Quando o suicídio é assistido
Quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Quando o suicídio é assistido

Arte: André Zanardo

Avisto sirenes e carros parados. Reduzo a velocidade sobre a Ponte. Desacelero até parar totalmente. O trânsito está interditado. O pensamento imediato é automático: mais uma vez, alguém está querendo pular da ponte com pretensões suicidas. Poucos minutos se passam até que os carros se desliguem e as pessoas desçam. Faço o mesmo. Estou numa distância em que a pessoa na murada da ponte não tem rosto, mas tem feições. Desolado.

Mais um tempo se passa e agora as pessoas interagem como na fila do pão, falando sobre banalidades ou aleatoriedades, até que não falar sobre o óbvio se mostra insustentável: a vida e a morte daquela pessoa. A partir daí é que as coisas começam a se tornar desacreditadoras. Os diálogos, as frases e colocações refletem uma comunidade doentia e um desvalor pela vida alheia intranscritível.

Piadas iniciam as colocações. “Se matar com essa vista, não é pra qualquer um”. Outro ironiza a situação dizendo que “essa dúvida dele de se matar ou não é que está me matando”. Alguns risos amarelos refletem a quebra do silêncio. Agora é possível falar mais. E uma hora parada no trânsito é o suficiente para esse falar ser violento e desgraçado. Ninguém fala da pessoa na murada ou daquele ato. Passa-se a falar dos incômodos e transtornos individuais. “Minha filha está me esperando!”. “A empresa aberta cheia de clientes e eu sem ter como explicar que estou preso aqui”. Algumas pessoas se aproximam da murada de onde estamos e questiona: “e dessa altura, será que mata?”. Outro responde “pior que não, no máximo vai dar mais trabalho pra alguém”. Talvez aquela pessoa precisasse de soluções, mas ali, seria tomada como “mais um problema”.

O que faz com que aquela pessoa se coloque sobre a mureta é discutido somente no campo da especulação para diminuir seu sofrimento e aumentar um “egoísmo” daquela pessoa. “Ah, mas se ele quer se matar pode fazer isso de outras formas. Não tem que parar a cidade. Não temos nada a ver com isso”, assevera alguém. Talvez a pessoa precisasse de um pouco de compadecimento, mas ali, seria tomado como egoísta.

 

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De algo óbvio que não se falava, a pessoa na murada passou a ser o centro de todas as conversas. Poucas colocações lamentavam aquela condição dele, a maioria era melancólica com a sua própria condição de expectador daquele drama. “Não estão vendo que ele não quer se matar? Se quisesse, já tinha pulado. Ele quer é gente olhando.” Talvez ele precisasse de atenção, mas ali, só encontraria platéia.

Ãnimos se exaltam e os diálogos passam a ser cada vez mais agressivos. Do “vagabundo” que quer atenção e “desgraçado” egoísta, se avança para discutir aquela conduta “autoritária” de fechar a ponte por causa dele. Soluções violentas irrompem os diálogos: “deveria logo abater ele. Se é o que ele quer”. Outro discordava, mas só a discordância que tangenciava a razão “não pode! Depois a família processa o Estado e dá uma confusão.”Alguém sugere que a morte dele não seria interessante, e poderiam “dar um choque e puxar ele”. Outra pessoa questiona o motivo de ter carros da polícia ali: “entendo os bombeiros e a ambulância, mas pra que tanta polícia?”. Alguém retrocede alguns minutos, naquela parte do suposto humor e diz que “é melhor mesmo, porque se ele sai dessa vivo eu vou querer matar ele”. Talvez aquela pessoa precisasse de auxílio, mas ali, só encontraria ameaças.

Decido me afastar um pouco, na direção oposta. Caminho no sentido dos carros parados. Topograficamente, quanto mais longe da feição da pessoa na murada, maior o inconformismo e a indignação das pessoas de estarem ali, parando suas vidas por “coisa qualquer”. Parece que literalmente, quanto mais longe das pessoas em situações vulneráveis estão, menor a empatia. Buzinas, xingamentos, até gritos de incitação são ouvidos. Talvez a pessoa precisasse de solidariedade, mas ali, só encontraria ódio. Decido voltar.

Uma criança que brinca fora do carro e ouve a conversa dos adultos questiona “porque essa pessoa quer se matar?”. Silenciando, a mãe fala “isso não é conversa pra você ouvir”. Talvez aquela pessoa precisasse de informação, mas alí, só encontraria omissão e silenciamento.

Em um gesto que já destoava do clima, uma senhora aparentava fazer uma oração virada para o ponto turístico de onde ali muito bem se via, um convento. Ao lado, outra pessoa tirava uma selfie com vista para as sirenes. Talvez aquela pessoa precisasse de oração, mas ali, encontraria exposição.

 

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O homem começa a caminhar pela murada. A polícia pede para que o cordão de isolamento retroceda, mantendo a distância. E agora passa a solicitar que os carros retornem, manobrando, para esvaziar o local. Isso, apenas isso, causa uma indignação muito maior do que todos os outros eventos. “Estou quase na porta de casa. Se eu retornar, só chego em casa daqui a três horas. Não vou fazer isso”. Falsas simetrias surgem: “se ele tem o direito de ficar ali, na murada, sem se jogar, e parar a cidade toda, eu também tenho o direito de ficar aqui parado”. Um policial de truculência não seletiva começa a falar de forma mais agressiva que as pessoas tem que retirar o carro. “Eu preciso sair porque?” “Porque eu estou mandando”. Ânimos se alteram entre vozes que se elevam. “Eu sou juiz de direito e quero saber qual a ordem de sair daqui”. “Foi o comandante geral que mandou”. “Eu quero saber qual o dispositivo que me faz sair daqui, agora!”. Aquela pessoa talvez precisasse do Estado, mas ali, só receberia a ignorância da lei.

Outro policial com mais calma se aproxima e explica o protocolo de retirada, pois as chances de sucesso para que a pessoa desista de pular são maiores quando tem menos pessoas assistindo e presenciando. “Eles se sentem quase que envergonhados de sair dali com tanta gente olhando”. Sua sensibilidade faz com que algumas pessoas entendam e comecem a manobrar o carro. Outras apenas asseveram suas firmes convicções.

É chegada minha vez de manobrar e faço a volta. Um trajeto de pelo menos duas horas de desvio por causa daquela situação. Mas o tempo é pequeno para digerir toda a desesperança. Hoje foi um péssimo dia para a esperança nas pessoas. Talvez aquela pessoa precisasse de esperança. Mas ali, não encontraria.

Em um mês que se dá destaque aos números de suicídios, à falta de diálogo sobre a depressão e outras causas, aos mecanismos de identificação de pessoas em situação de risco de vida, presenciar um acontecimento como esse nos mostra o quanto uma política de ignorar as crescentes taxas de suicídio. Mostra também o quanto confundir “não noticiar” casos de suicídio com “não discutir e informar” sobre os motivos que fazem essa epidemia se alastrar, são coisas que demandarão, além de instrumentos eficientes e campanhas, uma retomada pela empatia e o valor da vida.

 

Rochester Oliveira Araújo é mestre em Direito Constitucional e defensor público do Estado do Espírito Santo.

 


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Quarta-feira, 12 de setembro de 2018
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