Invisibilidade, nacionalismo e lobby: marcha palestina aponta problemas na mídia internacional
Quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Invisibilidade, nacionalismo e lobby: marcha palestina aponta problemas na mídia internacional

Foto: Mohammed Abed/ AFP.

Por Manuela Ferraro

Iniciada no dia 30 de março deste ano, a Grande Marcha do Retorno foi uma campanha de seis semanas de protestos lançada por moradores da Faixa de Gaza. Os moradores se manifestaram pelo direito de retorno de refugiados palestinos às terras israelenses e contra a mudança da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém.

Organizada perto da fronteira entre Gaza e Israel, a caminhada protagonizou um dos dias mais sangrentos do conflito desde a guerra de 2014.

 

A Invisibilidade na mídia israelense

Palestinos não existem na mídia israelense.

Garante Jamal Juma, ativista palestino e fundador da organização Stop the Wall. Segundo ele, a posição da mídia israelense faz parte do projeto sionista, que desenha Israel como se palestinos não estivessem lá.

Se você vai para o West Bank e vê as placas de trânsito, poucas mencionam os nomes das cidades palestinas. Com o muro construído, carros que passam pelas estradas nem sequer notam nossas vilas.

A visibilidade de palestinos levaria Israel a relembrar os crimes que cometeu, sustenta.

No dia 14 de maio, mesmo dia em que se inaugurou a embaixada estadunidense em Jerusalém, 58 palestinos foram mortos e 2700 foram feridos. Não houve menção aos embates durante a cerimônia.

A militante israelense e coordenadora do movimentos de boicote Sahar Vardi explica que a palavra retorno não é um termo presente na mídia israelense. 

Com os protestos de Gaza, não houve alternativa senão usar a palavra, mas não há discussão sobre o que significa ou de como o retorno aconteceria.

A expressão só se torna notícia quando quem protagoniza a ação é judeu israelense, que no discurso jornalístico ganha o estigma de traidor.

Amira Haaz, correspondente do jornal israelense Haaretz na cidade de Ramallah, defende que quanto mais complexa for a figura do palestino, mais se contribui para desmontar a desumanização que a ocupação militar da região continuamente produz. Entretanto, acredita que é necessário cautela com o uso do termo retorno.

O perigo é fazer do direito de retorno um slogan vazio, porque antes de advogar por isso precisamos ter um entendimento mútuo [de seu significado].

Gigantes árabes focam em pautas locais

A marcha do retorno não foi destaque nem na mídia israelense, nem nos gigantes da mídia árabe. Marc Lynch, professor de Ciência Política da Universidade de George Washington, observou que no noticiário desses veículos, a crise foi mais uma entre várias.

As audiências árabes, explica Lynch, estão atualmente divididas por linhas sectárias, nacionais e ideológicas e nenhuma mídia é capaz de conquistar todo o público da região.  E mesmo que árabes claramente se preocupem com os territórios palestinos, a mídia não vai sustentar esse foco à custa de outras questões e interesses.

A Al Jazeera, por exemplo, que dominava o cenário midiático no começo do século, tem alinhado suas pautas com com a política externa catarense desde a primavera árabe.

Competindo por atenção com as guerras do Iêmen e da Síria, a visita do Príncipe Mohammed Bin Salman aos EUA, e o drama de Trump em relação ao fim do acordo nuclear com o Irã, Gaza teve dificuldade de criar a mobilização que os impérios midiáticos árabes costumam proporcionar mas que também coloca os países em uma posição mais combativa com Israel.

 

Lobby judaico influencia imprensa brasileira

Com a pressão das comunidades judaicas, a imprensa brasileira também tem dificuldade de tratar o tema.

Uma parte dessa comunidade, além de saber fazer um lobby muito eficaz, tem muita grana – e o componente econômico é importante.

Diz Yan Boechat, repórter brasileiro que cobriu a Marcha da Faixa de Gaza. A posição das igrejas evangélicas absolutamente pró-Israel, é outra pedra no caminho.

Jornalistas brasileiros também pecam no conhecimento sobre a origem e a natureza da relação entre Israel e a Palestina.

Antes de militar, o conflito é midiático.

Aponta Boechat.

É óbvio que 5000 pessoas em Gaza não iriam conseguir cruzar para o lado israelense, ainda que armadas. Israel diz que está protegendo suas fronteiras, mas quem tenta atravessar é facilmente abatido. O embate tem objetivo de chamar atenção do mundo.

Na visão da repórter  internacional da Folha de São Paulo, Patrícia Campos Mello, a imprensa brasileira parte dos valores branco ocidentais quando cobre a questão Palestina.

Há aquela coisa de estereotipar todo mundo como terrorista.

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