O incêndio do Museu Nacional: Alexandria 2.0
Segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O incêndio do Museu Nacional: Alexandria 2.0

Imagem: EBC Arte: Daniel Caseiro

O incêndio da biblioteca de Alexandria possui pelo menos três versões sobre sua causa. A mais nova culpabiliza o conquistador árabe Amir Ibne Alas, que supostamente teria dito que “se aqueles 400 mil rolos de texto estivessem de acordo com o Corão, seriam dispensáveis diante da grandiosidade do texto religioso e poderiam ser queimados; se fossem contrários ao que prega o Corão, seriam queimados de qualquer forma”. Esta versão é a menos confiável, levando-se em conta datas e registros, e também porque a maior parte dos historiadores reputa que esse mito foi construído como forma de alimentar o ódio contra muçulmanos durante as Cruzadas. Há outras duas versões, mais críveis. Uma indica que o incêndio adveio de uma ordem de Júlio César durante a Guerra Civil com Pompeu; e a outra que teria partido de um decreto do imperador romano Teodósio no intuito de eliminar qualquer incentivo ao paganismo. 

Em todas as versões, o patrimônio cultural foi julgado dispensável pelos governos que se sucederam, o que no Egito antigo resultou em mais de dois séculos de retrocessos nos campos econômico e filosófico. Contudo, a história moderna refuta a ideia de um incêndio único como causa da destruição da biblioteca de Alexandria. O que parece mais próximo do que aconteceu foi um processo paulatino que durou anos, em meio a cortes de recursos, alguns pequenos incêndios causados pela falta de cuidados, outros manifestadamente intencionais – tudo resultando na diminuição do acervo que no fim acabou tendo os seus últimos resquícios varridos por chamas.

 

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Se não fosse a tragédia de Alexandria, toda a filosofia como conhecemos hoje, de Platão e Sócrates a Aristóteles, seria diferente.  Textos fundamentais desses pensadores foram perdidos, junto de muitas outras coisas que sequer chegamos a conhecer. Talvez todo esse conhecimento nos esteja fazendo falta, neste exato momento da curta história da humanidade em que parece ser tão difícil optar pela viabilidade da espécie humana, reduzir o nosso consumo de bens, mudar a forma como nos relacionamos com a natureza.

Traçada a analogia de Alexandria com o Rio, é dolorido pensar que a minha filha jamais poderá conhecer o que eu conheci dentro do Museu Nacional.

Mas é preciso dizer que o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro não é uma metáfora, não é uma alegoria de uma distopia que se avizinha. O fogo de ontem foi real. Ardeu e reduziu a cinzas mais de 20 milhões de bens culturais insubstituíveis para o Brasil, para a América Latina e para a humanidade. O crânio de Luzia, conservado fossilizado pela natureza por mais de 11 mil anos – a mais importante descoberta arqueológica no Brasil -, foi destruído em menos de 2 anos de um governo de “doutrina do choque”, como ensina Naomi Klein. E esse é só um exemplo dentre outros 20 milhões de memórias, riquezas, registros e obras de arte perdidas no que era o mais importante acervo da América latina.

Isso é muito grave.

 

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O que aconteceu ontem não é fruto do acaso, ou um acidente lamentável. É um projeto bem pensado de desmonte do país, que reduz a qualidade dos serviços públicos, vulnerabiliza funcionários, e que, se não se incendiasse no caminho, entregaria um museu inteiro à iniciativa privada, um museu construído com mais de 200 anos de contribuição tributária da população. Justamente essa população que hoje não poderia arcar com os custos de um bilhete de entrada se não fossem os subsídios estatais à cultura. Exatamente esses subsídios que foram reduzidos drasticamente para atender os auspícios da nova ordem neoliberal sangue-puro imposta em 2016.

Por tudo isso, é preciso pensar de que lado você está. Do fogo que barbariza e queima indiscriminadamente o que vê, de quem corta recursos e esperar ver “no que dá”, ou de quem joga água e corre para salvar o que ainda pode ser salvo? 

Escolham as suas armas e o seu lado.

E que a tristeza não paralise nossas ações.

 

Alessandra Devulsky é advogada, lecionando atualmente no programa de mestrado da Faculdade de Direito da Université du Québec à Montréal – UQAM, sendo diretora jurídica do Instituto Luiz Gama. É mestre em direito político e econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, e doutora em direito econômico, financeiro e tributário pela Universidade de São Paulo – USP. 


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