, em cartaz nos cinemas, que esperava que todos saíssem da sessão transformados. Essa fala me marcou, talvez pelo fato do filme ser tão obrigatório e urgente, e segue me acompanhando a cada visita do circuito Favela por Direitos.

Nunca se sai da mesma forma que se entra das favelas ouvindo tantos relatos de violência e sabendo que grande parte do nosso povo vive à margem das leis, das oportunidades e dos serviços que deveriam ser garantidos pelo Estado. E os relatos do Chapadão ficaram ecoando alguns dias, pulsando como seus corações claramente feridos e sangrando.

A ida do Circuito Favelas por Direitos ao Chapadão se deu no dia seguinte da entrada da da Força Nacional no local. A presença do Exército era ostensiva, com vários tipos de carros de guerra. Além da patrulha nas ruas e vielas a pé, os militares também faziam blitz, tiravam barricadas e montavam suas bases pelo território. Bases de guerra, com todo o aparato que o imaginário de guerra produz em nossas mentes. A diferença é que o território ocupado de forma militarizada é, mais uma vez, uma favela carioca. E o inimigo? Nós mesmos; nosso povo preto e pobre trabalhador.

Eles acham que aqui é tudo bandido, mas talvez não saibam que só 1% aqui é bandido, o resto é tudo inocente, trabalhador”.

Fiquei alguns dias com o cenário de guerra na cabeça, tentando reproduzir, em meu imaginário, as bases do exército na zona sul do Rio. Mas a cena se auto destruiu com a surpresa sincera de uma moradora ao receber nossa cartilha que diz que as revistas em domicílio só devem ser realizadas caso os agentes de segurança apresentem mandado judicial: “É sério isso?! Sabia não, achei que isso só servia lá pra baixo (asfalto), porque isso aqui acontece sempre…”.

Assim como a invasão de casas, relato comum em todas as favelas que já visitamos, as denúncias do Chapadão não eram só sobre esculachos, mas sobre a matança sistemática que sofrem:

Teve um que foi morto no dia do aniversário, quando voltava da pelada pra fazer churrasco na porta de casa com os amigos. Tomou um tiro de fuzil, morreu. O outro tava catando material reciclável e os policiais ficaram brincando de tiro ao alvo com ele até acertarem ele. Outro foi assassinado enquanto chupava uma manga. São muitos os casos, e o que acontece? Nada!! O que eles fazem aqui é caça! Eles atiram em criança correndo descalça e sem camisa. Levaram meu filho e não vou tê-lo de volta, mas vou seguir lutando por toda a minha vida, por toda a juventude”, disse uma mãe que teve seu filho executado.

 

Curiosamente, para parte dos moradores, a presença do Exército é vista de forma mais positiva do que a da polícia, mesmo eles tendo sofrido toque de recolher no primeiro dia de ocupação pela tropa: “a polícia só entra aqui pra matar a gente, o Exército pelo menos é mais educado, até nos desejam boa tarde”. As críticas mais pesadas são para os homens do 41º Batalhão da Polícia Militar, classificado como um grupo de extermínio pelos moradores.

O Estado não dá nada pra gente”.

Infelizmente, o mais comum entre os jovens do Chapadão é ser preso ou morto. A evasão escolar é altíssima e as lideranças locais lamentam não terem nada para oferecer aos jovens. A ausência de direitos e de oportunidades nestes territórios é tão grande, que às vezes chega a ser constrangedor falar de garantias de leis. Mas seguimos acreditando, lutando e plantando sementes de esperança.

Thathiana Gurgel é jornalista e integra a equipe de Comunicação da Defensoria Pública do Rio de Janeiro.


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