O ódio aos jornalistas se reflete em pesquisas internacionais
Quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O ódio aos jornalistas se reflete em pesquisas internacionais

Imagem: EBC

Brasil é um dos piores países para atuar na profissão segundo ONGs especializadas

Por Maria Clara Lucci

O Brasil está em 102º lugar no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2018, pesquisa realizada anualmente pela ONG internacional Repórteres Sem Fronteiras. A análise aponta a tensão política de 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff até este ano com a prisão de Lula como principal causa. Outras organizações como a ​Freedom Housee o Comitê de Proteção para Jornalistas (CPJ) consideram a segurança dos profissionais da área e a liberdade de imprensa como indicadores fundamentais de democracia nos países.

No Brasil, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) informou em relatório que a violência contra jornalistas decaiu 50% em 2017 se comparado ao ano anterior. 2016 contou com 192 ocorrências, três a mais que 2013, ano marcado pelas manifestações políticas em todo o território nacional.

 

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Um velho conhecido da polícia

De acordo com a Organização das Nações Unidas, 95% dos profissionais atacados pela profissão são jornalistas locais e ​freelancers, nesta percentagem são contabilizadas assassinatos e agressões físicas e verbais aos profissionais e familiares. Ainda segundo a pesquisa da ONU, os agressores são em maioria do crime organizado, setores de segurança e da polícia. É o caso de André Lucas Almeida, fotojornalista do coletivo CHOC Documental, que já presenciou o ataque a colegas, foi atacado e chegou a ser preso.

Durante um ato de estudantes secundaristas em 2015, ele e outros jornalistas seguiam a Polícia Militar, quando a força tática encurralou os jornalistas e mais policiais começaram a surgir. Um estudante foi agredido e jogado no chão por um deles.

“Aí começou a parte mais crítica, de pisar na mão, de dar tapa na cara. Foi quando eu olhei aquela cena e me remeteu a muitas coisas que eu tinha vivido na escola, o que eu via quando criança, o que fez fazer o que eu faço. Mergulhei no meio das pernas de um dos policiais e fiquei cara a cara com a cena”, conta Almeida.  O jornalista recebeu vários tiros de borracha nas costelas para fazer a imagem, utilizada nesta reportagem, que lhe rendeu o prêmio Vladimir Herzog na categoria fotografia naquele ano. 

“Era de olharem e dizerem ‘vou quebrar tua cara’, ‘você é um merda’, ‘leva ele lá pro fundo pra gente quebrar a cara dele’. Disso para mais baixo”

Em 2016, o repórter e um colega foram levados para a delegacia acusados de vandalismo ao registrar uma “movimentação estranha” na rua, que resultou em pneus queimados. Em certo momento, Almeida percebeu se tratar de um ato do Movimento Passe Livre e que participantes filmavam o ato, depois deixando o local às pressas. Confundidos com eles, o jornalista e seu colega foram abordados com armas pelos policiais na rua, onde sofreram intimidações e ameaças.

Na delegacia as agressões verbais continuavam. “Era de olharem e dizerem ‘vou quebrar tua cara’, ‘você é um merda’, ‘leva ele lá pro fundo pra gente quebrar a cara dele’. Disso para mais baixo”, conta. O delegado o questionou sobre participação em movimentos sociais e partidos políticos de forma ameaçadora, mudando a postura na frente da advogada do repórter e afirmando ouvir os detidos apenas como testemunhas.

“Só que quando eu entrei na sala para prestar depoimento estavam os três boletins de ocorrência que eu tinha feito. Tanto o do segurança do metrô, quanto o do policial que me bateu na Paulista e o do que tomou meu notebook”, relembra, “Aí ele disse ‘Ah! Você é um pouco conhecido aqui’.”

Mais tarde Almeida e o colega descobriram haver um inquérito contra os dois, recentemente arquivado por falta de provas.

Ainda reconhecido pelos policiais, o jornalista segue seu trabalho pela capital, mas afirma que alguns colegas “deram um tempo da rua” após suas agressões. “Fica nítida a perseguição.”

 

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Insistência no diálogo

Na tentativa de conter as estatísticas alarmantes de violência, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) realiza cursos de informação para equilibrar a atuação das polícias às leis internacionais. O Programa de Integração das Normas de Direitos Humanos e Princípios Humanitários Aplicáveis à Função Policial foi desenvolvido para países da América do Sul em 1998 e aborda o uso da força e de armas de fogo.

Para Paulo Roberto Oliveira, general da reserva e responsável pelo programa do CICV, a manutenção da ordem deve ocorrer do modo menos agressivo possível, mas enfrenta problemas. “A principal preocupação do Comitê é que não haja confusão de conceitos. Quando se utiliza a força e quando é violência. São conceitos muito claros, que o policial tem que entender e internalizar em seus procedimentos diários”, afirma.

Sobre a violência voltada à imprensa, Paulo diz ser uma questão de conversa entre os jornalistas e os órgãos de segurança. “Eu ainda insisto no diálogo”.

Segundo o relatório da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) sobre a hostilidade contra a profissão em 2017, o impedimento do exercício profissional corresponde a 8,08% dos casos, censuras 9,09%, cerceamento por meio de ações judiciais 12,12%, agressões verbais 13,13%, ameaças e intimidações 15,15% e agressões físicas 29,29%.

 


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