Mais de 1200 venezuelanos deixam o Brasil após ataques xenófobos em Roraima
Segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Mais de 1200 venezuelanos deixam o Brasil após ataques xenófobos em Roraima

Foto: E. Peres/AFP.

Fonte: EBC.

Após os episódios de agressões a imigrantes venezuelanos por moradores brasileiros da cidade de Paracaima, em Roraima, no último sábado  (18), o Exército Brasileiro confirmou que 1200 imigrantes deixaram a cidade e retornaram ao seu país de origem. 

Oficialmente, os imigrantes saíram do Brasil depois que a Polícia Federal fechou, temporariamente, o Posto de Identificação e Recepção por razões de segurança. Porém, o Exército Brasileiro, que realiza a Operação Acolhida em Roraima, confirmou que as agressões também motivaram o retorno dos venezuelanos ao seu país. 

Em São Paulo, imigrantes que trabalham como domésticas vivem condições de escravidão

No ataque, venezuelanos foram expulsos de barracas e abrigos. Além disso, os agressores atearam fogo em objetos. O episódio de violência aconteceu depois que um comerciante local foi assaltado e espancado na sexta-feira (17). Quatro homens venezuelanos são suspeitos do assalto, mas a autoria do crime ainda não foi confirmada.

Devido ao agravamento da situação, o gabinete presidencial convocou uma reunião com os ministros da Segurança Pública, do Gabinete de Segurança Institucional, da Defesa, de Minas e Energia, da Educação e representantes do Itamaraty no domingo (19), no Palácio da Alvorada.

Após a reunião, o governo federal  informou em nota ter enviado 120 homens da Força Nacional para reforçar o policiamento em Pacaraima. Além de citar as medidas já tomadas anteriormente, o governo anunciou que vai intensificar os esforços de interiorização dos venezuelanos para outros estados e enviar no próximo domingo 36 voluntários da área de saúde para atender os imigrantes em parceria com hospitais universitários.

A nota informou ainda que o governo poderá enviar as Forças Armadas para atuação em Roraima, mas essa medida depende de pedido formal da governadora do estado, Sueli Campos.

 

Ministério das Relações Exteriores da Venezuela

Após as agressões e protestos contra os imigrantes, o Ministério das Relações Exteriores da Venezuela emitiu um comunicado oficial pedindo que o governo brasileiro garanta a segurança e o respeito aos direitos dos venezuelanos em Pacaraima. Segundo o comunicado, é preciso ter respeito ao direito internacional, sem discriminação. 

De acordo com a chancelaria venezuelana, foram solicitadas ao Ministério de Relações Exteriores do Brasil (MRE) “garantias correspondentes aos nacionais venezuelanos e medidas de resguardo e segurança de seus familiares”.   

Na nota, o governo da Venezuela expressou “preocupação pelas informações que confirmam ataques a imigrantes venezuelanos, bem como desalojamentos massivos de nossos compatriotas, acontecimento que viola normas do direito internacional, além de vulnerar seus direitos humanos”.     

Política Trump: ao menos 51 crianças brasileiras foram separadas dos pais nos EUA

O governo da Venezuela também ofereceu apoio para coordenar ações com as autoridades brasileiras e criticou o que chamou de “violência alimentada por uma perigosa matriz de opinião xenófoba, multiplicada por governos e meios a serviço dos inconfessáveis objetivos do imperialismo”.

Ainda de acordo com a chancelaria venezuelana, funcionários do consulado em Boa Vista foram instruídos a se deslocarem de forma imediata a Pacaraima, a fim de avaliar a situação e garantir a integridade dos venezuelanos.  

 

Ataques

Isac Dantes/AFP

A cidade fronteiriça de Pacaraima, em Roraima, passou por um surto de ataques xenófobos e viveu momentos de tensão neste sábado (18), com confrontos entre moradores locais e imigrantes venezuelanos, cujos acampamentos improvisados foram incendiados e destruídos. O tumulto começou durante a manhã, depois que a família de um comerciante brasileiro culpou um grupo de venezuelanos por um assalto ocorrido na noite anterior. A autoria do crime ainda não foi confirmada.

Em retaliação, dezenas de brasileiros atacaram os dois principais acampamentos improvisados dos imigrantes —que há dois anos intensificaram o fluxo migratório no norte do Brasil— e queimaram seus objetos pessoais.

 

Migrar é natural. Migrar é um direito.

Em entrevista concedida ao Justificando, a advogada especialista em refúgio e migração e idealizadora do projeto Vidas Refugiadas Gabriela Cunha Ferraz afirma que não existe uma crise migratória a ser combatida.

Eu não considero que exista uma crise migratória. O que existe é o fluxo de pessoas, que sempre existiu desde que maria saiu para poder parir Jesus fora da cidade dela.

Para Gabriela é preciso reconhecer um direito à migração para que se possa cobrar dos Estados mais organização e segurança quanto aos fluxos migratórios naturais.

Desde sempre o ser humano é um ser migrante. É da essência do ser humano migrar, por diferentes razões. A questão que se vê hoje é uma migração desorganizada, uma migração insegura para as pessoas.

A advogada aponta, ainda, a necessidade de se reconhecer um recorte étnico e econômico quando se fala de “crise migratória”.

Na verdade, o que temos que dizer é que essa migração é desorganizada e insegura para pessoas pobres, para pessoas negras. Porque para pessoas brancas, como eu, que vivo em outro país, a migração é altamente organizada e as coisas funcionam bem.

Por fim, lembra que ser refugiado não é privilégio de nenhum grupo social. 

É uma circunstância da vida, uma circunstância que pode acontecer na vida de qualquer um de nós. Estamos falando do fluxo forçado de pessoas e não de migrações voluntárias. São pessoas que passam por um processo de transformação [em suas vidas] e que precisam de políticas públicas que garantam a sua proteção.

E conclui:

Nenhum ser humano é ilegal. Não existe a expressão imigração ilegal. Isso é completamente descabido, porque dizer que existe uma imigração ilegal é afirmar que existiriam pessoas que são ilegais.

 


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

 

Segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]