Tráfico começa com pedido de casamento, oferta de emprego, promessa de virar modelo ou jogador, diz especialista 
Terça-feira, 31 de julho de 2018

Tráfico começa com pedido de casamento, oferta de emprego, promessa de virar modelo ou jogador, diz especialista 

Fotos: Atrizes fazem performance teatral na Rodoviária de Brasília. Marcelo Camargo/Agência Brasil.
Fonte: por 
Carolina Gonçalves para a Agência Brasil.

Nem sempre o tráfico de pessoas começa de forma forçada. Na maior parte das vezes, o crime começa com a promessa de realização de um sonho: um pedido de casamento que pode mudar a vida da pessoa, a oferta de um emprego ou a chance de seguir a carreira de modelo ou de jogador de futebol. Só quando o sonho vira pesadelo é que as vítimas percebem que foram alvos de aliciadores, dizem autoridades que atuam no combate a essa prática. A dificuldade em perceber a prática do crime desde a origem tem sido um dos principais desafios no enfrentamento ao tráfico humano.

Muitas vezes as vítimas não se enxergam como vítimas desse crime ou têm medo de denunciar e sofrer represálias porque os aliciadores conhecem as famílias. A principal dificuldade hoje é ter dados mais concretos deste crime. 

Afirmou Marina Bernardes de Almeida, coordenadora de Política de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do Ministério da Justiça.

Ao participar da abertura da 5ª Semana de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas que ocorreu no dia 30 de julho em vários estados, Marina Bernardes lembrou que esse tipo de ação de conscientização da população e a capacitação de agentes públicos para identificarem os sinais desse crime têm sido uma ferramenta eficiente no combate ao tráfico humano.

No DF, ao longo de todo o dia, a rodoviária interestadual, por onde chegam e partem ônibus para todas as regiões do país, foi invadida por artistas que apresentaram situações de vítimas do tráfico humano. As encenações ocorrem tanto em um palco montado na entrada do local quanto nos corredores, onde é possível se deparar com cenas de mulheres exploradas sexualmente ou com atores se passando por aliciadores e abordando quem passa por ali.

Atrizes fazem performance teatral durante a abertura da 5ª Semana de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, na Rodoviária Interestadual de Brasília.

Analista do Programa do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), Fernanda Fuentes lembrou que as maiores vítimas desse tipo de crime são as populações vulneráveis que geralmente têm menos informações e buscam melhoria da qualidade de vida. Fernanda ainda destacou que mulheres e crianças são as principais vítimas dessa prática. Relatório das Nações Unidas confirma o dado ao apontar que 71% das pessoas traficadas são meninas e mulheres.

O Brasil e a Colômbia são os dois países latino-americanos que recebem apoio do UNODC para enfrentar essa prática através de um programa financiado pelos países da União Europeia para fortalecer a ação de governos locais. Segundo Fernanda Fuentes, um dos maiores desafios no combate ao tráfico humano no país é a diversidade regional que acaba refletida nos diferentes objetivos dos aliciadores dependendo da região em que atuam.

O tráfico de pessoas é enfrentado em rede, tanto pelo governo quanto pela sociedade civil. Dependendo de onde ocorre, há objetivos diferentes prevalecendo. Em algumas regiões é o trabalho escravo, em outras a exploração sexual. Por isso é importante a participação de organizações da sociedade civil que podem ajudar a enfrentar o crime dentro do contexto local.

Afirmou.

A capital do país, onde ocorrem as ações de conscientização ao longo de toda a semana, é um dos destinos preferidos de aliciadores do tráfico humano interno. Especialista em assistência social do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (NETP) da Secretaria de Justiça do DF, Annie Carvalho, explicou que Brasília ainda surge como promessa de grande oferta de trabalho.

Tem muitas pessoas que vêm com a promessa de emprego aparentemente promissora, mas chega aqui e sofre exploração da mão de obra ou exploração sexual. Essas são as principais modalidades que a gente vem atendendo.

Disse a especialista.

Segundo ela, as autoridades estão mais atentas e por isso o número de denúncias vêm aumentando.

Isto não quer dizer que aumentou o tipo de crime, mas está aparecendo mais.

Concluiu.


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