MBL e a exposição do “Cú é Lindo”
Terça-feira, 24 de julho de 2018

MBL e a exposição do “Cú é Lindo”

Imagem: Exposição “Cú é lindo”/Divulgação

Entraram na exposição “Cú é lindo”, de Kleper Reis, no Instituto Goethe, em Salvador, e fizeram imagens em vídeo. Mais uma vez isso esta acontecendo. Estava expressamente proibido na entrada, assim como a indicação de idade, 18 anos. Isto foi parar num programa de péssima qualidade. O MBL foi à porta da exposição, fez com que o Goethe a fechasse por um dia. Isso tem nome, ódio.

O trabalho artístico, organizado cuidadosamente pelo próprio autor, é exatamente sobre isso. Sobre uma vida que envolveu espancamentos, agressões midiáticas, plágio, sobre muitos anos de uma vida criando obras. Trata-se de um projeto de CUra. Sobre como, desde criança, a dissidência sexual de Kleper fazia parte de sua vida. O artista já é um exilado há muito tempo, seu deslocamento pelo Brasil tem, em muitas medidas, a ver com sua obra – e sua vida.

A exposição é sobre o amor. Um amor que insiste, nesses tempos odiosos, em permanecer vivo. Ele sabe disso, passou por exclusões no Rio de Janeiro, já houve todo um movimento midiático em Salvador, por conta de sua oficina no Desfazendo Gênero, em 2015. Ele continua. Continua porque acredita que a cura está no mesmo lugar, no modo como podemos reelaborar, no corpo, criando outras imagens, a abjeção às dissidências. E não tem nada de ingênuo nisso, pelo contrário. É uma crença.

Desde as imagens de ficar desenhando no canto da parede, porque sair de casa lhe era impossível, graças ao medo, até a prática de yoga que o artista incorpora para criar outros mundos possíveis, outras imagens. Amorosas, alegres, curativas. É um itinerário de fortalecimento. É muito generoso da parte dele compartilhar conosco, que também somos dissidentes, o seu processo. Me toca muito, me faz pensar sobre como não estamos livres de revivermos nossos traumas todos os dias de nossa r-existência. De como podem haver modos muitos de elaborarmos isso. De trocar. De produzirmos alegrias.

Há pouco mais de um mês, estive em Maringá falando exatamente disso num evento de Psicologia, e estive também cozinhando e compartilhando minha moqueca. Cada um/a de nós encontra o seu jeito de elaborar tanto ódio que sofremos. Censura sempre existiu contra as artes, em geral, e tem acontecido nos últimos anos aqui no Brasil, mais fortemente. Tem sido anos duros, anos de “Escola Sem Partido” e “Ideologia de Gênero”, duas falácias inventadas por grupos políticos conservadores. Temos, nós artistas, sido esmagadas/os pelas políticas neoliberais, e nós, artistas dissidentes, que empreendemos uma arte que afirme a diferença, ainda mais. São todos os tipos de argumentos, que vão desde  os psicologismos até a definir o que é ou não é arte.

De repente, pessoas que não vão a museus ou estudaram psicanálise passam a proferir, de forma odiosa, argumentos sem fundamentos sobre o que deve ou não se exposto. Arte, caras e caros, é para desestabilizar nossos regimes de sensibilidade, se não for assim, nem deveria ser: já temos uma novela na Bahia sem pessoas negras protagonistas, publicidade que objetifica corpos de mulheres e a lista de exemplos poderia prosseguir infinitamente. Arte é outra onda. E no caso de “Cú é lindo” desestabiliza nossas vidas porque nos coloca no itinerário do artista, leva-nos a empatia. Não há como não se emocionar com a sua trajetória, com as imagens que ele traz. Percebemos, então, que não olhamos para a gente mesmo, a obra nos coloca essa tarefa.

Estas pessoas, odiosas e cheias de certezas sobre o que devem atacar ali não se deram a oportunidade de sentir nada.  Isso só quer dizer, para mim, uma coisa: estas pessoas nos querem mesmo mortas. Querem nos ver no lugar onde pensam que deveríamos estar: nos necrotérios, nas estatísticas, não deveríamos existir. Se pudessem, colocariam coisas na nossa comida. Nos envenenariam, são capazes do pior, são capazes de transformar um processo bonito de cura em algo abjeto. Para entender o que querem estas pessoas é preciso uma dose de radicalidade mesmo, porque são os mesmos espancamentos aos quais Kleper chama atenção que retornam. Se puderem, nos matarão a pauladas. Estamos já morrendo pelas esquinas. Mas temos a possibilidade de dar amor, e isso não nos querem deixar.

Ao lado do artista, eu estive na exposição. Me vi muitas vezes chorando. Me vi muitas vezes ali. Senti a força do amor que ele quer compartilhar conosco, desestabilizando nossos regimes de olhar esse mundo. Das emoções mais fortes não foram as imagens do corpo de Kleper, mas me olhar no espelho e ler “Você reconhece o fascista que existe em você?”. Por óbvio que quem está apenas tomado por ódio sequer tenha parado em frente ao espelho. O terror anal tomou conta dessa gente, em forma de ódio, de preconceito, de higienismo.

Convido a cada um/a a fortalecer esta rede, visitar a Exposição “Cú é Lindo”, no Instituto Goethe, em Salvador, até dia 12 de agosto, escrever sobre isso, trocar suas impressões, mandar mensagens ao artista, à Mostra Devires, onde a exposição está integrada. Re-viver o amor que Kleper tem pelo mundo. Entender que é sobre nossas vidas. As vidas de todas e todos, porque somos diferentes, e todas as existências merecem respeito. Tocar-se por outros regimes estéticos. Florescer, pensar outros mundos possíveis, nas nossas coincidências, como nos ensina o zapatismo. Tudo isso é sobre amor, sobre alegria, sobre uma r-existência curativa. Tem a ver sobre como este país precisa de processos de cura. E, sim, é dizer que cú é lindo.

Rafael Siqueira de Guimarães é performer, produtor cultural, professor e ativista. Formado em Psicologia e doutor em Sociologia, ambos pela Unesp, é líder do Grupo de Pesquisa Grieta e docente da Universidade Federal do Sul da Bahia.

 

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