Luto para manter meu corpo longe das mãos do Estado
Quinta-feira, 26 de julho de 2018

Luto para manter meu corpo longe das mãos do Estado

Imagem: This Is America – Childish Gambino/Divulgação (Clipe que debate a representatividade dos corpos negros, discute artisticamente a morte de pessoas negras).

Eu. Eu me vejo como um sonhador, com planos para o futuro e talvez a ilusão de que um dia poderei realizá-los. Em tempos de Wakanda, a terra prometida tanto para o povo negro quanto da tecnologia, é inevitável que minha mente reflita e constate que a imaginação é o “superpoder” que permitiu à humanidade chegar em pleno 2018 com tantas tecnologias, inimagináveis no início da trajetória da civilização.

Falando em imaginação, Thomas Edison, um dos maiores inventores de todos os tempos, já dizia que é necessário 1% de inspiração e 99% de transpiração. A mente projeta e o corpo realiza.

Então meu corpo, negro, masculino, pele escura, cabelo crespo e lábios grossos sai à rua a procura de transpiração, de trabalho, de “pôr a mão na massa”.

Meu corpo, diferente da minha mente não sonha, sente. Sente a carícia, o abraço e o beijo no rosto dados pela minha mãe antes que eu possa sair de casa, cedo, em busca de entregar meus currículos impressos no dia anterior na Xeróx que fica na esquina de casa.

O meu corpo também sente a gota de suor escorrendo pela testa na caminhada debaixo do sol quente por longos e intermináveis quarteirões, sente o vento das portas que se fecham à minha frente e o cansaço de tantos caminhos percorridos sem êxito.

Sente o peso de retornar para casa sem o tão almejado emprego. Nessa caminhada de regresso meu corpo passa a sentir a brisa gelada que sopra nas noites frias de inverno em julho. Inesperadamente meu corpo sente mãos a lhe deter e o tapa estalado no meu rosto que começa a arder segundos após o tabefe.

– Mãos na cabeça.

– Eu sou trabalhador.

– Cala boca.

Outro tapa estalado e um soco no estômago é o que meu corpo passa a sentir nesse momento. Meu corpo acaba de sentir a mão pesada do Estado.

E o Estado?! Ah o Estado… O Estado é a assombração que vem com uma constância incômoda para me lembrar que minha mente não detém a propriedade sobre o meu corpo.

Meu corpo negro pertence ao Estado. E o Estado está aqui para proteger a sociedade do meu corpo negro, corpo este que na visão do Estado é invariavelmente ladrão, safado, traficante, preguiçoso e estuprador, independentemente do meu corpo saber disso ou não.

É por isso que o Estado quer encarcerar meu corpo negro caso eu dê uma justificativa sequer, e jogá-lo na vala de um cemitério no caso de eu dar duas justificativas ou mais. Por vezes a justificativa é essa mesma, do meu corpo ser negro. Outras vezes é por ele estar andando rápido ou devagar demais, a depender da conveniência. Por estar usando uma touca ou uma bermuda. Se for os dois, touca e bermuda, ao mesmo tempo já sabe: são duas justificativas, logo…

Ainda pode ser uma considerada uma justificativa eu possuir uma garrafa de “Pinho Sol” na mochila ou por estar utilizando um uniforme de escola pública enquanto corro dos tiros constantes vindos de um helicóptero, preto como eu, que sobrevoa a comunidade da qual eu faço parte (nesse caso foram três justificativas: o uniforme, a comunidade e o corpo negro).

Minha mente não concorda com isso e luta insistentemente para manter meu corpo longe das mãos do Estado. Me mantém estudando formas de hackear o  sistema que constantemente quer me empurrar para as estatísticas: a cada 23 minutos um jovem negro morre no Brasil.

Enquanto meu vigésimo terceiro minuto não chega, eu vou sonhando com o dia em que a minha Wakanda irá se tornar realidade, ou pelo menos vou aguardando o dia em que será criada uma tecnologia que impeça que a mão pesada do Estado chegue até o meu e ao de tantos outros corpos negros que circulam por aí, à procura de oportunidade.

Gabriel Alex Pinto de Oliveira.


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Quinta-feira, 26 de julho de 2018
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