O Museu Nacional era maior acervo de cultura ameríndia e afrodescendente do País
Segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O Museu Nacional era maior acervo de cultura ameríndia e afrodescendente do País

Imagem: Ricardo Stuckert

Os investimentos destinados ao Museu chegaram a apenas 330 mil reais nos últimos três anos, quase metade abaixo do previsto

Por Caroline Oliveira

Em poucas horas, o Brasil perdeu o documento de assinatura da Lei Áurea, que extinguiu a escravização no País e revogou quaisquer disposições contrárias. Queimou-se a primeira edição de “Os Lusíadas”, de 1572, destruindo qualquer epopeia à brasileira que tentasse ali suscitar. Foi-se o primeiro jornal impresso do mundo, datado de 1601. Virou cinzas, praticamente por inteiro, o prédio onde foi assinada a independência brasileira, que deixa para ser relembrada cinco dias após a invasão do fogo, 7 de setembro de 1822. Também ardeu em chamas o mesmo edifício onde foi sediada a Assembleia Constituinte Republicana de 1889. Sem contar Luzia, o fóssil mais antigo das Américas, descoberto em 1970, que resistiu 12 mil anos antes de ser encontrado, mas talvez não tenha suportado 48 anos de negligência e fragilidade do Estado brasileiro.

Daquelas paredes que presenciaram a visita dos cientistas Albert Einstein e Marie Curie, sobrou somente a fachada. Esta última resiste cravando-se ao mundo em um luto político na mesma cidade que guarda o Museu do Amanhã, que só pode existir se houver um passado, só será melhor se conhecermos este pretérito. É dessa forma que o Museu Nacional passa para a história. Ali estavam acolhidos mais de 200 anos de lastro de verdade da ciência historiográfica.

 

+[ASSINANDO O +MAIS JUSTIFICANDO VOCÊ TEM ACESSO À PANDORA E APOIA O JORNALISMO CRÍTICO E PROGRESSISTA]+

 

Para o Direito e as ciências da humanidade, não se sabe o tamanho da perda. Segundo Claudio Prado de Mello, arqueólogo e historiador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), os danos são “inestimáveis e incomensuráveis”. Cristiana Cerejo, vice-diretora do museu Nacional, estimou, nesta segunda-feira, 3 de setembro, que menos de 10% do acervo pode ter sido preservado.

De acordo com Helena Wakim Moreno, historiadora e estudiosa da cultura afro-brasileira, o acervo tinha cerca de 20 milhões de peças em sua totalidade, que compunha também o maior de cultura ameríndia e afrodescendente do País. Ela explica que o sétimo maior museu nacional do mundo era importante não apenas pelas informações que continha, mas por ter sido o primeiro do Brasil, o que envolve os resultados de missões científicas realizadas no território brasileiro há 200 anos e que contribuíram para a formação da pesquisa científica nacional.

A mostra permanente do Museu Nacional era uma exposição de História do Brasil que tinha o objetivo de ser a construção da narrativa nacional e oficial do País. “Ali tinha, por exemplo, a carta de suicídio de Getúlio Vargas”, explica a historiadora.

 

Leia mais:
Um grande acordo de queima, com museus, com tudo!
Possível corte de bolsas para pesquisa na Capes é inconstitucional, avalia pesquisador
O incêndio do Museu Nacional: Alexandria 2.0

Quem votou no teto dos gastos é responsável pela crise na educação

 

Se alguns murais restantes de Pompeia não foram destruídos pela erupção vulcânica que desmanchou a cidade um século antes de Cristo, acabaram assim sendo pela falta de manutenção do museu mais de vinte séculos depois. Para Helena Wakim Moreno, qualquer espaço museológico precisa de condições mínimas de conservação. No entanto, o que se viu desde 2016 foi a derrocada de investimentos públicos destinados ao Museu da Quinta da Boa Vista, como também é conhecido. Nos últimos três anos, foram apenas 330 mil reais destinados, quase metade abaixo do valor previsto. Para efeito de comparação, segundo o jornalista Fernando Mellis, a Câmara dos Deputados gastou R$ 643,5 mil no ano passado somente para lavar carros dos parlamentares.

“São perdas irreparáveis. O discurso de reconstrução não abarca somente o espaço físico. É também uma perda arquitetônica, mas algumas coisas não podem ser reconstruídas porque foram perdidas na íntegra”, afirma Moreno. Segundo uma nota divulgada pelo Palácio do Planalto, o gabinete da Presidência começou a articular uma rede de apoio econômico formada por Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Vale e Petrobras.

Rita Cortez, presidenta nacional do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), afirmou em nota “esse verdadeiro monumento acadêmico e científico foi mais uma vítima, certamente, da falta de investimentos elementares na prevenção contra esse tipo de sinistro. E, principalmente, uma vítima do descaso com que são tratadas a Cultura e a Educação em nosso País”.

 

O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

 

Segunda-feira, 3 de setembro de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend