Ataque neonazista no Rio Grande do Sul é mais um dos ecos totalitários sobre o Brasil
Segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Ataque neonazista no Rio Grande do Sul é mais um dos ecos totalitários sobre o Brasil

Imagem: Imprensa Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul

A condenação da agressão contra três judeus em Porto Alegre vem acompanhada do crescimento expressivo da extrema-direita do mundo

Por Caroline Oliveira

Noite de sábado, 8 de maio de 2005, fazia 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. De dentro de um bar na esquina da Rua República com a Rua Lima Silva, na Cidade Baixa, um bairro nobre de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, um grupo de neonazistas apontaram para três jovens que passavam do lado de fora do estabelecimento: “tem judeu lá”. Eles usavam quipá em suas cabeças, uma espécie de chapéu judeu. Foram espancados e atacados com facas.

Os agressores Laureano Vieira Toscani, Thiago Araújo da Silva e Fábio Roberto Sturm, condenados a mais de 10 anos de prisão no dia 19 de setembro deste ano, foram acusados por tentativa de homicídio triplamente qualificado e lesões corporais. Uma das qualificadoras foi motivo torpe, uma vez que o crime foi cometido exclusivamente por discriminação. Os três se declararam inocentes. No total, nove pessoas foram acusadas. O julgamento de mais três está marcado para o dia 22 de novembro. Os outros ainda não têm data.

Um dos jovens levou quatro facadas no abdômen. Alguns dos neonazistas usavam o assinalamento dos carecas, cabeças raspadas e coturnos com cadarços brancos. Nas casas dos três primeiros acusados, foram encontrados uma bandeira com a suástica nazista, livros de teorias sobre supremacia branca, roupas com símbolos da ideologia e outros objetos.

Toscani já havia sido preso por outra tentativa de homicídio com as mesmas motivações. Na ocasião, esfaqueou um segurança negro. “Negro sujo, nós vamos acabar com a tua raça, tua raça não presta”, lembrou a vítima, sem se identificar, ao G1.

Sobre o caso de 2005, o subprocurador de Justiça Marcelo Lemos Dornelles afirmou ao site que, pela forma como os agressores atuaram, “pela quantidade de membros, fortes, soqueiras, com arma branca […] Pelo número deles, pela violência, com certeza eles foram para matar”.

De acordo com o Ministério Público, os réus são parte de uma organização criminosa que propaga preconceitos contra grupos minoritários, como judeus, negros e homossexuais.

 

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Desde o ano do crime, segundo o delegado da Polícia Civil do RS, Paulo César Jardim, responsável pela investigação do caso, 40 pessoas foram acusadas de crimes com motivações associadas ao neonazismo no Rio Grande do Sul. Este é um dos estados mais conservadores do Brasil e que reserva 35% das intenções de voto a Jair Bolsonaro para o pleito presidencial de 2018. É nesse contexto que a condenação se desenrola.

A possível vitória do candidato do Partido Social Liberal no pleito presidencial de 2018 reforça os ecos fascistas que assombram o País. Para a revista estadunidense The Economist, que estampou o rosto de Bolsonaro em sua capa, este é a “mais recente ameaça à América Latina”. O flerte com o autoritarismo e o desfile de ódio em suas palavras pode desmoronar a jovem democracia brasileira, segundo a publicação.

Para o presidente da Federação Israelita do Rio Grande do Sul Zalmir Chwartzmann “toda sociedade precisa combater o ódio e o discurso de ódio dos radicais”. Criado há cerca de uma semana, o grupo “Judeus contra Bolsonaro” é acompanhado pelas tentativas da sociedade civil em barrar o avanço não só do presidenciável, mas das ideias que carrega em seu discurso de ódio.

Nesta segunda-feira, 24 de setembro, o presidenciável Ciro Gomes, do Partido Democrático Trabalhista afirmou que o pesselista “tem declarações óbvias segregando mulheres, LGBTs, negros. Um vice que diz que é profissional da violência”. A equipe do candidato pelo PSL está prestes a publicar um manifesto para vestir seu candidato com trajes menos radicais. Sobre o documento, Ciro Gomes afirmou que é a “mentira do Hitler”, cujo governo foi eleito democraticamente pelos alemães, depois de manipular o medo na população.

 

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Em janeiro deste ano, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) António Guterres alertou para o crescimento expressivo do neonazismo e de sua influência sobre questões políticas. “Devemos rejeitar aqueles que não conseguem entender que, na medida em que as sociedades se tornam multiétnicas, multirreligiosas e multiculturais, a diversidade deve ser vista como uma fonte de riqueza e não uma ameaça”, afirmou.

Ele reiterou a abrangência política desses núcleos, os quais tentam amenizar o discurso radical com um verniz de debate político. “Eles buscam se alinhar com outros na extrema-direita para empurrar os limites do diálogo aceitável para ainda mais longe”, disse o diplomata.

A ascensão de candidatos radicais da extrema-direita pelo mundo confirma que esses ecos estão perto de se tornarem vozes ensurdecedoras. Viktor Orbán na Hungria. Recep Erdoğan na Turquia. Donald Trump dos Estados Unidos. Marine Le Pen na França. Alexander Gauland, do partido ultranacionalista AfD (Alternativa para a Alemanha). Na Itália, o movimento Liga do Norte, anti-imigrantes. Na Grécia, o partido Aurora Dourada (AD), que nega ser neonazista, mas defende a “raça branca”. Na Eslováquia, o partido neonazista Nossa Eslováquia conseguiu 14 assentos no Parlamento, de um total de 150. No Brasil, Jair Bolsonaro tem 33% das intenções de voto, segundo a última pesquisa, do BTG Pactual.

Chwartzmann ressalta que a condenação dos neonazistas gaúchos é de suma importância para informar e trazer à luz da compreensão o discurso de ódio e da intolerância.

 


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