Minha alma é uma eterna diáspora
Quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Minha alma é uma eterna diáspora

Imagem Tomaz Silva/Arquivo Agência Brasil

Olha, eu sempre gostei de ir à praia. Sempre me senti bem lá. Não vou o tanto quanto gostaria de ir, mas sempre que posso, acabo tentando ficar pelo menos uns dois ou três minutos admirando o mar, a vastidão do oceano, as ondas quebrando na areia e aquela leve brisa que sopra e mexe as folhas das palmeiras, dos coqueiros.

Não ligo se não tiver guarda-sol, cadeira de praia, sombra disponível, esteira, e aquela tralha toda que a família gosta de levar. Se posso, vou sozinho, vestindo uma bermuda e levando o chinelo na mão, pois os meus pés gostam de sentir a areia entre os dedos.

 

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Não vou mentir, quando a areia está muito quente eles abrem uma exceção, é claro. Do contrário, ao pôr os pés na areia, eles já estão desnudos. Vão me levando até a beira da água e não descansam até tocá-la, mesmo que fria. Sobe um leve arrepio pela espinha que vai até a cabeça e se transforma em sorriso.

Levanto a cabeça, fecho olhos, respiro bem fundo e ouço o barulho do mar.

Um mergulho também é sempre bem-vindo, mesmo em dias frios e de chuva fina, quando já faz muito tempo em que este encontro entre o meu corpo e a água do mar não se realiza. Parece loucura, e talvez até seja mesmo, mas não troco essa sensação por um retiro no meio do mato ou em qualquer outro lugar.

Naquelas perguntas que te fazem por vezes: “você prefere o campo ou a praia?” Eu não tenho como titubear, a resposta salta em meus olhos: A praia, sem dúvida!

 

 

É uma paixão que até bem pouco tempo eu não saberia bem explicar, mas esses dias, como em um passe de mágica, pensando sobre o tempo em que não nos encontramos, eu e o mar, a resposta me veio com uma simplicidade assustadora.

Minha alma ainda está em diáspora!

Eu nasci aqui, eu sempre vivi aqui, eu me sinto parte desse país, dessa nação, mas a minha alma, ah, minh’alma… Minha alma ainda está em diáspora.

Minha ancestralidade refletida na minha pele escura e nos meus cabelos crespos, que grita e sofre por uma liberdade tardia e ainda incompleta, me mostra todo dia ao meu olhar no espelho que parte de mim jamais será daqui. Jamais deveria ter saído de lá. Mesmo que eu não saiba ao certo onde esse “lá” está. Talvez entre o Benin e o Togo, sei lá. Que me importa é saber que vim de África que, muito bem, todos já deveriam saber, não é um país.

Meu olhar perdido no horizonte na beira da praia é a necessidade que minha alma tem de retornar para a casa. Fazer a viagem de regresso. Voltar por essas águas turbulentas, mas dessa vez em paz, sabedora de que seu corpo materializado, não mais cativo, pode levar-lhe além mar como queira ir. Seja de barco, avião ou a nado, caso tivesse eu preparo para isso. Meu corpo não faz a travessia por falta de tempo, que é dinheiro nos tempos de hoje.

 


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Não saber qual ponto eu deveria realmente visitar me traz outras reflexões, como, por exemplo, a minha árvore genealógica. Algo aparentemente simples, mas que para mim e milhares de outros como eu que aqui estão, nos foi negado.

Pois é, é duro dizer, mais o meu país me negou no passado a possibilidade de eu dizer hoje, sem sombra de dúvidas, de qual região da África minha ancestralidade vem. Culpem Rui Barbosa ou não, o fato é que entender os abismos causados às populações negras vai muito além de pensar se nós podemos ou não ser beneficiados por “ações afirmativas”.

Minha alma saber de onde veio ou de onde são seus ancestrais também é reparação histórica, esta, certeza, que nunca virá plenamente. Mas já que não consigo atravessar o oceano a nado e minha alma não terá seu merecido descanso à barlavento, contento-me em sentar na areia e admirar o horizonte infindo que encara.

 

Gabriel Alex Pinto de Oliveira

 


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Quarta-feira, 29 de agosto de 2018
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