O incêndio do Museu Nacional e o epistemicídio como projeto político de esquecimento
Terça-feira, 4 de setembro de 2018

O incêndio do Museu Nacional e o epistemicídio como projeto político de esquecimento

Arte: Daniel Caseiro e André Zanardo

No último domingo, dois de setembro, um incêndio de grandes proporções atingiu o Museu Nacional. Das 19h30 até cerca de 3h da manhã do dia seguinte, quando o incêndio foi contido, um acervo estimado em 20 milhões de itens era consumido rapidamente pelas chamas. Os bombeiros, enquanto isso, enfrentavam problemas na captação de água, dada a falta de carga nos hidrantes. O palácio onde funcionava o Museu não tinha sistema de prevenção de incêndio e as instalações eram antigas e precárias.

O diretor no Museu, Alexander Kellner, explicou em entrevista veiculada por alguns jornais, que há anos o espaço sofre com a falta de verbas. Exposições fechadas, prédio em más condições e, certamente, problemas de manutenção e restauração de peças. 300 milhões de reais, investidos ao longo de um década, seriam necessários para executar seu Plano Diretor, ainda segundo Kellner. A verba anual, de R$ 520 mil, que custeava a sua manutenção, também não era repassada integralmente desde 2014.

Há uma frase genérica que pode ser ouvida de muitas bocas, em muitas ocasiões. Uma frase sobre um país Brasil que não conhece a si mesmo e à sua história. O arquivo do Museu Nacional, perdido para sempre, reunia fósseis, objetos etnográficos e arquelógicos, documentos antigos e raros. Todo esse material carregava consigo uma dimensão de vida, na possibilidade que encerrava de transmissão e produção constantes de conhecimento. As pesquisas sobre esse acervo nos deixam órfãs/ãos, porque certamente diriam respeito a quem somos.

 

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Os valores que poderiam ter impedido o assassinato de nosso maior museu, um museu de 200 anos de história, são de todo modestos. R$ 520 mil anuais: soma próxima, não raro inferior, àquela gasta com boa parte de nossas aristocráticas carreiras jurídicas e cargos políticos. Mas ahistória, como nos ensina o governo através, por exemplo, da reforma da educação, é apenas um penduricalho que podemos dispensar, no ensino básico, nas pesquisas das universidades, em nossa vida, enfim.

Aliás, o atual governo vai além: nos empurra, através da emenda constitucional 95, um congelamento de gastos sociais de 20 anos, como se congelar o tempo e a sucessão dos acontecimentos fosse possível. No entanto, ninguém, do lado de cá ou do lado de lá, acredita nisso. Tanto é assim que somas vultuosas – um orçamento total de R$ 1,2 bilhão, segundo dados constantes do próprio Portal da Transparência – têm sido despendidas na guerra que o Brasil hoje trava com parte de seu povo no Rio de Janeiro sob intervenção militar, como lembra minha amiga Laura Gonçalves.

Nossa política de memória é um imenso espaço em branco. O Museu Nacional é o maior e mais trágico exemplo do desprezo pela memória, mas não é o único. Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a situação do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (APEJE), de Pernambuco – cujo acervo, friso, é infinitamente menor do que aquele perdido na noite do domingo. Alojado num galpão sem acondicionamento adequado, o acervo do APEJE sobrevive driblando calor, umidade, pragas e falta de manutenção. Sobrevive, certamente, nas mesmas condições que os demais arquivos do país.

 

Leia na íntegra:

O incêndio do Museu Nacional: Alexandria 2.0

Museu Nacional sofria com corte orçamentário desde 2014

O Museu Nacional era maior acervo de cultura ameríndia e afrodescendente do País

 

 

O desprezo pela memória pode, com toda adequação, ser chamado epistemicídio. Sabemos, por exemplo, que Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas, foi perdido. Também foi perdida extensa documentação sobre línguas indígenas, objetos de diferentes povos e culturas. Com isso, perdemos inúmeras oportunidades de rediscussão e releitura sobre história e passado. E as maiores vítimas, para variar, são negras/os e indígenas. Quem, afinal, foi mais empurrado para a não-existência, não-pertença, não-história que esses grupos?

A história é uma arma política poderosa. No período de tráfico atlântico de africanas/os escravizadas/os, o Porto de Ouidá, onde hoje se ergue o Portal do Não Retorno, era a última visão de África para muitas mulheres e homens levadas/os aos tumbeiros. Conta-se que, no trajeto do mercado da cidade até o porto, havia uma árvore mágica, a Árvore do Esquecimento. Em torno dela, os colonizadores obrigavam as/os aprisionadas/os a dar voltas. O cativeiro deveria ser, ele mesmo, uma política de não retorno, não retorno sobretudo a quem se era. Séculos depois, descendentes das/os cativas/os lutavam pela inclusão de sua história no currículo escolar do Brasil, o mesmo currículo desmontado pela reforma da educação.

Agora se fala em repasse de verbas para a restauração do Museu Nacional. É preciso, nesse jogo de memória, não esquecer o que nos trouxe até aqui, nem desprezar os múltiplos significados do incêndio do último domingo. De minha parte, espero que alguns nomes fiquem marcados, de modo impiedoso, nos rumores e escritos da posteridade. Sei que, em qualquer caso, seguiremos vivas/os e ativas/os, escrevendo, fiando e desfiando cotidianamente a história.

 

Fernanda Lima da Silva é mestranda em Direito, Estado e Constituição pela UnB


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