O Brasil fora da Sociedade e da Economia do Conhecimento
Quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O Brasil fora da Sociedade e da Economia do Conhecimento

Imagem: Lançamento do Protótipo 2 do VLS-1, da Base de Alcântara. Foto: Divulgação/ CLA-IAEL.

 

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia? (Castro Alves)

 

Segundo a Unesco, a educação superior e a pesquisa científica são estratégicas para a construção da Sociedade do Conhecimento, criticamente importantes para a mudança e a inovação. A pesquisa é vital para a produção de novos conhecimentos e sustentabilidade do desenvolvimento econômico e social.

A Sociedade do Conhecimento e Economia do Conhecimento, como vêm sendo denominadas, foram objeto de discussões em um grande seminário internacional promovido pela Unesco, com o apoio do Sesi, em Brasília no ano de 2005, com a participação de cientistas e acadêmicos de diferentes regiões do Planeta. Todas as discussões expressaram o forte apelo em favor do comprometimento das universidades com as exigências de uma economia “movida pelo conhecimento”, especialmente das universidades situadas nos países da periferia dos centros hegemônicos do capital. As contemporâneas relações entre ciência e tecnologia, conhecimento e indústria, conhecimento e informação, a importância do conhecimento na atividade econômica, o conhecimento como fator importante de produção, as companhias alicerçadas no conhecimento e os trabalhadores e profissionais do conhecimento, conforme os principais debatedores, são sinais de uma nova era “movida pelo conhecimento”, na qual  as universidades e os países em que se situam precisam estar atentos, como condição de se desenvolverem de forma autossustentada. 

 


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Só mesmo um governo golpista e antinacional, que destituiu uma presidente eleita legitimamente em 31 de agosto de 2016 com mais de 54 milhões de votos, para desprezar a responsabilidade que as universidades brasileiras devem ter na construção da Sociedade/Economia do Conhecimento. Desde que passou a ocupar o Palácio do Planalto, além de congelar todos gastos sociais do Estado por um período de vinte anos em nome de uma austeridade fiscal que imobiliza o país, também vem impondo sucessivos cortes no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações; o valor aprovado para o orçamento de 2018 do MCTIC foi 19% menor que o de 2017, segundo informes da Sociedade Brasileira Para o Desenvolvimento da Ciência – SBPC.

Agora, para estarrecimento do mundo acadêmico e da sociedade brasileira, a CAPES, a fundação vinculada ao Ministério da Educação que coordena o aperfeiçoamento de pessoal de nível superior (mestrado e doutorado), em ofício dirigido ao Palácio do Planalto, implora a preservação de sua verba orçamentária prevista em lei com o objetivo de impedir sanções que podem significar o não pagamento de 200 mil bolsas de estudo aos integrantes de programas de Iniciação Científica, Formação de profissionais de educação básica, Mestrados e Doutorados. Se o Palácio do Planalto continuar austero e insensível aos reclamos da comunidade acadêmica e científica, isso significará a paralisação das nossas pesquisas científicas, impondo-nos um considerável atraso até em relação aos demais integrantes do Mercosul. 

 


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Muito já se falou do atraso que tal golpe impõe à sociedade brasileira e não será redundante mais uma vez afirmar que ele nos faz retroagir à condição de país subdesenvolvido, tanto estamos sendo moldados aos interesses do capital imperialista. A elite do atraso que apoia o golpe nunca nos quis como nação soberana nem o nosso povo altaneiro. Pouco lhe importa, assim como os demais golpistas, que atingimos a 13ª posição mundial na produção de conhecimentos científicos, acima da Holanda, Rússia, Suíça e Suécia; que a USP seja a maior produtora de pesquisa com mais de 20% da produção nacional ou que o envolvimento de cientistas brasileiros em projetos mundiais importantes, tais como o CERN (European Organization for Nuclear Research) e o SDSS (Sloan Digital Sky Survey), vem se traduzindo crescentemente em importantes publicações citadas por diversos cientistas de um grande número de países.

 


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O golpismo que se instalou em 31 de março de 2016, como se não bastasse as impopulares reformas, privatizações e entrega do Pré-sal tão ao gosto dos capitalistas internacionais, mostra agora a sua face contrária à nossa inserção na Sociedade do Conhecimento. Condena-nos a não acompanhar a União Europeia que há muito já se prepara para essa inserção, desde quando fez a reforma do seu ensino superior (Processo de Bolonha) e transformou as suas universidades em grandes produtoras de conhecimentos vendáveis com alto valor agregado. Condena-nos, inclusive, a perder condições de nos emparelharmos com os demais integrantes do BRICS e Mercosul.

Se “existe um povo que a bandeira empresta p’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!”, como diria o poeta, este só pode ser composto de parlamentares, empresários, magistrados e frações da classe média que reclama dos aeroportos lotados. Esses vivem noutra galáxia alheios ao sofrido povo brasileiro. A transformação do país numa grande colônia de exploração reproduz-lhes as posições sociais que ocupam.

Zacarias Gama é Professor Associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Faculdade de Educação (UERJ/EDU) e Professor Permanente do PPG em Políticas e Formação Humana – PPFH. Membro do Conselho Nacional e Diretor Executivo da Cátedra REGGEN/UNESCO. 

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