Quando escurece
Quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Quando escurece

Imagem: Beyonce e Jay Z no clipe Ape Shit (Reprodução Youtube)

Quando descobri que seria pai, eu e minha parceira resolvemos nos mudar para um apartamento maior na cidade onde vivemos. Procuramos uma imobiliária que selecionou alguns imóveis para visita, mas já antecipou que certamente iríamos nos apaixonar por um apartamento específico. E que o grande elemento de conquista seria a localização em uma região “muito familiar”. De fato, nos mudamos para esse apartamento. Um bairro com ruas largas e arborizadas, onde circulam pessoas com carrinhos de bebês, cachorros, bicicletas. Uma feira de produtos orgânicos reune muitas pessoas aos sábados, mas sem gerar muito tumulto. Poucos estabelecimentos comerciais próximos, mas essenciais: padaria, farmácia, um pequeno mercado e quitanda, além de alguns restaurantes e bares “comportados”. Tudo pode ser feito a pé.

Após um pouco mais de um ano residindo nesse apartamento, pude observar melhor a vizinhança. Já havia notado alguns aspectos como um bater de panelas seletivo em alguns momentos políticos, e um silêncio fúnebre em outros. Mas, para além disso, a circulação das pessoas na rua me chamou muito a atenção. O fluxo de pessoas, os horários de passeio e locomoção e o movimento constante de corpos é algo que, hoje, diz muito sobre o “bairro familiar”.

Há  diversas rotinas que podemos observar no dia, desde o fluxo de pessoas acelerado no turno da manhã, saindo com seus carros, crianças, padarias cheias, conversas curtas e rápidas no elevador. Ou a calmaria que envolve o horário do almoço, com poucas pessoas circulando e um silêncio que se prolonga durante a tarde. Contudo, o horário que mais destaca o que podemos discutir, nessa oportunidade, é o entardecer. Quando o sol começa a se por e o dia escurecer.

Fim do dia, o fluxo de pessoas se intensifica novamente. Carros retornam para casa, sem tanta pressa quanto na ida, pessoas voltam a ir às padarias, mercados, calçadas. Carrinhos de bebês circulam pelas calçadas, dividindo espaço com cachorros em seus passeios. Mas, além do crepúsculo que escurece o dia, é evidente que se nota um outro escurecimento. O do tom das peles que circulam nesse horário. O fluxo de pessoas circulando aumenta, mas destaca-se, para quem observa, que é nessa hora que podemos ver, quase que exclusivamente, corpos negros circulando no bairro de classe média “de família”.

Os corpos negros que ali circulam – quase que em sua maioria – estão em ritmos diferentes dos outros que ali trafegam. Alguns vão em passos lentos empurrando um carrinho de bebê que não lhes pertencem. Escoltados, ao lado, por uma mãe branca. O corpo negro se destaca em um uniforme que, no lugar de lhe deixar uniforme-idêntico, lhe deixa uniforme-invisível. Outros corpos negros circulam em outros uniformes de porteiros, fazendo a troca de turno com outro que irá assumir a jornada noturna. Diversos corpos negros, de mulheres, carregando bolsas, sacolas e com feições de cansaço e alívio, cruzam as calçadas em um único fluxo que vai do alto dos prédios para a avenida mais próxima, onde há um ponto de ônibus. Uma caminhada de aproximadamente 10 minutos em passos normais, as vezes feitos em um tempo bem inferior para não perder o horário do transporte que passa lotado.

Outros corpos negros são mais marcados e marcantes na estética branca que domina o bairro. Sem camisa, arrastam uma carroça de papelão, parando a cada prédio para selecionar nas lixeiras os materiais que podem gerar alguma renda no reaproveitamento. Carroças pesadas, daquelas que costumavam ser vistas tracionadas por animais. Contudo, os únicos animais que circulam ali, agora, são os fiéis companheiros que desfilam de coleira e roupinhas. Outro corpo negro deita-se ao chão, escondido num canto próximo da igreja, por baixo de alguns papelões. Não é visto rotineiramente por ali, salvo às sextas-feiras, dia que antecede a feira local. Precisam de mão de obra aos sábados na montagem de barracas ou outros serviços.

A igreja próxima está em reforma. Bem perto, também, há um prédio em construção. Esses dois locais concentram um número maior de corpos negros que trabalham até o entardecer. Largam o trabalho e se unem no fluxo até a avenida. Embora durante o dia seja possível ouvir algumas vozes mais altas, risadas, gritos, tudo isso ocorre dentro das construções. No horário da circulação, são corpos comportados. Não chamam mais atenção do que o contraste que causam. A única voz negra que se eleva, nesse horário, anuncia a venda de picolé de diversos sabores.

Essa é a geografia do bairro de família da nossa sociedade. O bairro de família é um bairro de família branca. O horário do dia, ali, começa mais tarde e termina mais cedo que nos bairros de periferia, de onde os corpos negros saem cedo e para onde retornam tarde, nesse pêndulo. É um lugar em que a circulação de pessoas negras possui hora para ocorrer e fluxos para seguir. Raros são os que estão na contra-mão desses fluxos ou circulam em horários diferentes.

Há poucos dias, um desses foi errante. Um homem, jovem, negro, no meio da tarde, circulava de bicicleta na calçada. Observei da varanda do prédio que ele já havia passado mais de uma vez na rua. Talvez a segunda ou terceira vez que trafegava por ali na sua bicicleta. Coincidentemente ou não, em mais uma das vezes que circulava, uma viatura da guarda-municipal apareceu e interrompeu suas pedaladas. Não agiram com nenhuma violência visível, de onde pude observar. Interromperam o rapaz, conversaram algo e verificaram os seus documentos pessoais. Depois ficaram parados observando este voltar a pedalar para qualquer lugar, e não retornar. Nenhuma violência evidente, salvo aquela abordagem aleatória que teve por motivação, provavelmente, o fato daquela pessoa violar as regras da geografia local: um corpo negro que trafegava em horário e fluxo diferente do estabelecido pelas estruturas da nossa sociedade.

O bairro de família é um bairro de família branco. A rotina e a circulação de pessoas, naquele bairro, é feito a partir da vida das pessoas brancas. Se o racismo estrutural da nossa sociedade não é perceptível, por alguns, a partir da nossa história escravista e racista, que observem a geografia, os movimentos de circulação de corpos ao seu redor, suas rotinas. Que observem que a existência de corpos negros que aparecem ao entardecer, quando escurecem (seu) o dia,  em seus uniformes que lhes fazem invisíveis, marcam a sua rotina e representam que a nossa sociedade é racista. Que observem com quantas pessoas negras você convive, em seu meio social, círculo de amizades, relações profissionais, e que circulam livremente na sua vida, em horários livres e qualquer fluxo e direção.

Rochester Oliveira Araújo é mestre em Direito Constitucional e defensor público do Estado do Espírito Santo.


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Quarta-feira, 1 de agosto de 2018
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