Racismo no Brasil: um passado que não passa
Terça-feira, 31 de julho de 2018

Racismo no Brasil: um passado que não passa

Foto: Jacaré Banguela/Divulgação

Alguns dias atrás, estávamos eu e uma amiga no metrô em São Paulo, conversando sobre as últimas publicações racistas que haviam alardeado as redes sociais. Postagens como a do youtuber Cocielo, que comparava o jogador de futebol da seleção francesa Kylian Mbappé a um “assaltante de arrastão” e o post do humorista Jacaré Banguela que equiparava o ator Jaden, filho de Will Smith, a um flanelinha.

Discorríamos, então, com assombro sobre os comentários dos internautas, os quais sob a égide do aparente anonimato da internet defendiam os digital influencers. Esses internautas inclusive alegavam que havia certo exagero em atribuir racismo àquelas publicações, pois, segundo eles, nenhuma das publicações mencionava a cor da pele ou xingava o jogador ou o ator de macaco ou qualquer ofensa explícita. Ignoravam eles, portanto, o racismo sutil característico na sociedade brasileira.

É um passado que não passa.  – Minha amiga disse.

É um passado que ainda se derrama sobre o presente e continua fazendo vítimas.  – Eu respondi.

Que passado-presente é esse que nós duas nos referíamos?  Por quanto tempo esse pregresso ainda avançará sobre o hoje e o porvir?

É um passado não tão passado assim que gerou, nutriu e naturalizou uma ideologia que hierarquiza a própria condição humana. Uma ideologia sustentada numa concepção seletiva de cidadania e que evoca de pronto a ideia de que o negro no Brasil tem o seu lugar demarcado na sociedade e que ali está por sua culpa ou vontade e não por conta de uma configuração social bem rígida que o colocou num cenário de exclusão. Essa marginalização racial submetida à naturalização e à normalidade se torna risível ou objeto de gracejos justamente para aqueles que gozam de algum privilégio, isto é, os brancos, majoritariamente.

Nos dias seguintes a essa conversa, eu continuei acompanhando os noticiários e outras denúncias e relatos de racismo apareceram, entre os quais, a filha de dois anos do ator global André Luiz Miranda, a filha de Ivo Meirelles, que teria sofrido racismo em uma loja da C&A, a secretária da editora Patuá, que durante a Flip sofreu racismo por parte do editor e ex-curador do Prêmio Jabuti, José Luiz Goldfarb e os milhares de comentários racistas no filme publicitário de dia dos pais divulgado pelo O Boticário no YouTube.

Confrontar piadas e comentários racistas gera polêmica porque entramos num embate com uma ideologia naturalizada e enraizada na sociedade e inquestionavelmente em nós, pois, naturalmente, sem muito esforço e reflexão, associamos o negro ao pobre e incapaz, ao bandido, ao garoto que te aborda no semáforo para pedir dinheiro, ao menino sujo e malvestido que guarda ou limpa o seu carro, como fez o comediante Jacaré Banguela, ou aos garotos pretos e pobres que fazem arrastão nas praias e avenidas, como fez o youtuber Cocielo.

Essas imagens, ou melhor, essas visões enrijecidas de mundo, são delineadas por uma ideologia racial não apenas no campo consciente, mas também na demarcação de lugares imobilizados socialmente. O que tanto os dois digital influencers, quanto os outros envolvidos em denúncias ou em comentários racistas, fizeram foi reproduzir preconceitos historicamente construídos e enraizados como naturais. E a medida que os negros e negras aumentam suas presenças em espaços antes ocupados prioritariamente por brancos, essa presença gera um certo mal estar naqueles que pensam que o negro e o branco, cada um, tem o seu lugar fixo e imóvel, de maneira que o racismo, antes mitigado e contido, retorna de maneira mais exacerbada. É o passado que não passa.

A título de inspeção convém aqui evocarmos esse passado:

Perquirindo suas origens, o Brasil, como um corpo social e político, foi concebido na acumulação de bens e riquezas através da exploração do trabalho de negros e indígenas. Nessa concepção, o esqueleto que sustentou esse corpo precípuo por quase quatro séculos foi o escravismo colonial. Neste registro, o racismo está na gênese do Estado brasileiro.

No final do século XIX, ocorre a abolição dos escravos, entrementes sem qualquer projeto de inclusão dos africanos e dos seus descendentes nesse corpo social. É importante frisarmos que passamos de colônia para um país “independente”  de maneira mansa e plácida, sem quaisquer saltos ou rupturas nesse corpo político, uma vez que preservamos os mesmos instrumentos de dominação do período colonial: os então senhores de escravos tornaram-se herdeiros diretos das terras, fundando oligarquias e monopólios de terras, mantendo as estruturas aristocráticas intactas.

É crucial lembrarmos que a própria abolição foi organizada pela dominante, os fazendeiros e pequenos burgueses que fizeram de tudo para asfixiar e emudecer qualquer movimento abolicionista gerado pelos escravos ou escravos libertos. Foi essa mesma elite, entusiasmada com as leituras sobre as teorias científicas de eugenia subsidiárias à ideia de pureza racial, que disseminou a ideia de branqueamento, adaptada para a população brasileira. Dessa maneira, foi colocada em prática a ideia de “melhorar” a população desse país por meio da mestiçagem.

Todavia é inegável, como muito bem sabemos, que o programa político de miscigenação não engendrou uma nação pluri-étnica ou uma democracia racial. Pelo contrário, ocasionou a fragmentação da identidade negra brasileira, fragmentação esta que por muito tempo enclausurou o valor e a autoestima de milhões de afrodescendentes desse país. Cumpre, portanto, enfatizarmos que essas ideias de clarear a população brasileira baseada em “edifícios intelectuais”, cujos resquícios ainda hoje proliferam em muitas consciências, também se manifestaram no incentivo político à vinda dos europeus para a ocupação de postos de trabalho que excluíram os negros do mercado formal de trabalho, gerando um contingente de gente miserável obrigada a se submeter às piores condições de trabalho, restando ao negro um cotidiano massacrante e as agruras sociais.

Não podemos olvidar que sob a égide da abolição, a população negra foi deixada de escanteio, a sua própria sorte. Certamente, a libertação evadiu os negros de sua condição de coisa-objeto, suprindo-lhes um desejo prolixo de cidadania, no entanto, essa cidadania nunca foi plena e universal, como é a do homem branco, mas restrita e parcial. Os escravos libertos e seus descendentes tornaram-se semi-cidadãos ou cidadãos hierarquicamente inferiorizados, pois seus direitos básicos não são incólumes.

Atentemos: hoje, os afro-brasileiros são mais da metade da população brasileira, mas se olharmos a paisagem social veremos que eles são sub-representados ou praticamente invisíveis nas estruturas de poder e nos meios de comunicação. Os negros foram libertados em 1888, mas o racismo ainda distribui de forma desigual a renda e o poder, subjugando a população negra e parda à exploração. Cumpre enfatizar ainda que nessa sociedade ideologicamente racista, a subalternidade dos negros é considerada “normal” e “aceitável”, pois está dentro da “regra do jogo de opressão” que verbaliza que todos nós somos iguais e temos as mesmas condições, ponderações estas que divergem das assimetrias econômicas, sociais e políticas da sociedade brasileira.

É essa composição social, criada e naturalizada no período colonialque atravessou cinco séculos e que vigora até hoje. É esse arranjo que configura as nossas relações sociais e que recria e enrijece desigualdades e privilégios.

Compreender por que piadas aparentemente inocentes contra negros assumem conotações racistas, implica, primordialmente, reconhecer o hiato existente entre a cidadania do branco e a frágil cidadania do negro. Compreender porque ofensas raciais ainda perseveram 130 depois da abolição implica perceber como essa clivagem entre brancos e negros perpassa toda a História do nosso país, embora a mídia e a elite tentem contrair essa memória.

Esse passado de exclusão política, econômica e social não passa, isto é, não se tornou de fato passado, mas se faz sentir presente em nós, pretos, pobres e favelados, todas às vezes que os nossos direitos são negados, todas às vezes em pessoas riem dessa situação, todas às vezes em que pessoas fazem comentários assentindo a essa exclusão.

Luanda Julião é Doutoranda em Filosofia Francesa Contemporânea pela Universidade Federal de São Carlos. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Professora de História e Filosofia na Escola Estadual Visconde de Itaúna.


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