É Proibido Sonhar ou O Sonho acabou…
Segunda-feira, 23 de julho de 2018

É Proibido Sonhar ou O Sonho acabou…

Imagem: Pinterest

“Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados”
Haiti – Caetano Veloso

 

Sou da geração marcada pela Tropicália, e Caetano cantou canta, lindamente, que “é proibido, proibir” e que “caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento, eu vou”. Mas, Nós, Pretas e Pretos, podemos andar sem “lenço”, ainda nos restou o “vento”, porém não podemos caminhar sem documento. Nem brincar no telhado. É perigoso ir à escola. As aulas podem, a qualquer momento, serem interrompidas pela violência. Infância negada. Os casos são inúmeros de vidas ceifadas, vidas são vidas e as vidas importam. Porém, a maioria tem cor. É Preta. Juventude Preta, periférica, que se transforma em estatística. Dororidade.

Thula Pires, mulher preta de axé, mãe da Dandara, professora de Direito Constitucional da PUC-Rio , minha irmã de Axé, na sua Resenha do Livro Conceito Dororidade, destaca que

O conceito de Dororidade busca oferecer novos termos e pressupostos para o enfrentamento de violências herdadas da colonialidade que marca ausências, produz silêncio histórico, o não-lugar, a invisibilidade do ‘não ser, sendo’.” (p.17)

E, reposiciona a postura a partir da qual a construção de uma democracia real pode ser, efetivamente, construída. Trata-se de um conceito que “carrega um mundo de significados e significantes” (p.15), que pressupõe “Reflexão … Crítica … Discursos” (p.16), além de Transformação e Movimento.

Nas palavras de Vilma Piedade, Dororidade contém “as sombras, o vazio, a ausência, a fala silenciada, a dor causada pelo Racismo. E essa Dor é Preta” (p.16).

E é essa Dor Preta o que resta do sonho interrompido. O sonho de muitas crianças, adolescentes, jovens pretos. Agora foi a vez de Ryan, um adolescente de 16 anos, que estava brincando com outros dois adolescentes e resolveram subir no telhado de uma clínica em Magalhães Bastos, zona norte do Rio de janeiro.

Quase não tem telhado na zona sul, a não ser nas comunidades, onde os sonhos acabam, antes de serem sonhados. Brincar no telhado incomodou um agente da lei que atirou e matou Ryan, e seu sonho de ser jogador de futebol.

Arrancaram o turbante de Dandara na festa da sua formatura e as Vidas Pretas continuam a ser de menor relevância para a violência  legitimada pelo Racismo. Racismo? Mas, Vilma o atirador é preto. E daí? Falo de uma das facetas do Racismo. O Racismo Territorial. Quase impossível um adolescente ser morto brincando num telhado na zona sul. Ainda bem que não. Porque todas as vidas Importam. Contudo, as chances são minímas , a zona sul é vertical, prédios sem telhados.

Dororidade fala disso… Uma dor que não é maior ou menor, uma dor que “dói e ponto” (p.18). Aquela que sentimos … “a Dor e a nem sempre delícia de se saber ou de não se saber quem é … quem somos numa sociedade mascarada pelo mito da democracia racial” (p.18).

Estudiosos nos mostram que o Racismo é o divisor de águas, da estrutura e formação das cidades que vêm desde o início do desenvolvimento urbano no RJ. Aí deu nisso: pobres e negros morando nas periferias e brancos ricos morando em bairros chamados nobres, na zona sul.

A arquiteta Joice Berth afirma que o racismo é o estruturador social, e nos lembra que o problema começou, justamente ,após a abolição da escravatura, no século XIX, quando foi editado o código de postura, com regras que proibiam a posse de terra por negros e uma legislação que facilitava a aquisição de terras por imigrantes europeus.

Continuando, Joyce afirmaO estruturador social é o Racismo. Então, a gente tem que trabalhar a partir dele para pensar nessas desigualdades sociais que vão sendo espelhadas, produzidas e reproduzidas no espaço das nossas cidades. Não tem como a gente falar em direito à cidade, em cidades sustentáveis sem considerar as desigualdades e a raiz delas, o Racismo“.

É, Ryan, brincar no telhado acabou com seu sonho e de tantas outras e outros adolescentes…

Buscando Caetano de novo “Tudo Preto, de tão Preto… o Haiti, é aqui“.

Vilma Piedade é Escritora, Mulher Preta, Antirracista, Feminista. Autora do Livro Conceito Dororidade.


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