Quem tem medo do cinema negro?
Segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Quem tem medo do cinema negro?

Foto: Cena do filme Kbela, de Yasmin Thayná (2015).

Créditos iniciais

Vivemos em tempos sombrios, tempos onde as diferenças são cada vez menos respeitadas, tempos onde direitos sociais são cada vez mais atacados por gritos de ódio e intolerância. Porém, mesmo dentro dessa neblina de poeira emerge um movimento que nos dá esperanças. O cinema negro emerge e levanta, o cinema negro é o hoje, é o agora. E este levante assusta, dá medo, cria alvoroço dentro de uma sociedade que está bem conformada com suas desigualdades raciais.

O filme Kbela lotando o tradicional Odeon em 2016 e circulando pelo mundo todo sendo premiado; a extensiva premiação de filmes de cineastas de pele negra no Festival de Brasília de 2017; a comemoração de 10 anos do Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe reforçam o momento de insurgência que o cinema negro vive. Porém, ainda paira a constante pergunta: o que seria um cinema negro? É uma pergunta fácil de se responder da mesma forma que também é complicada. É fácil porque podemos afirmar que cinema negro é todo o cinema que tem a figura negra como protagonista. É complicada porque o cinema negro não se define somente por essa primeira resposta, existem uma gama de tensões, assimétricas relações de poder e traumas históricos atrás da definição de cinema negro. É pelo caminho complicado que pretendo tentar definir o cinema negro e mostrar porque ele assusta.

 


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Apresentando o cenário

Já é bem disseminado pelo imaginário coletivo a ideia que negras e negros são historicamente mal representados nas produções artísticas, total reflexo das ações contrárias a população negra mundial oriundas do crime hediondo da escravização transatlântica. Desde os quadros de Debret, passando pelo teatro de menestréis e o blackface norte americano, pela literatura como o Cortiço, pelos filmes do Tarzan e muitas outras representações nas diferentes formas de expressividade artística, o estereótipo e a imagem negra são sempre associados ao primitivo, ao atrasado, ao serviçal, ao supersticioso, a ameaça e ao animalesco.

O cinema não é caso diferente. Existe uma considerável discussão teórica sobre esta forma de sub-representação, no contexto brasileiro: Noel de Carvalho com seu Esboço para uma história do negro no cinema brasileiro (2005) presente no livro Dogma Feijoada de Jefferson De; João Carlos Rodrigues com seu O negro brasileiro e o cinema (2011); e Joel Zito Araújo com sua tese de doutorado adaptada para o cinema A negação do Brasil (2001) tratando das semelhanças desta sub-representação nas telenovelas brasileiras. Todos estes autores encontram dentre os problemas da representação de negras e negros nas telas do cinema a continuidade de um racismo epistêmico e estético com origem nos traumas coloniais. Vemos reflexos dessas considerações na forma como a intelligentsia cinematográfica pensava sobre a presença negra na tela do cinema na época do cinema mudo:

Quando deixaremos desta mania de mostrar índios, caboclos, negros, bichos e outras ‘avis-rara’ desta infeliz terra, aos olhos do espectador cinematográfico? Vamos que por um acaso um destes filmes vá parar no estrangeiro? Além de não ter arte, não haver técnica nele, deixará o estrangeiro mais convencido do que ele pensa que nós somos: uma terra igual ou pior a Angola, ao Congo (CINEARTE apud ARAÚJO, 2006, p. 73) [1].

 


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O projeto de branqueamento ocorrido no pós abolição com a negligencia estatal aos escravizados recém alforriados e o incentivo da migração de famílias europeias é refletido no projeto cinematográfico brasileiro, recém consolidado na época também:

Fazer um bom cinema no Brasil deve ser um ato de purificação de nossa realidade, através da seleção daquilo que merece ser projetado na tela: o nosso progresso, as obras de engenharia moderna, nossos brancos bonitos, nossa natureza (CINEARTE apud ARAÚJO, 2006, p. 74)

O cinema não é a própria representação da realidade, mas é uma criação dela própria, ou seja, se uma sociedade está enraizada em imaginário racista, suas produções cinematográficas tendem a refletir isso. É o que aconteceu no caso estadunidense: o filme O nascimento de uma nação (1915) de D.W. Griffith apesar de ser um marco na inovação narrativa e técnica do cinema mundial, sub-representa as personagens negras com uso do blackface de forma caricata, estúpida e bestial. O filme retrata a reconstrução dos Estados Unidos após a guerra civil. Com a abolição dos escravizados no sul do país a população branca se sente em perigo e cria a Klu Klux Klan para proteger suas famílias da ameaça negra. Na narrativa do filme a KKK é vista como a salvação do país. Desde o marco fundador e dos primórdios do cinema do mundo e do Brasil as representações dos corpos negros se dão de uma forma desapropriada.

 


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Apontamentos políticos, estéticos e culturais

Reconhecendo o paradigma estético que precisa ser enfrentado podemos presenciar um dos primeiros apontamentos do que é o cinema negro. Cinema negro é um ato político de combate ao racismo. Encontramos no pioneirismo de cineastas como Oscar Micheaux, primeiro negro a dirigir um longa-metragem no mundo com a obra The Homesteader (1919) – exemplo direto ao racista O Nascimento de uma Nação; em Ousmane Sembène e seu curta metragem Borrom Sarret (1963) o primeiro filme dirigido por um africano negro na áfrica sub-saariana; e em Zózimo Bulbul e Alma no Olho (1973) o primeiro curta metragem assumidamente negro no Brasil. As experiências deste cinema são políticas, não somente por protagonizar negros ou por criticar diretamente o racismo em suas diferentes formas estruturais mas sim porque o próprio ato de um negro conseguir realizar um filme é um ato político, já que o acesso a produção e a distribuição do cinema não é barato nem fácil.

Historicamente, fazer cinema é um ato elitista e por diversos motivos os realizadores de filmes e do cinema acabam se limitando a parcela branca da elite. No contexto brasileiro, a sub-representação negra nas telas e atrás das câmeras tem sido discutida e afirmada pelos estudos da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) [2] e o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) [3]. Para exemplo desta desigualdade evidente, no índice da GEMAA, que cobre o cinema brasileiro de 2002 à 2014, encontramos à frente das câmeras nas obras de longa metragem lançadas neste período uma percentagem de 80% de realizadores brancos e homens; no mesmo período,  14% das realizadoras são mulheres brancas,  2% são homens negros e 0% são mulheres negras. Encontramos uma desproporção similar de participação quanto à cor das personagens: branca (65%), preta (18%), parda (14%), não identificada (2%) ou indígena/amarela (1%). Estes estudos justificam ainda mais a emergência de um cinema negro tanto para o protagonismo nestas produções como na conquista de editais e políticas públicas de afirmação de direitos.

 


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A questão racial não é somente uma demanda da população negra pois, além de ser relacional (para existir uma raça/etnia é preciso se existir um “outro” diferente) em uma sociedade democrática a demanda racial é (ou deveria ser) uma questão coletiva. No Brasil, os cineastas do cinema novo, brancos de movimentos de esquerda, foram os primeiros a discutir a questão racial no cinema brasileiro, apesar do caráter paternalista e homogeneizador de associar a população negra ao popular brasileiro que precisava se emancipar perante as hierarquias do capital. Foi através dos filmes do cinema novo que Antônio Pitanga, Zezé Motta e o próprio Zózimo Bulbul conseguiram lançar suas carreiras no cinema.

A construção de um cinema negro, ou que encene representações das relações raciais, não é monopólio de um grupo étnico (CARVALHO, 2005) [4].

Apesar de não ser monopólio é preciso se respeitar o protagonismo negro em suas auto representações. Na virada para o século XXI dois manifestos foram criados propondo definir o cinema negro: o Dogma Feijoada e o Manifesto de Recife. O primeiro é mais restritivo, considerando a obrigatoriedade da direção ser negra e a total exclusão de estereótipos e clichês de bandidos ou heróis; enquanto o segundo busca por políticas de inserção de profissionais negros do cinema e em pensar uma estética brasileira plural respeitando a nossa diversidade (CARVALHO, 2005).

 


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Definindo a trama

A definição do cinema negro é uma tarefa complicada porque trata de muitas dinâmicas que vão além dos planos, cortes e enquadramentos. Cinematograficamente não é possível aprisionar este conceito em uma caixinha rotulando os filmes com a etiqueta racial e tirando-os da ampla concorrência. Cinema negro não é um gênero como Westerns, blockbusters e animações. Cinema negro está relacionado a cultura de uma população dizimada nos noticiários da tv. Cinema negro está relacionado ao apagamento de uma memória ancestral com origens no continente africano. As sociedades africanas que estão conectadas por um fio de memória com as diásporas do atlântico e consequentemente com o cinema negro brasileiro tendem a ser xenofílicas e polirracionais, ou seja, abarcam a pluralidade, a diferença em seus conjuntos estéticos, éticos e políticos. Consequentemente, o cinema negro é plural assim como é a cultura negra. Por isso, seria ilusório tentar estabelecer uma unidade estética entre os cineastas envolvidos no cinema negro.

A unidade estética e política deste movimento está na busca de outras representações negras e na reparação de injustiças históricas. O avanço das políticas de cotas no ensino superior potencializa esse levante, com cada vez mais pessoas negras se formando, questionando e abalando antigas estruturas racistas. Homens e mulheres negras com seus filmes conquistam festivais brasileiros, como é o caso de Café com Canela (2017) de Glenda Nicácio e Ary Rosa que conquistou o prêmio de melhor filme do júri popular do Festival de Brasília.

 


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A ameaça de desmoronamento das estruturas de privilégios brancos, provocada pelo cinema e pelo acesso de negras e negros às universidades públicas, é uma das causas do medo do levante do cinema negro.

Assim como no cinema, o aumento exponencial de negros nas universidades não aconteceu sem uma enorme resistência de setores intelectuais, inclusive entre aqueles que se consideram progressistas ou de esquerda (ARAÚJO, 2018, s/p) [5].

O cinema negro dá medo porque ele deixa a mostra a cicatriz racial brasileira, bota o dedo na ferida e promove a cura destas chagas coloniais. Nem todos estão prontos para isso, como vimos no polêmico debate do filme Vazante (2017) no Festival de Brasília. O enegrecimento do cinema brasileiro é tenso.

É preciso de mais alma no olho, de mais sensibilidade, de mais incentivo e de mais respeito as diferenças. Se apesar de todos os pesares que impedem o acontecimento da produção cinematográfica para muitas pessoas negras já é possível que cada vez mais diretoras e diretores negros conquistem seu espaço, imagine com o devido respeito. O cinema negro é hoje e o levante é agora!

Marco Aurélio da Conceição Correa é pedagogo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 


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Notas
[1] ARAÚJO, Joel Zito. A força de um desejo: a persistência da branquitude como padrão estético audiovisual. Revista USP, São Paulo. 2006. 
[2] https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/pdf/informe_diversidade_2016.pdf
[3] http://gemaa.iesp.uerj.br/category/boletins/
[4] CARVALHO, Noel dos Santos. Esboço para uma história do negro no cinema brasileiro. In: Jeferson De. (Org.). Dogma Feijoada o Cinema Negro brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005, v. 1, p. 17-101.
[5] ARAÚJO, Joel Zito. O tenso enegrecimento do cinema brasileiro. Cinémas d’amérique latine – Revue annuelle de l’Association Rencontres Cinemas d’Amerique Latine de Tolouse-(ARCAL – número 26). 2018.

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