O que está acontecendo em Gaza?
Quarta-feira, 25 de julho de 2018

O que está acontecendo em Gaza?

Foto: Ahed Tamimi/Reprodução – Youtube

Desde o Dia 30 de março, palestinas e palestinos têm se engajado em um movimento identificado como a Grande Marcha do Retorno, que reivindica o direito do povo palestino retornar às suas terras e viver uma vida livre de violência. Desde a primeira sexta-feira dos protestos realizados na Faixa de Gaza, pelo menos 140 palestinos/as já foram mortos e 16 mil feridos/as pelo exército militar israelense.

Só em 14 de maio, dia em que os Estados Unidos inauguraram a sua Embaixada em Jerusalém, 60 pessoas foram mortas. Embora a Embaixada ainda permaneça em Tel Aviv, a inauguração seguiu o reconhecimento, por parte de Donald Trump, de Jerusalém como capital de Israel, em dezembro de 2017. A declaração do presidente estadunidense contraria expressamente a Resolução nº 181 da ONU, que estabeleceu o Plano de Partilha entre Israel e Palestina, em 28 de novembro de 1947. De acordo com o Plano, Jerusalém não entraria na divisão e seria administrada pela própria ONU. Na prática, pouco do acordo foi implementado. O mais flagrante, sem dúvida, é a criação de Israel logo no ano seguinte, enquanto a Palestina permanece até hoje sem ser oficialmente um Estado.

O dia da inauguração – marcada por protestos não só na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, mas ao redor do mundo – celebrou os 70 anos da fundação do Estado de Israel. Para o povo palestino, ao contrário, esse dia marca os 70 anos da Nakba – a catástrofe que resultou em 750 mil refugiados/as somente no primeiro ano.Em 2014, os dados da Badil Resource Center, organização Palestina sediada em Belém/Cisjordânia, afirmam que já havia quase 8 milhões de refugiados/as palestinos ao redor do mundo.

Na Faixa de Gaza residem quase 2 milhões de habitantes em menos de 400m², ou seja, são em torno de 5 mil habitantes/km². Com uma das maiores densidades demográficas do mundo, desde 2007 a Faixa de Gaza sofre um embargo por Israel e Egito, com quem faz fronteira. Portanto, o pouco que entra no território palestino passa por rigoroso controle das forças militares israelenses.

Dias atrás, o Coordenador Humanitário do território palestino ocupado, da Agência Humanitária da ONU, Jamie McGoldrick, chamou atenção para a crise “extremamente precária”. Gaza só tem energia elétrica por 4 horas diárias. Comida, água e medicamentos são racionados e pessoas estão literalmente morrendo de fome. O embargo israelense, portanto, mostra mais uma face da colonização e da limpeza étnica que o movimento sionista empreende desde antes mesmo da criação do Estado de Israel.

Embora a limpeza étnica seja considerada crime passível de punição internacional e tenha sido historicamente comprovada[1], Israel permanece ileso desse e outros crimes, como a construção do muro ao longo do território cisjordânio, inclusive desrespeitado as fronteiras estabelecidas em acordos internacionais.

Enquanto o direito de retorno reivindicado pela Grande Marcha é negado e violentamente retaliado, Israel aprovou, em 19 de julho, a Lei do Estado-Nação judaico, ou seja, oficialmente se reconhece como um Estado de apartheid que garante o direito de “retorno” somente para judeus. Apesar de 1 a cada 5 cidadãos de Israel ser palestino não judeu, a lei – que tem status próximo à Constituição, portanto norteia o sistema legal e é mais criteriosa para ser modificada – institucionaliza a discriminação. Ao definir Jerusalém (“completa e unida”, nos termos da lei) como capital de Israel, não há hermenêutica possível para duvidar da intenção colonial israelense em manter um único Estado em todo o território da palestina histórica e finalmente empreender a limpeza étnica e completo apagamento do povo palestino. Diante de tamanha tragicidade, o que se pode esperar do futuro?

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que, em regra, as versões que nos chegam passam por “enquadramentos” – para usar a expressão da filósofa Judith Butler. Não parece exagero afirmar que além de enquadrado, o que nos chega passa também por uma “cobertura comprometida”, ou seja, passa pelo crivo do governo Israelense e seus aliados, especialmente Estados Unidos.

O enquadramento – que se mistura ao sentido próprio do que foi enquadrado – permite também uma evasão. Ou seja, o que acontece em Gaza não fica em Gaza. Embora o sentido seja, sem dúvida, “contaminado” e marcado por uma cobertura que compromete a narrativa, especialmente quando é controlada por quem tem o poder da situação, algo precisa romper as fronteiras para que ganhe a possibilidade de causar indignação e, em última instância, gerar poder de reivindicações por justiça.

Para além da mídia corporativa, e inclusive alternativa, atualmente temos acesso direto – pelas redes sociais, por exemplo – ao dia a dia do povo palestino em território ocupado. Portanto, temos a oportunidade de construir nossas próprias narrativas – não comprometidas e sem pressupor neutralidade – sobre as graves violações de direitos humanos que têm sido empreendidas pelo Estado de Israel.

25 de julho de 2018. 218º dia da prisão de Ahed Tamimi.

Daniela Rosendo é professora na ACE/FGG e coordenadora pedagógica da Pós-Graduação em Direitos Fundamentais e Políticas Públicas. Mestra e doutoranda em Filosofia na UFSC, atua na área de gênero e feminismos pelo CLADEM e Educação em Direitos Humanos pelo IDDH e Adalah: Observatório da Palestina. Autora do livro Sensível ao Cuidado: Uma perspectiva ética ecofeminista.


Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

 


[1]“[A] limpeza étnica é um esforço para deixar homogêneo um país de etnias mistas, expulsando e transformando em refugiados um determinado grupo de pessoas, enquanto se destroem os lares dos quais elas foram enxotadas. Pode muito bem haver um plano mestre, mas a maioria das tropas engajadas na limpeza étnica não precisa de ordens diretas: sabe de antemão o que é esperado delas. Os massacres acompanham as operações, mas, quando acontecem, não são parte de um plano genocida, mas sim uma tática crucial para acelerar a fuga da população marcada para expulsão. Mais tarde, os expulsos são apagados da história oficial e popular do país e extirpados da memória coletiva. Da etapa de planejamento à execução final, o que ocorreu na Palestina em 1948 conforma, de acordo com essas definições acadêmicas e bem informadas, um caso claro de limpeza étnica.” (PAPPÉ, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. Trad. Luiz Gustavo Soares. São Paulo: Sundermann, 2016, p. 23.)

Quarta-feira, 25 de julho de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend