Owens do século XXI: o regresso decolonial dos invisibilizados
Segunda-feira, 16 de julho de 2018

Owens do século XXI: o regresso decolonial dos invisibilizados

Em 1936, os jogos olímpicos revelaram ao mundo uma lição de igualdade humana que se contrapunha ao mito ideológico do nazismo a respeito da existência de raças humanas superiores a outras. Naquela oportunidade, o corredor Jesse Owens foi o vencedor em diversas modalidades de disputa olímpica, e, entre elas, a prova de salto à distância, tendo entre seus competidores vencidos o favorito alemão Lutz Long.

Todavia, neste episódio, com Adolph Hitler entre os espectadores, Owens venceu mais do que uma disputa esportiva, mas o ódio, o asco xenofóbico e o estigma racista que virulentamente se espraiavam no continente europeu na Pré-Segunda Grande Guerra. Sua vitória sobre o representante da nação alemã pôs em xeque a validade pseudocientífica das bases teóricas da doutrina ariana. Oriundo do país das “leis de segregação racial do tipo Jim Crow[1], Owens, negro originário do estado do Alabama, nos Estados Unidos, aprendeu, no contexto social de suas origens, a vencer os debates racistas que se materializavam nas arenas esportivas e desafiavam sua técnica e capacidade, em desprestígio por sua condição de sujeito afrodescendente.

Com o desfecho da Copa do Mundo de Futebol de 2018, tornamos a presenciar o deslumbre dessa lição. Uma final de um Campeonato Mundial que carrega em si um valor simbólico. Uma seleção francesa predominantemente formada por afrodescendentes que, pelo menos por uma tarde, fazem-se ouvir pelo mundo. A vitória da seleção francesa rememora a necessidade de avaliarmos a sociedade a partir de uma perspectiva de que é necessária a oferta de oportunidades de acesso universal a direitos aptos a inserir sujeitos alijados no processo de exploração do sistema econômico, reparando injustiças sociais e, consequentemente, revelando novos vencedores dos conflitos, seja de classe, gênero, raça, ou outra condição humana.

Mbappé, jogador premiado na final do megaevento pela revelação de sua exímia capacidade desportiva, é o Owens deste século. Em seu processo de formação biográfica, encontram-se as marcas da atualmente ojerizada afrodescendência migratória na França. Seu pai é camaronês e sua mãe argeliana, países colonizados pela perfídia exploratória e relegados às atuais condições de pobreza econômica e miséria social. Em situação similar está a família do seu colega de seleção, N’golo Kante, originária do Mali, que quando criança sujeitou-se até a recolher comida pela rua para sua sobrevivência pelos subúrbios de Paris.

Até 2017, a França foi o país com a maior taxa de rejeição a pedidos de imigrantes de toda a Europa: 72%. Além disso, segundo pesquisa conduzida pelo Instituto Real de Relações Internacionais em 2017, 61% da população francesa rejeita os imigrantes ao seu país.

É instigante notar que, em um lapso temporal de 20 (vinte) anos, quatro copas atrás, como a seleção francesa enegreceu-se. Há uma gradação evidente da delegação francesa que sagrou-se campeã em 1998 em território francês para esta Seleção Francesa que se torna mais uma vez o centro das atenções no meio futebolístico. Em percentuais, aproximadamente 60% (sessenta) da atual delegação francesa tem ascendência afrodescendente oriunda dos países colonizados pela França. Cabe nos perguntar a quem isso realmente é útil ou o porquê essa mudança num país que tem uma alta taxa de rejeição a imigrantes.

É bem possível que após essa vitória da seleção esportiva, a população francesa seja instada a repensar sobre o valor da diversidade do povo imigrante e sua contribuição para a formação da nação. Contudo, não se pode cair na armadilha do calor dos festejos dos louros, cuja euforia em pouco tempo estará amornada pelo regular prosseguimento do cotidiano e retorno ao confronto dos problemas sociais.

A vitória da seleção francesa, atualmente composta por sujeitos afrodescendentes vitimados duplamente pela sua relação com a condição étnica e imigrante, deve ser uma questão de discussão simbólica que não pode se limitar ao espectro esportivo, sob pena de se circundar o estereótipo balizador da concepção de que os segmentos subalternizados estão predestinados a serem excelentes nas atividades que demandem o esforço físico, atrelando a questão racial à questão da capacidade laboral[2], reservando o luxo do trabalho intelectual às elites étnicas e classistas, à medida que se atribui o trabalho braçal à condição de esforço sujo e ignóbil, típico do sujeito pobre e negro[3].

Constituiria um crasso erro, senão deliberado intento de perpetuação do ciclo de pensamento colonial[4] que discrimina grupos por suas posições históricas de colonizador e colonizado, imaginar que há vantagem em receber os imigrantes negros porque deles se possa extrair “vantagem” nos esportes. Sabe-se bem que o negro, onde teve que competir com o trabalhador branco, “viu-se refugiado e repelido para os porões, os cortiços e a anomia social crônica[5], relegado, portanto, àquelas atividades de menos prestígio à cultura das elites capitalistas de classe e etnia.

Ora, que ameaça teria, na França, em relegar aos segmentos vulnerabilizados o âmbito dos esportes, deixando o espaço fabril comercial do lucro para os nacionais brancos? Contudo, mesmo nos restritos espaços aonde se relegou o negro, nota-se ali a revolução de um sujeito que traz consigo em sua atividade o espetáculo da excelência em seu modus facere e que brilha mesmo nos recônditos onde fora deixado para ser invisibilizado.

Essa revolução que se instaura com o aparecimento do sujeito alijado que sai de sua posição invisível para mostrar aos que estão ao seu redor o quanto ele pode ser bom no que faz e, inclusive, melhor do que dele se espera em cotejo com outros sujeitos em posição mais favorável no exercício dos direitos de cidadania, é o que Boaventura Sousa Santos[6] nos lembra como sendo o regresso do colonial, uma resposta abissal de contramovimento subalterno que se intromete e ameaça a lógica historicamente separatista entre as funções construídas para exploradores e explorados, confundindo os campos e homogeneizando o acesso e exercício dos direitos.

Repensar para a posteridade e continuamente a política de acesso à cidadania do imigrante, o combate à Afrofobia, e a igualdade social é uma demanda social urgente, mas que não pode se limitar ao ciclo de quadrienal de um megaevento.

Por ora, o renascimento dos Owens do século XXI nos adverte e concita ao debate contemporâneo que impulsiona ao enfrentamento das quiméricas teses de discriminação que, sob muitas formas e fundamentos, de tempos em tempos, insistem em tentar a Humanidade.

Lucas Correia de Lima é Mestrando pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Membro da ABRADE. Advogado. Servidor Público da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Abigael Santos de Almeida é Mestrando pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor. Servidor Público da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.


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[1] HERNANDÉZ, T. K. Subordinação racial no Brasil e na América Latina: o papel do Estado, o Direito Costumeiro e a Nova Resposta dos Direitos Civis. Salvador: Edufba, 2014.
[2] MOURA, C. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1988. 
[3] SANTOS, M. V. dos; MOLINA NETO, V. Aprendendo a ser negro: a perspectiva dos estudantes. Cad. Pesqui. [online]. 2011, vol.41, n.143, pp.516-537.
[4] QUIJANO, A. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula. (Orgs.) Epistemologias do Sul. São. Paulo; Editora Cortez. 2010.
[5] FERNANDES, Florestan. A sociedade escravista no Brasil. In. IANNI, Octavio. (Org.) Florestan Fernandes. 2ª ed. São Paulo: Ática, 2008. p. 225-265.
[6] SANTOS, B. S. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia dos saberes. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula. (Orgs.) Epistemologias do Sul. São. Paulo; Editora Cortez. 2010.
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