Reconhecimento, estigma e o beijo do Borel
Terça-feira, 17 de julho de 2018

Reconhecimento, estigma e o beijo do Borel

Foto: Nego do Borel/Me Solta/Divulgação

Através de um aplicativo de celular, em um grupo de militantes LGBT, recebi áudios que foram apresentados como sendo de “traficantes do Morro do Borel”. As vozes masculinas dos áudios criticavam o cantor Nego do Borel por ter “colocado sangue rosa”. Afirma-se que do Borel “sai sangue de homem, #[email protected]!”. Outro o classificava como “otário”. Com sotaque carioca, dizia que “o bagulho ficou mal visto” para eles, moradores da localidade. O terceiro afirma que “esse moleque”, em referência ao cantor, “não representa o Borel”, nem o funk. Lembra que “no Borel ninguém fica beijando homem não, rapá!”. Conclui: “nem os viados estão aceitando ele”.

Críticas parecidas foram feitas por fãs do cantor nas redes sociais que também não se identificam como LGBT, nem mesmo como moradores do Borel ou são apresentados como supostos “traficantes”. As reclamações são em relação ao clipe da música “Me solta[1], que circula na internet em mais uma polêmica envolvendo questões de reconhecimento e representatividade na era das mídias digitais. As críticas desse grupo é em relação ao cantor ter beijado outro homem no clipe, não necessariamente por ele ter se apresentado vestido de mulher, imitando uma bicha[2].

Diferente disso, as recusas por parte do público LGBT apontam para o fato de Borel ter se apresentado montado[3]. Para muita gente engajada nos direitos pró diversidade sexual, Borel não representa o grupo de pessoas negras, pobres, afeminadas que, como se sabe, têm sofrido diversas formas de violência no país. O julgamento em relação ao clipe é a de que foi um jogo de marketing, pensado exclusivamente para envolver o público consumidor LGBT. Por isso, não teria uma intenção real de transformar a realidade vulnerável desse seguimento, mesmo o clipe contendo um beijo do cantor em outro homem.

Em vez de aceitar que esses dois grupos, o de não LGBT e o de LGBT[4], não se viram representados nesse clipe, reflito sobre parte do que esses dois grupos reconheceram em “Me solta” e as suas implicações para o campo da luta por mais direitos no contexto contemporâneo.

Judith Butler afirma que o reconhecimento passa necessariamente por um caminho comum entre histórias singulares, e esse caminho o coloca em circulação. Isso porque “o reconhecimento é uma relação intersubjetiva, e, para um indivíduo reconhecer o outro, ele tem que recorrer os campos existentes de inteligibilidade” (2010, p.168).

Aqui não se trata de pensar em reconhecimento como apenas aquilo que os grupos sociais aceitam como sendo relacionado positivamente a eles, antes, compreender as críticas como uma forma de reconhecimento de uma não identificação com aquilo que se recusa. Reconhecimento nesses termos não é apenas aquilo que escolhemos como sendo algo que nos representa. A representatividade negada, comumente, anuncia também aquilo que não queremos ser, mas que nos constitui. Nesse caso, a imagem da bicha negra, pobre e afeminada.

São os campos de inteligibilidade que precisam ser problematizados para se compreender o motivo pelo qual a representatividade de grupos tão distintos se encontram nesse processo de não identificação diante desse artefato cultural, isto é, da polêmica que envolveu a montagem e o beijo de Borel no clipe. Ela é mais um exemplo de como se dão os corpos nesses campos de inteligibilidade, afinal “os corpos só surgem, só permanecem, só sobrevivem dentro das limitações produtivas de certos esquemas reguladores com alto grau de generalização” (BUTLER, 2008, p. 14); mesmo os corpos tidos como risíveis que Borel buscou performatizar.

Enquanto artefato cultural, o clip da música é um “dispositivo pedagógico” em termos de raça, classe, gênero e sexualidade. Essa produção audiovisual contribui para com os “currículos culturais”, entre outras coisas, produzam valores e saberes, regulem condutas e modos de ser, fabriquem identidades e representações, constituam certas relações de poder (SABAT, 2001) que em muito implicam em experiências de vulnerabilidade social. Não é, portanto, algo sem importância, especialmente por envolver estigmas tão marcantes de um grupo ainda marginalizado em relação ao acesso a direitos.

Se, por um lado, os não LGBT viram problema no beijo entre Borel e um outro homem, os LGBT se incomodaram mais com a montagem. No Brasil, vestir-se de mulher não é um problema para homens em geral, seja no carnaval ou em vídeos risíveis postados na internet nos mais variados contextos, mas beijar na boca de um outro homem rompe com a performance estereotipada de um cara macho vestido de mulher. Para os LGBT, não se trata de simplesmente recusar os corpos negros, afeminados e pobres, porque eles existem, inclusive no funk protagonizado por homens gays ou cantoras trans de sucesso. A questão é a humilhação via o riso, portanto, menos o beijo (ainda que o tenham criticado devido o parceiro ser branco, malhado e másculo – um padrão hegemônico e inatingível para a maioria dos homens brasileiros).

Por mais que as redes tenham sugerido que o cantor deveria ter convidado uma bicha negra, pobre e afemina “de verdade” e não se montado, devemos ter claro que se, por um lado, “a experiência corporal é uma das dimensões para a produção da rebeldia”, por outro, “a consciência política e a agência transformadora não são determinadas pelas estruturas biológicas, por experiência localizável exclusivamente no corpo” (BENTO, 2011, p. 105). Logo, não bastaria substituir Borel no clipe por algum LGBT para representar as/os LGBT.

Por sua vez, se não houvesse beijo, o estigma da bicha negra, pobre e afeminada seguiria no seu lugar de produção de subalternidade e, consequentemente, de legitimidade de uma masculinidade supostamente não LGBT, viril no seu sorriso diante de mais um macho vestido de mulher. A questão da diversidade sexual seguiria ilegítima fora dessa performance de uma bicha “falsa”. O tema mesmo da importância das vidas das bichas seria intocado, um tema proibido em termos de valorização, apoio e incentivo, isto é, de reconhecimento de direitos.

O riso, nesse sentido, continuaria sendo a forma de apresentar esse tema, ou de falar sobre a tese que hegemonicamente se defende sobre ele, afinal, uma piada funciona por isso, não pela sua forma, mas por seu conteúdo, porque se necessita de um tema proibido ou controlado por regras sociais de bom comportamento (POSSENTI, 1998). Nesse caso, tendo o cantor Borel a representatividade que tem, de macho do funk e do morro, beijar outro homem não é piada, ainda que esteja vestido de mulher.

O que isso nos ensina para o campo dos direitos é que o estigma existe, está presente e, ao mesmo tempo, não é o mesmo de outros tempos. Isso porque, segundo Erving Goffman (1988), o estigma é um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo, relação essa que deve ser contextualizada historicamente. A luta por direitos, inclusive de representatividade da bicha negra, pobre e afeminada já constitui hoje uma experiência diferente das de outras épocas, entre outras coisas, porque o estereótipo desse perfil de bicha segue risível, mas não passa mais ileso, como se fosse inofensivo.

Outra mudança é o fato de que, em tempos que o sucesso é garantido por bichas negras, com origem pobre e afeminadas, via performances não risíveis, como no próprio contexto da música nacional, inclusive em alusão a direitos a serem respeitados, a representação da bicha sai dos programas de humor e vai para outros artefatos culturais, como as “super produções” do funk.

Assim, essa performance estigmatizada cotidianamente segue sendo um objeto de desejo de quem pensa entrar ou permanecer no mercado midiático nacional, ainda que não seja LGBT, mas ampliando seus espaços. Logo ampliar-se-á muito mais, para quase tudo que buscarão vender, para além do riso e do funk, o que necessariamente não gerará mais direitos.

Assim, considerando que os corpos são sujeito de dinâmicas sociais, lócus de articulação de relações e legitimador de princípios sobre a sociedade (MONTEIRO, 2012), precisamos pensar o estigma e os campos de inteligibilidades diante das novas experiências de reconhecimento e identificação, mesmo via os discursos de não representatividades. Talvez tenhamos chegado o momento de reconhecer que um artefato cultural, via a rejeição de grupos distintos, nos diz sobre quais são os sujeitos que precisamos seguir tomando como um desafio quando a questão é a ampliação dos direitos.

Tiago Duque é Doutor em Ciências Sociais. Professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Líder do Impróprias – Grupo de pesquisa em Gênero, Sexualidade e Diferenças (UFMS/CNPq).


Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

 


Referências

BENTO, Berenice. “Política da Diferença: Femininos e Transexualidades”. In: COLLING, Leandro (org). Stonewall 40 + o que no Brasil? Salvador: UFBA, 2011. pp 79-110.
BUTLHER, Judith. Cuerpos que importan: sobre los limites materiales y discursivos del “sexo”. 2º Ed. Buenos Aires: Paidós, 2008.
BUTLHER, Judith. Conversando sobre psicanálise: entrevista com Judith Butler. Entrevista concedida a Patrícia Porchat Pereira da Silva Kunudsen. In: Revista Estudos Feministas. vol.18, n.1, pp. 161-170, 2010.
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1988.
MONTEIRO, MarkoSynésio Alves Monteiro. Os dilemas do humano: reinventando o corpo em uma era (bio)tecnológica. São Paulo: Annablume, 2012.
POSSENTI, Sírio. Os humores da língua: análise linguística de piadas. Campinas: Mercado das Letras, 1998.
SABAT, Ruth. Pedagogia cultura, gênero e sexualidade. Estudos Feministas. Santa Catarina, ano 09, 2º semestre, pp. 09-21. 2001.
[1] Clipe disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=FY3m6hMyh3g>. Acesso em 15 jul. 2018.
[2] Uso a categoria acusatória bicha como uma expressão ressignificada, em respeito aos seus usos identitáriosautoafirmativos, politicamente engajados. 
[3] Montagem é o ato de se vestir com roupas e acessórios do “sexo oposto”, variando a intencionalidade de acordo com a situação e o perfil identitário de quem se monta.
[4]A divisão do perfil das pessoas críticas ao cantor em dois grupos é meramente analítico, no sentido de articular uma reflexão que não busca ser generalizadora, mas didaticamente compreensível.
Terça-feira, 17 de julho de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend