Um copo entre nós
Quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Um copo entre nós

Minha mãe dizia que meu pai era um ótimo marido, um homem de verdade, exemplar. Daqueles que enchem os olhos da gente ao ver trabalhar. Chegava todo suado e pingando, com a testa encharcada, o macacão azul escuro com alguns pequenos rasgos e algumas manchas pretas das quais não se distinguiam se eram de graxa ou sujeira. Quando dava, trazia uma carne do mercado ou alguma mistura para o jantar.

Usava também um coturno preto, bem pesado, nos pés e uma corrente fina e dourada no pescoço, com um pingente pendurado com a imagem do Nosso Senhor.


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Era um homem com “H” maiúsculo, com as mãos grossas, cheias de calos, boas para pegar em ferramentas e apertar parafusos. De braços fortes e ombros largos. Quase um e oitenta de altura.

Meu pai era um homem bom, a não ser pelas suas irritações rotineiras com as notícias do jornal e com o futebol às quartas-feiras. De domingo o futebol não o irritava tanto porque vivia assistindo os jogos no bar, com os amigos, perto de casa. Mas às quartas-feiras, em casa, ele não tinha com quem debater as jogadas das partidas. Dizia que minha mãe e eu não entendíamos nada. E se o time dele perdesse, era motivo suficiente para xingar a minha mãe.

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Eu sei como o futebol é para essa gente sofrida como a gente. Serve como distração para disfarçar os dias difíceis. Para o meu pai, o futebol servia para “desestressar”. E sua fórmula de “desestresse” sempre pedia uma cervejinha para acompanhar.

Aos poucos a cervejinha passou a não mais acompanhar o futebol. Vinha mesmo sem ter jogo nenhum na TV. E quando acabava a cerveja em casa, ele migrava para a pinga, que era mais barata de comprar.

Até que chegou a crise e meu pai perdeu o emprego. Minha mãe nega, mas eu acho que foi por causa da bebida que ele foi demitido. Daí pra frente tudo passou a ser motivo de irritação para ele. E a vazão para o seu estresse era mesmo brigar com a gente. Não havia futebol 24 horas por dia.

A bebida passou a ditar as regras do jogo em casa. Primeiro ele saía, tabelava com seus “parceiros” algumas rodadas de pinga no bar e ficava por lá até ser expulso.

Quando voltava, não enchia mais os nossos olhos de orgulho, mas de lágrimas. A transpiração agora era acompanhada pelo odor do destilado que ele acabara de consumir em doses cavalares. O macacão era usado apenas como recordação dos tempos em que havia paz em casa. O coturno tentava dar prumo àquele corpo em constante desequilíbrio e o Cristo em seu peito parecia ter fechado os olhos para a vida daquela alma que se perdera.

Ao invés de trazer comida, ele trazia frustrações da rua. Essa raiva acumulada desaguava em tapas e cintadas.  O primeiro a apanhar era eu, justamente porque chegava cedo do colégio, bem antes da minha mãe. Evitava-o o quanto podia, me esquivando pelos cantos da nossa minúscula casa, mas uma hora ou outra sempre acabava por cruzar o seu caminho. Em seguida era a vez da minha mãe apanhar. Ela, invariavelmente, depois de chegar do trabalho, tentava apartar as constantes “brigas”, mas sucumbia por entre os dedos daquelas mãos fortes e graúdas.

Nossa momentânea tranquilidade vinha depois das agressões. Cansado de tanto nos bater e atordoado pela bebida, ele ia para o quarto e dormia. No outro dia recomeçava tudo de novo.

Nesses poucos momentos de “paz” eu conversava com a minha mãe sobre o dia na escola ou outras coisas que nos fizessem esquecer daqueles momentos tenebrosos.

Um dia desses eu falei para minha mãe denunciá-lo, tinha lido que existia a tal “Lei Maria da Penha” e que mulheres viviam morrendo por causa de maridos como ele. Treze mulheres por dia, para ser mais exato. Ela, brava, me disse aos berros que meu pai não era assim. Era apenas uma má fase que iria passar.

Não passou.

Meu pai morreu de tanto beber, e minha mãe assumiu de vez as contas da casa. Aquela mulher havia vivido o céu e o inferno ao lado do homem que eu convencionei a chamar de pai. Ela dizia que o amava. Ele – tenho certeza – só amou o futebol. Ela não teve a quem recorrer para escapar dos laços daquela relação abusiva. Chego a crer que se meu pai não tivesse morrido, talvez minha mãe é que estaria morta hoje. Talvez Nosso Senhor tenha preferido olhar por ela.

Meu pai era um homem. A não ser pelo fato de espancar a minha mãe quase todos os dias.

 

Gabriel Alex Pinto de Oliveira.


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Quarta-feira, 8 de agosto de 2018
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