Uma fábula sobre o mito
Segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Uma fábula sobre o mito

Em tempos de fake news, alertamos logo: esta é uma fábula criada para o momento. Não está nos livros infantis, pois, por mais inacreditável que pareça, atravessamos um momento em que tal conto corre um risco de estar nos livros de história. Por isso a fábula precisa ser entendia, para afastar sempre esse risco.

Os eventos narrados são meramente ilustrativos. Em um momento que criamos verdades e até seres mitológicos, pode ser uma forma de compreender melhor nosso caminho e um arriscado destino. Por ser uma fábula, podemos dizer que os personagens envolvidos são fabulosos, não como uma característica louvável, mas algo que deveria ser apenas imaginativo tamanho o absurdo de se pensar como reais.

Era uma vez… um vilarejo em um reino distante, em terras de grandes riquezas. O vilarejo, muito bem fechado em sua bolha, não sofria com fome, com pobreza ou falta de recursos. Isso era reservado aos que moravam fora do vilarejo, a ermo. Aqueles seres inferiores que vagavam e assombravam os limites da muralha que protegia o vilarejo. Mas o vilarejo também não tinha grandes fortunas, monumentos e palácios.

De casebres a pequenos palacetes, todos tinham um teto, comida e acesso aos seus mais importantes meios de viver: saúde, escola para as crianças etc. As verdadeiras fortunas eram reservadas para a nobreza, que vivia também fora do vilarejo de onde sequer eles podiam enxergar.

Só conheciam as histórias de palácios de ouro, banquetes e fortuna daquela nobreza. Embora almejassem conseguir aquela mesma vida luxuosa, os habitantes do vilarejo não deixavam de se sentir moralmente superiores àqueles nobres que esbanjavam a riqueza desejada: “construir a fortuna com o nosso suor é fácil! Difícil é juntar riqueza nesse vilarejo, com o próprio trabalho”.

Assim, ficando no meio do caminho entre os palácios dos nobres moralmente corrompidos, mas defesos da legião de seres inferiores que habitavam o “além da muralha”, o vilarejo se constituía na média entre as classes que existiam nesse reino. Uma classe do meio.

Apesar de não sofrer com a fome, miséria e outros males, e tampouco se sentirem inferiores por terem uma moral superior aos aproveitadores da nobreza, o vilarejo era assolado por um terrível mal coletivo: tinham medo! Viviam amedrontados e sequer sabiam exatamente de quê, mas pensar em estar do lado de fora da muralha era assustador.

E o que vinha de lá, também causava tremores. Era pavoroso imaginar, por exemplo, que a muralha se romperia. Ou que algo aconteceria com seu vilarejo tão confortável de se viver. Em um determinado momento, quando começaram a desconfiar de fissuras na muralha, o medo foi aumentando e aumentando. Nenhum sinal de mudanças substanciais ali: nada de forme, não faltavam recursos ou qualquer outra alteração, mas o medo se alastrava em todos os rostos dos aldeões.

Resolveram que era preciso fazer alguma coisa.

Em uma difícil construção coletiva de pensamentos, foram expondo seus medos e se alimentando ainda mais do pânico. Procuravam, em polvorosos, soluções que lhes diminuíssem esse sentimento. Algumas pessoas propuseram uma expedição: vamos conhecer o que há além da muralha! “Irresponsáveis! Aventureiros!”. Proposta rejeitada. Outros questionavam: “por que não vamos exigir dos nobres que façam algo para que essas pessoas de fora não nos causem mais medo?” “Irrealista! Sequer conseguimos chegar ao palácio daqueles corruptos”.

Um grupo de velhos, que outrora foram do exército do rei, que a despeito de não serem tomados por sábios, começaram a fazer certo barulho e resolveram apresentar sua solução: “quando estávamos no castelo, conhecemos alguns seres e bichos que vocês não conhecem. O que vocês hoje possuem, essas muralhas, tudo foi construído por que tínhamos, ao nosso lado, alguns desses monstros! E digo-lhes: ainda existem! Estão bem trancados, pois contaram coisas horríveis e distorcidas sobre o que faziam. Mas o mito é real.”

De início, muitos moradores se opuseram: “nós ouvimos as lendas e sabemos o que essas bestas fizeram!” Mas começaram a perder a voz: “não sabem de nada! Lendas são lendas! Vocês não conheceram.” E fora isso, apresentam outra solução? Ninguém conseguia expor uma saída que não fosse ridicularizada ou resolvesse o problema do medo. Assim, os velhos convenceram o vilarejo com uma proposta: façamos assim… traremos um desses seres para que ele seja conhecido por nós e iremos controlá-lo! Ele será capaz de espantar o que nós tememos! Ele irá assustar o medo e estaremos seguros.

Assim foi feito e trouxeram aquela besta que, para surpresa de alguns, não parecia tão ameaçadora.

Para decidir sobre aquela proposta, dois representantes foram escolhidos para serem ouvidos: o do grupo que achava a ideia não muito agradável, que ficaram conhecidos como não-mitos, e o do grupo que se colocava como cansado de sentir medo e não ter respostas que ficaram conhecidos como “pró-mito”. Foram todos até o centro da aldeia onde puderam ouvir a besta. Embora berrasse alto, com uma baba pegajosa que escorria pela boca, e se contorcesse para se livrar das correntes, parecia estar bem amarrado. Além disso, algo surpreendeu os moradores: faltavam-lhe os dentes! E não tinha garras!

– Vejam vocês mesmos: ele serve para afastar o medo, mas é incapaz de nos ameaçar! Faltam-lhe os dentes e as garras! Vamos ouvir o que tem a dizer!

– Eu sou uma besta feroz que posso morder e dilacerar o que estiver na minha frente!  Me devolvam meus dentes e garras que irei mostrar! – berrou a besta!

Aplausos foram ouvidos, puxados por alguns velhos e seguido por vários aldeões. “É isso! Esta é a saída! Acabou o medo! Ele poderá defender o vilarejo, mas estamos seguros de sua violência porque ela só faz berrar! Serve para assustar” Discursou o representante do grupo pró-mito. Um dos velhos ainda explicou: “tiraram seus dentes e suas garras! Assim, podemos controlar sua violência! Muito bem guardado sobre nossa guarda estão algumas dentaduras de pequenos dentes ou maiores, e garras de vários tamanhos! Não será preciso usá-las, mas deixamos guardadas.” O representante do grupo não-mito, por timidez ou convencimento, bastou-se em dizer: “acho que é uma má ideia”.

Embora não fosse consenso, a maioria do vilarejo aceitou aquela proposta como uma alternativa. No portão do vilarejo, a besta foi solta e imediatamente correu para fora em um galope barulhento. No final do dia, a besta voltou com a boca um pouco suja de sangue e parecendo saciada. Isso aconteceu por mais algumas semanas e meses. Sempre que a besta retornava, saciada, as pessoas observavam e refletiam: eles terão mais medo do que nós! Estamos seguros.

Contudo, passado um período, a besta já se mostrava insatisfeita com a dificuldade de ter que fazer tudo sem seus dentes afiados e garras. Os velhos pediram que ela se manifestasse mais uma vez ao público e ela berrou:

– Eu sou uma besta feroz que posso morder e dilacerar o que estiver na minha frente!  Me devolvam meus dentes e garras que irei mostrar!

As pessoas especulavam porque ela dizia aquilo: “deve estar sendo atacada por seres maiores do lado de fora! Não está mais conseguindo nos proteger.” O medo voltava a crescer, mas antes que retirasse a calma do vilarejo, os velhos trouxeram uma pequena fileira de dentes, minúsculos, porém afiados, e luvas com garras pequenas para a besta: “vejam todos! Com sabedoria que guardamos esses artefatos! Podemos calçar a besta que irá ter mais capacidade de assustar!” Muitos aplausos, e alguns inconformismos que se silenciavam. O representante do grupo não-mito expressou: “não é perigoso?” “Ora! Perigoso é estar desprotegido! Você quer que as coisas fiquem como antes”. Assim, a besta recebeu seus dentes e garras, pequenos, mas afiados.
No dia seguinte, em disparada para fora da muralha retornou antes do fim do dia, banhada em sangue e satisfeita. As pessoas se assustaram com a imagem, mas era a besta delas e podiam confiar. Sentiam-se seguras com aquilo. Mais algumas semanas se passaram e a besta, repentinamente, deixou de sair do vilarejo. Novamente, colocada para se manifestar, verborrejou:

– Eu sou uma besta feroz que posso morder e dilacerar o que estiver na minha frente!  Me devolvam meus dentes e garras que irei mostrar!

Em nova assembleia, algumas pessoas, agora já dependentes daquela sensação de segurança bestial, pediram aos velhos que trouxessem dentes maiores e garras mais afiadas. “Não podemos ficar sem essa besta” – diziam. Contudo, outros aldeões se mostravam temerários: “ela pode sair do controle! Não façamos isso!” Em um lampejo de razão, não deram dentes e garras maiores para a besta. Esta se mostrou inconformada e berrou alto:

– Eu sou uma besta feroz que posso morder e dilacerar o que estiver na minha frente!  Me devolvam meus dentes e garras que irei mostrar!

Mas não foi atendida e deitou-se no portão do vilarejo. Durante a noite, contudo, a besta se levantou e foi até o local onde guardavam seus dentes maiores e garras gigantes. Sem dificuldade, devorando um ou outro velho e jovem aldeão que fazia a guarda, calçou suas garras e encaixou seus dentes. Cansada de ter que sair do vilarejo para satisfazer sua violência, ali mesmo começou a atacar e dilacerar aldeões! Até o amanhecer seguiu berrando e trucidando. O pânico se abateu no vilarejo e as pessoas não sabiam o que fazer. Os guardas foram acionados e, depois de muita luta e morte, a besta foi novamente acorrentada.

Como um vilarejo de pessoas civilizadas, organizaram um tribunal para julgar o terrível ataque da besta mitológica que quebrou o acordo e atacou sua própria casa. Chegamos ao último ato da fábula que é o julgamento: no tribunal, diversos se prontificaram para ser acusadores da besta e encontrar os responsáveis por tudo aquilo. Livros e textos enormes foram trazidos com argumentos de acusação. Oradores se preparavam para o seu momento de revelar os horrores que a besta praticou e a parcela de culpa de cada responsável. Mas, para um justo tribunal, precisavam de uma defesa para o monstro. Um dos velhos disse: “ela mesma poderá se defender!”

O julgamento começou e as acusações foram diversas.

Contra a besta, parecia que se revelava uma unanimidade tardia: ela era um monstro que nunca deveria ter sido liberta. Contra ela, a acusação era de traição por ter se rebelado contra os moradores. Os responsáveis por aquilo, um a um sendo encontrados, jogavam a responsabilidade para outros. Esses, por sua vez, eram acusados de terem sido negligentes nos riscos corridos. Os velhos diziam que só apresentaram uma solução, mas que a maioria apoiou e, sem esse apoio, o monstro teria continuado preso.

O representante do grupo não-mito que, eventualmente, havia se manifestado e alertado do perigo, apontou outros aldeões que se entusiasmaram e fizeram coro para a libertação da fera: “nós avisamos que era algo irresponsável!”. Entre reclamações de que os avisos foram poucos ou tímidos, e que não se apresentava uma alternativa à fera, chegaram a uma conclusão complicada: a maioria dos aldeões era responsável pelos eventos que sucederam ao apoiar a ideia da besta.

Como uma maioria que se sente culpada mas não poderia assumir o peso de uma punição, apresentaram sua defesa: “sim, de fato nós apoiamos a única alternativa que apareceu. Além disso, nunca imaginaríamos que as coisas poderiam sair do controle como saíram. Quem poderia imaginar que a besta iria nos atacar? Soltamos ela e demos dentes pequenos para nos defender de nossos temores, somente para assustar e espantar nossos medos, mas não para se voltar contra nós! Foi uma tragédia lastimável. Contudo, a culpada é exclusivamente da besta, que além de monstruosa, é traidora.” Destacou o representante dos que defenderam o mito.

Isto posto, resolveram no Tribunal que era o momento de ouvir a própria besta terrível e lhes perguntar porque virou-se contra seus apoiadores, qual o motivo da sua traição. Nesse mesmo momento, no centro da tribuna, retirando a mordaça da besta, essa esbravejou:

– Eu sou uma besta feroz que posso morder e dilacerar o que estiver na minha frente!  Me devolvam meus dentes e garras que irei mostrar!

Todos ouviram aquele berro inúmeras vezes. O tribunal, atentamente, ouviu aquele depoimento da besta maldita. Sua fala sempre foi a mesma. Seu berro sempre foi de quem poderia morder e dilacerar o que estivesse na sua frente. E, ainda, que bastava que lhes dessem dentes e garras que ela mostraria a todos. A sentença contra a besta foi uma só: “Terrível em sua bestialidade, mitológica em sua composição de monstro, a besta nunca enganou ninguém. Sempre berrou o que iria fazer para todos ouvirem. E fez.”

 

Rochester Oliveira Araújo é mestre em Direito Constitucional e defensor público do Estado do Espírito Santo.

 


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