Das falas e das lutas: URSAL, sua linda!
Quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Das falas e das lutas: URSAL, sua linda!

Foto de capa: Resistência Escapista URSALinda, 2018, por Renata Nóbrega.

Por Renata Nóbrega.

 

Recife, 15 de agosto de 2018.

Hoje estive atenta ao rumo das palavras, mas elas não me deram cabimento algum.

Inserida numa rotina feminista feminina há pouco mais de cinco meses [1], percebo que as palavras e as ideias andam conspirando com os temas do cotidiano.

A pressa do tempo segue sem freios e a velha política anda vestida de todo tipo de modinha e, ainda assim, suas candidaturas, como de praxe, seguem nuas.

 

Imagem da revista Fon Fon: Semanario Alegre, Politico, Critico e Espusiante (RJ), de 1909, edição 0033, p. 10, reprodução do acervo digital da Biblioteca Nacional, http://memoria.bn.br/DocReader/259063/3256.

 

 

Iluminuras sem novidade, advindas dos “tempos modernos” de séculos de outrora. Nos ontens, procuro, além das palavras, a comunicação imagética dessas continuidades de hojes:
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Imagem da revista Fon Fon: Semanario Alegre, Politico, Critico e Espusiante (RJ), de 1913, edição 0008, p. 33, reprodução do acervo digital da Biblioteca Nacional, http://memoria.bn.br/DocReader/259063/12991.

 

 

A rotina segue na gira das permanências do tempo e sigo desfrutando as “pequenas ternuras” de que falam amigxs sororxs e escapistas. Planejamento de encontros, abraços, beijos, compartilhamento de discos e livros, reencontros, nascimentos e renascimentos: ações várias para dar sentido ao fluxo caótico do mundo. Haja café e amor!

No emaranhado da vida, uma intervenção da comicidade trágica: a União das Repúblicas Socialistas da América Latina – URSAL [2]. Pareceu-me que as palavras trazidas pelo inesperado picadeiro movimentariam meus pensamentos e garantiriam um texto livre para nossa diversão de riso nervoso à Buñuel [3].

 

Reprodução de cena de “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luis Bruñel, 1972, domínio público.

 

 

Na sigla URSAL encontrei expressões para as quais a língua portuguesa reservou gênero feminino: união, repúblicas socialistas e América Latina.

Mas quem seríamos a América Latina? Em sendo, já seríamos unidas ou haveria necessidade de forjarmos essa união? Nossa construção comportaria uma configuração republicana e, além disso, de caráter socialista?

Em se tratando da América, se considerada latina, a fala do invasor é o que suleia [4] a definição, na medida em que se consideram latinas as regiões (países) onde são faladas as línguas românicas, ou seja, derivadas do latim.

Esse apego às palavras me complica o fluxo. Américo fora o invasor a nos denominar “Novo Mundo” e o primeiro mapa que se desenhou da sua invasão, a partir do “Velho Mundo”, apelidou de América uma terra que antes de Américo já abrigava povos vários e denominações bastantes [5].

 

Imagem do mapa “Universalis Cosmographia” (1507), atribuído a Martin Waldseemüller, do acervo da “Library of Congress” e em domínio público via Wikimedia Commons.

 

 

Sendo latina, então, estou numa América de Américo: mais ao Império do que à República. Afinal, nada mais moderno do que a ordem e o progresso dos Impérios trajando a modinha de Rés-públicas.

O Império Romano e, por conseguinte, o domínio eurocêntrico, levou o latim do Lácio ao ‘resto’ do mundo, especialmente ao mundo ocidental, e o devir histórico oficial cuidou de fomentar o projeto de nação [6], para o qual era indispensável, dentre outros, uma língua oficial a cada limite territorial imposto nesse “Novo Mundo”. Os mapas desenharam linhas que desrespeitaram as populações originárias e suas falas. Em lugar das línguas taína, comanche, apache, maia, quichua, guarani e tantas outras, as línguas dos cara-pálida em todas as ditas Américas, latinas ou não: inglês, holandês, francês, espanhol e português.

No início foi a mera divisão para posse e ocupação imperialista das colônias. Depois, escutavam-se os gritos de independência a partir de muitas lutas que ainda hoje seguem cotidianas na redefinição de linhas territoriais.

Todavia, no caso da população originária, esses embates intra e inter américas seguem silenciados e, mesmo quando ganham voz, são travados mais em “juridiquês” do que em qualquer outra língua. E tudo, antes e depois, permanece a custo de muito sangue e encontra, no mais das vezes, as ditas Repúblicas como resultantes de uma coalizão política e jurídico-burguesa [7].

Socialistas? Há quem diga que sim, a quem diga que não e sempre tem quem diga nem que sim nem que não, muito pelo contrário. Mas palavras vazias, caso encham os olhos, dificilmente resistem a uma lente macro.

E assim, seguimos na sororidade [8] nossa de cada dia, escapando e resistindo.

 

Imagem da revista Fon Fon: Semanario Alegre, Politico, Critico e Espusiante (RJ), de 1913, edição 0007, p. 33, reprodução do acervo digital da Biblioteca Nacional, http://memoria.bn.br/DocReader/259063/12923.

 

 

As palavras, pelo visto, deram o ar da graça.

Com elas, encerro a digressão com o aproveitamento da URSAL para inventar mais uma união da escrita: a URSALinda – União das Redes Sororas das Américas Lindinhas!

Que tenhamos sabedoria para tirar partido disso.

Escreveu a professora Maíra Zapater no artigo “Os problemas de um feminismo para consumo imediato [9]”.

Sendo assim, de um jeito ou de outro, ao aproximar as lentes, com ou sem filtros, penso que sempre valem as palavras, as críticas e as lutas.

URSAL, sua linda… nossa URSALinda!

 

Renata Nóbrega é membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia) e juíza do trabalho no TRT da 6ª Região. Foi agente de polícia, delegada e serventuária da justiça federal. Curiosa e precisando de poucas horas de sono para viver, vai deixar para dormir quando morrer. É casada com uma mulher que adora dormir. Mãe de Maria Beatriz, a Biatômica. Mestra em História Social pela Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Leia mais:

# feminismo:

#1 Por que o feminismo é tão necessário?

#2 Por que o feminismo é tão importante no contexto atual brasileiro?

#3 O que é Sororidade e por que precisamos falar sobre?

#4 Um pouco da história de conquistas dos direitos das mulheres e do feminismo

#5 Violência contra mulheres, violência doméstica e violência de gênero: qual a diferença?

#6 Pelo fim da cultura do estupro

#7 Do que estamos falando quando queremos legalizar o aborto?

#8 Tirem o racismo do feminismo: mulheres negras vão passar

#9 Transfeminismo: a pauta que nos ensina ir além do binarismo homem e mulher

#10 Meu cérebro, minhas ideias

#11 Homens, vocês têm medo de quê?

#12 Os problemas de um feminismo para consumo imediato


[1] Sobre a experiência da maternidade de BiAtômica e afins escrevi algumas linhas em “O Solar do Amor: nascer mulher, parir-se mãe e irmanar-se na parentalidade” http://justificando.cartacapital.com.br/2018/07/04/o-solar-do-amor-nascer-mulher-parir-se-mae-e-irmanar-se-na-parentalidade/

[2] Do debate dos presidenciáveis no dia 09 de agosto de 2018, destaque para a Ursal. Para mais informações, dentre outros, o artigo “Análise: no debate da Band, direita se digladia e esquerda pode se aproveitar do dividir para conquistar” http://justificando.cartacapital.com.br/2018/08/10/analise-no-debate-da-band-direita-se-digladia-e-esquerda-pode-se-aproveitar-do-dividir-para-conquistar/

[3] Sobre Luis Buñuel, dentre outros, “As muitas Faces de Luis Buñel” http://www.planocritico.com/entenda-melhor-as-muitas-faces-de-luis-bunuel/ e especificamente quanto a uma seleção de filmes e críticas “Os Melhores Filmes de Luis Buñuel” http://www.planocritico.com/listas-luis-bunuel/

[4] Utilize o verbo ‘sulear’, que se encontra em “Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido”, de Paulo Freire, na variante “suleá-los” (sulear a eles), contendo nota explicativa de Ana Maria Araújo Freire. Dentre os artigos de Marcio D’olme Campos, autor referido por Paulo Freire (nos agradecimentos da obra) e Ana Maria Araújo Freire (notas explicativas), há interessante estudo crítico sobre o uso equivocado da expressão ‘nortear’ no caso de se estar no hemisfério sul, uma vez que a estrela Polaris ou do Norte só é vista do hemisfério norte, onde não se vê, em contrapartida, o Cruzeiro do Sul (CAMPOS, M. D. Sulear vs. Nortear: representações e apropriações do espaço entre emoção, empiria e ideologia. in: Série Documenta. Ano VI, n.8. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997. p. 41-70).

[5] Para mais informações, dentre outros, “O Mundo Indígena na América Latina: olhares e perspectivas” (2017), coordenado por PAREDES, Beatrize, organizado por DAMIANI, Gerson; PEREIRA, Wagner Pinheiro; NOCETTI, María Antonieta Gallart e publicado pela EDUSP.

[6] ANDERSON, Benedict. “Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo”. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

[7] Palavras de clareza, angústia, proposição e resistência em matéria de política e sistema mundo podem ser lidas no artigo do professor Achille Mbembe, “A era do humanismo está terminando” http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/564255-achille-mbembe-a-era-do-humanismo-esta-terminando

[8] “O que é Sororidade e por que precisamos falar sobre?” http://justificando.cartacapital.com.br/2016/06/02/o-que-e-sororidade-e-por-que-precisamos-falar-sobre/

[9] Acessível em http://justificando.cartacapital.com.br/2018/01/19/os-problemas-de-um-feminismo-para-consumo-imediato/

 


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