Dissecando os discursos midiáticos sobre militarização da segurança em 10 tópicos
Segunda-feira, 23 de julho de 2018

Dissecando os discursos midiáticos sobre militarização da segurança em 10 tópicos

Foto: Pinterest

  1. O governo brasileiro trata o problema do tráfico de drogas e a violência apenas na perspectiva criminal, encobrindo a questão social e econômica (falta de horizontes sociais, desemprego crônico, exclusão social e racial), que catalisam o crescimento do tráfico e o consumo de drogas. Centraliza o problema no traficante do morro ou da periferia, depositando nele e no território inimigo – a favela, todos os males sociais, inclusive a violência.
  2. Dissemina-se a ideia de terror e medo, inventam-se subjetividades violentas para manter-se o discurso da necessidade do controle e da intervenção.Cria-se o invólucro de uma guerra, com tanques, helicópteros, forças federais e estaduais, justamente para que a população – os “cidadãos de bem” – apoiem e vibrem com a ostensiva, o encarceramento e as mortes.
  3. Tece-se um véu sobre a violência indiscriminada do governo e da polícia, e alega-se que esta é necessária para eliminar aqueles considerados “degenerados”, “bandidos”, “marginais”. Na guerra contra as drogas e a violência, vale tudo, inclusive mais violência, assassinato extrajudicial, “abate” de suspeito, “bandidos” alvejados por tiros ao vivo na televisão, balas perdidas, troca de tiros, morte de inocentes. Atentemos: a guerra entre as facções criminosas é necessária para a manutenção do poder do Estado.

  4. A mídia nos mostra os traficantes do morro como o vilão da história, encobrindo o fato de que estes na verdade são os explorados do narcotráfico, os que estão na linha de frente, imunizando assim os verdadeiros beneficiários do tráfico de drogas. (multimilionários, cartéis, banqueiros, políticos).
  5. Para o nosso atual governo golpista, é muito mais interessante uma situação de violência generalizada do que uma sociedade democrática onde os direitos são respeitados, pois assim sobre o pretexto do combate ao tráfico de drogas e à violência controla-se e divide-se a população entre aqueles que devem viver e aqueles que devem morrer. Além disso, com medo do “superpoderoso inimigo” – o bandido-traficante do morro – a própria população apoia o autoritarismo do Estado e a ideia de que se for para acabar com a violência e o tráfico de drogas, qualquer coisa que aconteça nas favelas é justificável, inclusive mais violência.
  6. Os países da América Latina são “coadjuvantes”, ou melhor, “colônias” do narcotráfico, pois abastecem os países desenvolvidos com a “matéria-prima” da droga ou funcionam como canais para a distribuição da mesma. Grande parte dos “narcodólares” ficam com os bancos lavadores de dinheiro e os cartéis que distribuem o dinheiro inclusive entre os políticos.
  7. Os grandes beneficiários do narcotráfico criam uma espécie de “laranja”, um “bode expiatório”, ou seja, o traficante da favela ou periferia que deve ser combatido, encobrindo a ação dos gigantes do narcotráfico.Por ser um comércio muito lucrativo, os grandes narcotraficantes costumam controlar o governo, as unidades de combate ao tráfico e até as forças armadas.
  8. À primeira vista, o narcotráfico e a violência parecem ser um problema a ser enfrentado pelos governantes, uma vez que muito dinheiro é implantado na guerra aos traficantes e no tratamento dos cidadãos viciados. Entrementes, o narcotráfico atua como uma empresa capitalista e fatura anualmente no comércio mundial cifras superiores a U$ 500 bilhões de dólares, sendo um dos negócios mais lucrativos do mundo. Para você ter uma ideia do lucro, o quilo da cocaína na Bolívia custa em média 3 mil dólares, em São Paulo 10 mil dólares, nos Estados Unidos 35 mil dólares e na Europa 45 mil dólares.As apreensões de carregamento e as tentativas de contenção ao consumo e ao tráfico só afetam de 10 a 15% de todo o comércio mundial.
  9. Como qualquer empresa capitalista, o narcotráfico está organizado de acordo com os parâmetros da economia de mercado e é afetado pelos mesmos ciclos do capitalismo, portanto, em fases de superprodução é preciso regular os preços no mercado reprimindo a oferta para manter-se o preço e o lucro. A repressão ao tráfico é uma das formas de regular o preço da droga.
  10. A ideia de “guerra contra as drogas”, colocada sob os holofotes da mídia é falaciosa, pois se de fato o governo federal estivesse com vontade de dissolver o narcotráfico e a violência ele agiria contra os bancos, atacando o sigilo bancário, estenderia radares e patrulhas nas fronteiras do Brasil com o Peru, a Bolívia e a Colômbia, grandes “colônias” produtoras de drogas e principais provedoras do Brasil e dos Estados Unidos, maior consumidor de drogas no mundo. Ou então, investiria em desenvolvimento social, garantindo a toda população os direitos básicos de cidadania. Em resumo: o fim do tráfico de drogas é insolúvel, a violência persevera e qualquer interdição militar é inútil.

Luanda Julião é Doutoranda em Filosofia Francesa Contemporânea pela Universidade Federal de São Carlos. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Professora de História e Filosofia na Escola Estadual Visconde de Itaúna.


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