Por que grupos minoritários votam em candidatos de extrema direita?
Quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Por que grupos minoritários votam em candidatos de extrema direita?

Imagem: André Zanardo

Muitas pessoas ficam surpresas com o apoio de minorias raciais e sexuais a candidatos de extrema direita. Por que eles pretendem votar em indivíduos que defendem uma plataforma política baseada no ódio, o que será utilizado para restringir ou destruir seus direitos? A resposta a essa pergunta exige uma análise da percepção das pessoas sobre formas de legitimação social e também do funcionamento do processo político.

Como tem sido observado por inúmeros teóricos, todas as sociedades humanas enfrentam o mesmo problema: como distribuir oportunidades escassas entre os membros da comunidade política? Elas precisam fazer isso de forma que os grupos marginalizados não criem convulsão social e também acreditem na validade dos parâmetros de distribuição. Os sistemas religiosos foram as primeiras narrativas criadas para legitimar esse processo. Eles estabelecem divisões entre os indivíduos baseadas em traços identitários, ponto de partida para a determinação das atividades laborais que eles desempenharão.

Assim, sistemas religiosos fazem diferenciações de status cultural entre as pessoas e determinam quais lugares sociais tais podem ocupar. Ao longo do tempo, discursos científicos substituíram narrativas religiosas, o que permitiu a continuidade da estratificação social em diversas nações. Narrativas religiosas e científicas informam discursos jurídicos que são responsáveis pela diferenciação entre grupos até o presente momento. As várias normas legais e decisões judiciais que referendam tratamento discriminatório entre grupos sociais permitem que isso ocorra.

Estudiosos sobre relações raciais apontam outro aspecto importante desse processo. A diferenciação de status entre os diversos grupos humanos têm uma consequência muito importante. Os membros dos grupos privilegiados desenvolvem um sentimento de superioridade em relação àqueles que estão em situação inferior. As hierarquias sociais são construídas em torno de representações culturais negativas sobre minorias e sobre representações positivas sobre os grupos majoritários.

Esses últimos desenvolvem a convicção de que são superiores porque possuem um bem altamente valorizado, embora construído sobre bases equivocadas: respeito social. Seus privilégios sistemáticos são evidência de que eles são socialmente respeitados. Esse respeito não decorre de procedimentos legítimos, mas apenas da reprodução de vantagens injustas, de privilégios. São pessoas que possuem diferentes tipos de distinção social, o que deve ser mantido a qualquer custo. Vemos então que essa é uma forma equivocada de respeito porque ele não parte do reconhecimento da igual dignidade de todos, mas apenas daqueles que possuem as mesmas características que são usadas para a construção de sistemas de opressão.

Em função dos motivos acima descritos, pessoas brancas racistas heterossexuais e homossexuais se sentem diretamente ameaçadas quando veem pessoas negras em posição de poder e prestígio. O elemento central do racismo é a convicção de que as instituições sociais devem operar para garantir o status privilegiado de pessoas brancas. Ver uma pessoa negra competente, com um grande sentimento de autoconfiança desperta o ódio de pessoas brancas racistas porque a identidade social delas está construída sobre um elemento frágil: falsas representações sobre si mesmas e também sobre o outro.

Assim, homens brancos e mulheres brancas heterossexuais e homens brancos e mulheres brancas homossexuais fazem todo o possível para reproduzir o status cultural subordinado de negros. Pessoas brancas discriminam negras porque elas têm um interesse simbólico e material na discriminação. A manutenção da opressão negra permite que eles obtenham satisfação psicológica e também que gozem de benefícios materiais.

O regime democrático apresenta um grande problema para esse processo: ele permite que os mecanismos responsáveis pela reprodução de privilégios sejam questionados por meio de demandas de direitos. A lógica democrática está baseada na defesa da igualdade entre todos, o que permite o ataque a hierarquias sociais responsáveis pela opressão de minorias. Naturalmente, aqueles que se beneficiam de sistemas de privilégios desenvolvem um grande ressentimento em relação a esse processo e fazem o possível para que o status privilegiado do qual gozam não seja questionado ou eliminado. Membros de grupos majoritários interpretam suas vantagens injustas como prerrogativas pessoais, o que encobre o fato de que o status social privilegiado é construído em cima da marginalização moral e privação material de grupos minoritários. Qual é o grande problema com tudo isso? Para manter seus privilégios, suas vantagens injustas que elas possuem pelo simples pertencimento aos grupos majoritários, esses indivíduos também fazem o possível para desacreditar o regime democrático ou para desvirtuar sua operação.

 

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Pessoas que votam em candidatos de direita estão apenas motivados pelo ódio? Certamente não. Elas desenvolvem uma relação de posse com os lugares sociais que ocupam. A distinção de status cultural faz com que muitas pessoas brancas nutram a ideia de que elas estão nas posições naturais que elas deveriam ocupar. O status racial implica uma posição de respeitabilidade social que esses indivíduos farão o possível para manter, o que implica a necessidade da constante circulação da noção de que negros e indígenas não são capazes de atuar de forma competente no espaço público.

Mas não podemos responder a pergunta posta no início deste artigo apenas a partir da oposição entre negros e brancos. Sendo assim, devemos perguntar: por que tantos homossexuais masculinos votam em candidatos de direita? Por que homens negros os apoiam? Por que mulheres também os prestigia? Vejam, as pessoas possuem várias identidades. Elas não são apenas isso ou aquilo. Muitas dessas identidades são atribuídas a grupos de pessoas por outros, são formas de inserção dos indivíduos nas diversas hierarquias sociais. Há também uma clara hierarquia entre essas identidades: algumas são mais valorizadas do que outras, razão pela qual elas garantem maiores vantagens pessoais para esses grupos.

Não há nenhuma identidade que garanta maior número de vantagens culturais e materiais no Brasil do que ser branco. Isso significa que uma pessoa homossexual pode sofrer desvantagens em função da sexualidade, mas ela terá acesso a vários privilégios se for branca, mais vantagens ainda se for de classe média ou de classe alta e será mais aceito socialmente se for um homem másculo ou uma mulher feminina. Aliás, esses são os únicos homossexuais aceitos por pessoas heterossexuais e eles são os tipos ideias dentro da própria comunidade LGBT. Pessoas brancas homossexuais de classe alta têm uma inserção social inteiramente distinta de pessoas negras ou brancas homossexuais pobres. Pessoas brancas homossexuais estão tão investidas na preservação de privilégios raciais quanto pessoas heterossexuais de classe alta que apoiam partidos de extrema direita. Mais uma vez, a raça é a maior forma de status social na sociedade brasileira, é a principal forma de diferenciação social entre os indivíduos. Ela é o fator que determina o destino social das pessoas. Disparidades raciais têm início antes do nascimento. Afinal, famílias negras ganham metade da renda de família brancas.

Portanto, pessoas brancas homossexuais têm interesse em manter as estruturas sociais que garantem os diversos privilégios conferidos a elas por instituições públicas e privadas. Ser homossexual é uma desvantagem considerável na sociedade brasileira, mas seu prejuízo é inversamente proporcional à classe social. Ser de classe alta significa que o indivíduo tem maior nível de autonomia e, portanto, não será vítima de discriminação institucional como homossexuais pobres, pelo menos não no mesmo nível.

Como outros autores afirmaram, as vantagens sociais são uma fonte constante de satisfação narcísica para pessoas brancas, o que elas não estão dispostas a perder. Pessoas brancas são apresentadas como o único ideal de humanidade. Homossexuais brancos podem ser discriminados por heterossexuais, mas gozam de inúmeros privilégios raciais, o que os situa em uma situação diferenciada dentro da  comunidade LGBT. Eles são os que conseguem emprego, ter uma vida afetiva, não são assassinados pela polícia se forem masculinos.

Homens negros heterossexuais apoiam candidatos de extrema direita porque estão interessados em manter o patriarcalismo, sistema de opressão que garante a eles muitas vantagens no espaço público e no espaço privado. Eles também interpretam o avanço dos direitos das mulheres como uma ameaça à ordem social baseada na superioridade masculina em todos os campos da vida social. Homens negros heterossexuais são discriminados, mas muitos deles não estão interessados na transformação social proposta pelas mulheres. A identidade masculina está construída em torno de claras diferenciações de valor cultural sobre o masculino e o feminino. O discurso reacionário também tira proveito da necessidade narcísica de homens negros heterossexuais afirmarem sua superioridade em relação a mulheres. O apoio a candidatos de extrema direita está então relacionado com o interesse deles em manter relações de submissão no espaço privado, com a necessidade de afirmar a superioridade masculina. A mesma lógica explica o comportamento de mulheres brancas. Elas são sistematicamente discriminadas, mas também são sistematicamente privilegiadas por serem brancas. As que votam nesses indivíduos não estão dispostas a perder essa condição.

Os indivíduos que votam em candidatos de extrema direita também o fazem em função de uma compreensão inadequada do processo político. Ouvimos pessoas dizerem com muita frequência que nós precisamos de um homem forte, de uma pessoa que possa resolver nossos problemas, alguém que imponha sua vontade a todos os outros.

É importante refletirmos sobre o sentido da noção de ordem dentro desse argumento. Essa posição está fundamentada na noção de que a vida pública está baseada na necessidade de todos os grupos respeitarem o consenso cultural sobre as formas de organização social, consenso que expressa a melhor forma de ordenação social. Pensam que demandas de direitos de grupos minoritários comprometem a ordem política porque esses indivíduos querem impor seus valores ao resto da sociedade. Então, teremos uma vida política estável enquanto a tradição não for questionada e os arranjos institucionais que garantem privilégios aos membros dos grupos majoritários permanecerem intactos.

O regime democrático não opera de acordo com essa lógica porque ele tem um propósito central: promover a inclusão, promover a emancipação de grupos minoritários. Esta última depende da eliminação das formas arbitrárias de poder existentes nos espaços públicos e privados, ela requer a visibilidade e participação dos diferentes grupos sociais nos processos decisórios. A democracia exige legitimação, e os arranjos sociais responsáveis pela manutenção de hierarquias sociais arbitrárias não podem ser referendados. No lugar da construção de meios para que a democracia possa ser expandida e se torne uma prática social na qual todos possam acreditar no funcionamento das instituições sociais que se legitimam pela promoção da igualdade, muitos indivíduos optam pelo sectarismo e pela defesa dos seus interesses pessoais.

Tendo em vista o fato que discursos abertamente discriminatórios deixam de ter legitimidade, muitos atores sociais criam novas retóricas que pretendem manter a marginalização cultural e material de minorias. Assim, negros são representados como pessoas racistas porque propõem medidas que supostamente discriminam brancos, homossexuais são apontados como genocidas porque querem eliminar heterossexuais com a demanda de acesso à instituição do casamento.

O que eles chamam de excesso democrático, a demanda de direitos de grupos minoritários, aparece como uma ameaça à ordem política. Eles pensam que essa ordem só pode operar de acordo com as regras responsáveis pela manutenção das hierarquias sociais existentes que atribuem lugares naturais às pessoas. Esses sujeitos entendem a esfera pública como um lugar no qual apenas certos grupos podem operar, interpretam-a como um espaço de defesa dos seus interesses privados. Eles não têm consciência de que a esfera pública é um espaço de ação que deve ser ocupado por todos os segmentos sociais, ideia que a mídia corporativa e partidos políticos fazem todo o possível para reproduzir.

Nossa classe política está sempre empenhada em dizer que apenas certos grupos são capazes de atuar no espaço público, que apenas os membros dos grupos privilegiados podem se ocupar de tal. A noção de que as massas não têm capacidade para poderem participar da vida pública é um dos elementos centrais do discurso político das elites brancas brasileiras ao longo de toda a nossa história.

Em função disso, muitos membros dos grupos sociais majoritários se voltam contra a democracia. Adotam esse comportamento porque estão interessados em manter os arranjos sociais que os situam em uma situação social privilegiada. Mais importante do que criar uma sociedade inclusiva, é o interesse em manter a diferenciação de status e os meios de satisfação narcísica dela decorrentes. Não podemos deixar de enfatizar a importância psicológica dessa diferenciação de status entre os diferentes grupos. Muitos indivíduos que gozam de algum tipo de vantagem social injusta fazem todo o possível para que as  diferenciações sociais sejam mantidas. Isso garante grande satisfação psicológica a eles, além de acesso a oportunidades materiais. Isso faz com que eles não estejam interessados na situação de opressão de minorias. Eles se recusam a reconhecer que essa situação seja relevante e atribuem os problemas que minorias enfrentam à suposta deficiência moral delas.

 

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Candidatos de extrema direita estão a serviço do grande capital nacional e internacional. O ódio é uma forma de legitimar políticas destinadas à manutenção de privilégios raciais e de privilégios de classe. Por que motivo? O interesse na formação de um eleitorado que defenderá uma plataforma política conservadora que impedirá o avanço de minorias raciais e sexuais, o que satisfará o sentimento narcisista dos que têm alguma identidade comum com os grupos majoritários. Mas isso também garantirá o avanço dos interesses do grande capital. Os membros de minorias que votam nesses candidatos para manter privilégios decorrentes de algum tipo de identidade com grupos majoritários não estão atentos ao fato de que eles não têm compromisso com seus interesses. Eles não estão cientes de que o bem-estar pessoal não pode ser mantido de outra forma que não seja a expansão de medidas que promovam justiça distributiva. O narcisismo fala mais alto do que a própria condição de vida deles.

O grande capital sabe dessa dinâmica psíquica e faz todo o possível para que as pessoas apoiem extremistas que não são nada mais do que meros farsantes: eles só querem mesmo enriquecer fazendo favores ao grande capital por meio da pregação do ódio. Mas eles não estão apenas pregando o ódio contra negros e homossexuais. O problema é muito maior. Eles estão tramando contra o sistema democrático. Como bem diz Boaventura de Sousa Santos, os grandes capitalistas nacionais e internacionais estão plenamente cientes de que o capitalismo funciona melhor na ausência de democracia, principalmente de uma democracia calcada em uma cultura pública forte de respeito por direitos humanos de todos. O ódio é, então, irmão do narcisismo e do capitalismo

Políticas distributivas e medidas de inclusão social de pobres e negros foram um dos principais motivos do apoio ao impeachment de Dilma Rousseff e também a principal razão por trás do sucesso de candidaturas de extrema direita. Aqueles que apoiam esses indivíduos não estão movidos apenas pelo ódio, mas especialmente pelo interesse na manutenção do privilégio. Como vários autores já disseram, eles têm ódio da democracia porque esse sistema de governo permite a crítica e nele é possível a desestabilização das vantagens injustas que possuem por serem homens, brancos e heterossexuais. A possibilidade de convencimento desses indivíduos é limitada porque o voto deles é um cálculo material. Lembrem-se, cálculo social que tem o objetivo manter vantagens sociais. Não estamos falando apenas de ódio. Estamos falando de privilégio racial e sexual.

 

Adilson José Moreira é doutor em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito da Universidade de Harvard.

 


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