Simpatizantes de Bolsonaro já foram eleitores de Lula, revela pesquisa
Terça-feira, 24 de julho de 2018

Simpatizantes de Bolsonaro já foram eleitores de Lula, revela pesquisa

Foto: EBC

Proximidade, carisma e honestidade. Argumentos utilizados em 2002 para justificar o voto em Luiz Inácio Lula da Silva , hoje fundamenta a escolha de muitos eleitores de Jair Bolsonaro para a presidência da república. Mas se no passado a figura de uma  liderança carismática possibilitou a vitória nas urnas do Partido dos Trabalhadores (PT), hoje ela também representa a ameaça da alçada ao poder de um candidato de extrema direita com encanto peculiar.

Ao passo que o cenário político instável favorece os discursos autoritários, a insatisfação com políticos acentua a proliferação de propostas simples para problemas complexos. Trata-se de um cenário fértil para que discursos odiosos sejam utilizados como arma política por candidatos, visto o apoio às declarações controversas do  “carismático” Jair Bolsonaro quando diz que é “preconceituoso, com muito orgulho”, que o erro da ditadura militar foi “torturar e não matar” e que ainda afirmou à uma colega da Câmara dos Deputados: “não te estupro porque você não merece”.

 

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O cenário que possibilitou a ascensão do ‘bolsonarismo’

Alguns aspectos conjunturais e estruturais explicam, segundo a socióloga da Unifesp, o que pode se chamar de “onda neoconservadora, alt-right, ‘nova direita’ ou crescimento da extrema direita”, simbolizada, em grande medida, pela figura de Jair Bolsonaro. Entre eles, podemos citar a desconfiança generalizada na política, o antipetismo e o medo da violência e da criminalidade, temas que veremos a seguir:

 

A desconfiança na política e nos partidos – A desorganização política advinda do golpe de 2016 é, para a autora, um dos elementos que possibilitou a ascensão política de Bolsonaro nos últimos anos, na medida em que “fragilizou intensamente a ordem democrática e acelerou processos de decomposição política”.  

Segundo a autora, “a anomia política instaura-se no cotidiano, levando a uma degradação muito rápida e a uma perda de confiança das bases representativas da sociedade brasileira”.

Exerce papel importante, nesse sentido, a atuação da Operação Lava Jato que, por meio de uma “justiça penal do espetáculo”, colaborou para a imagem do político corrupto e ajudou na popularização da visão de que os termos “político” e “corrupto” são quase sinônimos entre si.

Para os eleitores de Bolsonaro entrevistados por Esther Solano, ele é “o único, ou um dos únicos políticos honestos do Brasil”. Para eles, não importa se um candidato é de esquerda ou de direita pois, para eles, os políticos se preocupam com “somente seu próprio benefício e interesse”.

Bolsonaro não é corrupto e é diferente dos partidos que estão aí. PT e PSDB são a mesma coisa. No Brasil só existe o poder e o dinheiro. Olha a Lava Jato, no Congresso eles são do contra, mas na corrupção estão de mãos dadas. Bolsonaro é diferente porque não é corrupto. (Entrevistado D).

As denúncias de corrupção contra ele, não abalam seu eleitorado:

A imprensa quer acabar com ele porque sabem que é muito forte. Ninguém segura. Vão fazer de tudo para acabar com ele, mas a gente sabe que ele é honesto. (Entrevistada E)

 

O crescimento do antipetismo – Grupos populistas de direita, como o Movimento Brasil Livre (MBL), Vem pra Rua e os próprios seguidores de Bolsonaro construíram, segundo Esther Solano, grande parte de sua popularidade sobre a narrativa de que o PT seria “o partido mais corrupto do país”.

Vários dos eleitores de Bolsonaro admitiram, durante as entrevistas, ter votado no PT nos dois primeiros mandatos. O argumento é de que “Lula estava perto do povo, era carismático, alguém diferente dos políticos de sempre e era honesto”.

Atualmente, esses candidatos adotam um forte discurso antipetista, ancorado na retórica anticorrupção e na rejeição de políticas de redistribuição de renda das quais, segundo Solano, alguns inclusive foram beneficiados. Os mesmos argumentos de “proximidade, carisma e honestidade” que justificaram votos em Lula em 2002 e 2006, hoje servem para justificar o voto em Bolsonaro.

 

Sobre isso, a entrevistada M. declara:

Eu votei no Lula as duas vezes. Ele é um líder. Reconheço isso. Fez coisas importantes, não dá para negar. Eu votei nele mais porque parecia um cara diferente, era um cara do povo, não sei, parecia boa gente, mas no final ele mostrou que é como todos, um ladrão. Por isso agora voto no Bolsonaro porque ele sim, ele é diferente.

 

Questionada sobre o fato de Lula ser de esquerda e Bolsonaro, de direita, ela responde:

Eu não entendo disso, de ser de direita ou de esquerda. Para mim não existe isso. São todos iguais. PT, PSDB, não tem esquerda nem direita. No fundo, são todos amigos. Votei no Lula porque gostava dele, mas agora não dá. Agora o único que vale e que é diferente desses ladrões é o Bolsonaro.

 

O medo da violência e da criminalidade – De acordo Esther Solano, o problema da violência, nunca resolvido no Brasil, “permanece sempre como uma porta de entrada aberta para os grupos de direita”. Para ela, a ausência de uma resposta efetiva a esse problema durante as últimas gestões “deixa em mãos de uma direita punitiva e demagógica, que insiste na guerra às drogas, no estado policialesco e na militarização da segurança pública”.

“As pessoas têm medo”, afirma Esther, e a instrumentalização do medo é algo antigo e recorrente. Apesar do Brasil ser o terceiro maior encarcerador em todo o mundo, persiste a noção de que esse é o país da impunidade.

Eu só sei que, hoje em dia, é melhor ser bandido do que cidadão de bem. A gente sai pra rua com medo e eles não. Eles têm mais direitos que a gente e, depois, vêm como esse mimimi, tentando dar pena na televisão. Pena de bandido? Pena da gente, que não pode viver em paz! (Entrevistada M)

O cara tem de apodrecer na cadeia, pagar com a mesma moeda. Eu acho que a pessoa deveria ficar sofrendo, sim. Hoje, na cadeia, tem celular, até colchão. Deveria dormir no chão. Ficar preso é para sofrer mesmo. Cadeia não tem de ter colchão, tem de ter chicote. (Aluna3, 15 anos)

 

As respostas de Bolsonaro convencem seu eleitorado: “mão dura, disciplina, cadeia, redução da maioridade penal, aumento das penas no Código Penal, prisão perpétua, porte de arma, dar muito mais poder e proteção à polícia, acabar com a vitimização do bandido”:

Para Esther Solano, conhecer as condições que proporcionaram o crescimento de um candidato como Bolsonaro é importante, inclusive, para que seja possível combatê-lo. “Ele representa a politização da antipolitica, é um candidato que representa um populismo de direita, um populismo antidemocrático”.

 

 

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Pesquisa mostra como pensam os eleitores de Bolsonaro

 

 

Quem é Jair Bolsonaro

Mas, se para seus simpatizantes, Jair Bolsonaro representa a ética e a busca por melhorias nas condições de vida dos cidadãos, seu histórico na política não sustenta essa narrativa:

 

Corrupção – No que diz respeito à honestidade e à isenção quanto a esquemas de corrupção, uma investigação um pouco mais aprofundada demonstra que Bolsonaro não é tão isento como afirma ser. Em 2014, no contexto da operação Carne Fraca, Jair Bolsonaro admitiu, em entrevista à Rádio Jovem Pan, ter recebido R$200 mil da JBS S/A e, em seguida, ter repassado o valor ao seu então partido, o PP. Sobre a doação, Bolsonaro desconversou: “qual partido não recebe?”

Além disso, o patrimônio do parlamentar vem aumentando cada vez mais desde que ingressou na carreira política. Em 2010, sua renda declarada foi de cerca de R$800 mil. Em 2014, saltou para mais de R$2 milhões. No início de 2018, o patrimônio de Bolsonaro, somado ao de seus três filhos, que também atuam em mandatos políticos, ultrapassou os R$15 milhões.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o montante real deve ser ainda maior, já que entre o patrimônio declarado estariam imóveis, adquiridos por R$400 mil e R$500 mil, mas avaliados pela Prefeitura do Rio de Janeiro em torno de R$1 milhão e R$2,2 respectivamente.

Bolsonaro também é conhecido por ser bastante generoso com seus amigos e familiares. De acordo com o site Pragmatismo Político, ele e seus filhos já empregaram, nos últimos 20 anos, uma de suas ex-mulheres, Ana Cristina, a irmã dela, Andrea, e o pai delas, José Cândido Procópio. Um dos filhos do parlamentar, o hoje deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), também já trabalhou em seu gabinete.

 

Compromisso com os eleitores – Bolsonaro também não parece ser um político eficiente e preocupado em atuar em prol de seus eleitores. Cumprindo mandatos na Câmara desde 1991, o parlamentar apresentou cerca de 170 projetos de lei, dos quais apenas dois foram aprovados.

E mesmo que seus projetos virassem lei, eles teriam pouco impacto no bem estar da população. O PL 7699, de 2017, propunha inscrever o nome do ex-deputado federal Enéas Carneiro no Livro dos Heróis da Pátria. Já o PL 6055/2013, revogaria lei federal que obriga todos os hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) a oferecer às vítimas da violência sexual um atendimento “emergencial, integral e multidisciplinar”, entre eles o aborto em caso de estupro.

De acordo com o diretor de Documentação do Departamento Intersindical  de Assessoria Parlamentar (Diap), Antonio Augusto Queiroz, o mandato de Bolsonaro é nulo para a classe trabalhadora. Para a Rede Brasil Atual, ele afirmou: “Você não vê um projeto dele que contribua para a inclusão social, que crie oportunidade para as pessoas carentes. Não tem impacto positivo na cidadania da pessoas. […] É um parlamentar que não faria falta”.

 


Confira também alguns dos textos já publicados pelo Justificando sobre Jair Bolsonaro:

Nem patriota, nem honesto, nem cristão: desmitificando Jair Bolsonaro

O dia em que Bolsonaro tomou posse na presidência do Brasil

Efeito Backlash – oportunismo no estilo Bolsonaro

Licença para falar e discurso de ódio: duplipensando os donos do poder


 

Propostas para a segurança pública – Uma das preocupações do eleitor de Bolsonaro é a violência e a criminalidade. Seu candidato, no então, pouco apresenta além de frases feitas, que incitam populismo penal midiático, amplificando discursos contra as minorias e abrindo espaço para projetos de lei que provoquem um aumento ainda maior no encarceramento no Brasil.

Ao dissociar a criminalidade do contexto social, Bolsonaro parece ignorar que, de acordo com o Ministério da Justiça, três em cada quatro vítimas de homicídio no país são negras. Os negros também são as vítimas preferenciais do sistema carcerário: em 2014, mais de dois terços da população carcerária no Brasil era composta por pessoas negras.

O superencarceramento, defendido por Bolsonaro, não tem se mostrado uma solução para a criminalidade: entre 2000 e 2014, a população prisional no Brasil cresceu 119%, se aproximando dos 700 mil -, enquanto, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), taxa de homicídios subiu em 10,6% entre 2005 e 2015.

Em 2018, Bolsonaro apresentou projeto de Lei que previa tornar “excludente de ilicitude” as ações dos agentes federais na intervenção militar no Rio de Janeiro. Na prática, a medida impediria que os agentes respondessem criminalmente por qualquer ato no contexto da intervenção, dando carta branca para a ação violenta do exército nas comunidades cariocas, em que, de acordo com o Observatório da Intervenção, foram registradas mais de 450 mortes em decorrência de ação policial em cerca de cinco meses.

 

Por Lígia Bonfanti / Edição: André Zanardo

Matéria atualizada em 25/07/2018 – 13h18


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