Bolsonaro não é um super vilão de cinema
Terça-feira, 25 de setembro de 2018

Bolsonaro não é um super vilão de cinema

Os discursos de políticos como o do presidenciável Jair Bolsonaro carregam em si a banalidade do mal, e discurso tem poder. É necessário que se enxergue que o autoritarismo e a maioria das discriminações (racismo, homofobia e assim por diante) hoje em dia são muito mais estruturais do que explícitas.

A banalidade do mal é um conceito criado por Hannah Arendt[1], filosofa judia que fugiu da Alemanha nazista durante a segunda guerra mundial, e tempos depois atuou como jornalista acompanhando o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais nazistas responsáveis pela organização do Holocausto.

Durante o julgamento, observando Eichmann, ela percebe que ele era um homem normal, um pai de família como qualquer outro que ia à Igreja aos domingos, cuidava de casa e convivia bem com os seus vizinhos. Era um homem absolutamente normal sem qualquer traço de maldade explícito, porém, incapaz de pensar e de se colocar no lugar de outra pessoa.

Não se é visível nele um mal diabólico, daqueles personagens de literatura ou de filmes que são maus por natureza, mas, sim, uma completa incapacidade de pensar por si mesmo. Repetia os clichês e frases prontas da época, dizia que seu idioma era o “oficialês”, algo como hoje se vê por aí como “contra tudo que está aí”, mas sem que se saiba muito bem o que é que está aí e o que isso representa. Eichmann durante o julgamento lembrou diversas vezes que nunca maltratou ou matou pessoalmente um judeu, mas apenas “ajudou” no planejamento. Há um mal que é difuso e sem responsável, despersonalizado.

O que Hannah Arendt, muito mal compreendida, quer dizer não é que ele não deve ser punido pelo que fez ou que é um coitado, mas sim que o mal é banal, comum, que não conseguimos enxerga-lo facilmente na nossa rotina quando aquilo se torna o natural. Nunca é um mal radical, diabólico, é rotineiro, administrativo. A maldade não é uma condição necessária para fazer o mal.

Um exemplo disso é o uso da palavra “evacuação” no lugar de “extermínio” durante o nazismo, para não aparentar algo tão ruim, como eram muitas outras coisas. O que deveria movê-los era a consciência de estarem envolvidos em “algo grandioso”, como hoje se tem a ideia de lutar “contra o que está aí” sem consciência do que é que está aí ou quais as consequências disso.

Toda essa construção filosófica feita para análise de um oficial nazista nos serve de base para observarmos o nosso contexto político atual.

O maior risco de discursos políticos como o de Bolsonaro está principalmente no que não é enxergado com facilidade, no que é implícito. É como uma fonte de água, antes dela brotar e ser visível aos olhos humanos, há um processo lá por baixo que não é perceptível. O risco está justamente no mal que é banal.

Na conjuntura social que temos hoje o autoritarismo e as discriminações raramente são explícitas. Bolsonaro que, outrora já disse que fecharia o Congresso e apoiou a ditadura, hoje se diz defensor de um regime democrático tentando se ater a uma condição de elegibilidade mínima. Diz ter sogro negro, fotos com homossexuais ou que não impediria um negro de entrar em um elevador.

O ponto é a consequência dos discursos que faz, a título de exemplo quando diz que as minorias têm que se curvar às maiorias, que o Brasil é um país cristão (e as outras religiões?), ou que homossexual não pode doar sangue por representar um grupo de risco, ou que não pode interferir na iniciativa privada se pagar menos para mulher, ou quando diz que vai fuzilar os adversários políticos do Acre (petralhada).

Não se percebe, mas um discurso político desse tipo reflete na sociedade que tende a segui-lo como normal sem ter capacidade de perceber as consequências, é a banalidade do mal que a Hannah Arendt fala. Um líder político tem capacidade de mover a pauta e a conduta da sociedade. É aqui que está a principal questão: a discriminação e o autoritarismo gerados por esse discurso são estruturais (ou institucionais).

Há alguns anos um Grupo de Trabalho da ONU sobre Afrodescendentes visitou o Brasil e produziu um relatório demonstrando que o Brasil ainda sofre com um racismo estrutural, ou seja, diferenças raciais são culturalmente aceitas, o que faz mais difícil o seu combate. Isso acontece com todas as minorias.

Bolsonaro e nenhum de seus seguidores provavelmente irá proibir um homossexual ou negro de entrar no mesmo elevador em que estejam, não é essa a questão. O problema está quando Bolsonaro diz que “o afrodescendente mais leve do quilombo pesava 7 arrobas” ou que vai dar carta branca para a Polícia Militar matar.

Isso porque a maioria dos mortos pela polícia no Brasil são negros, sem que tenham um processo justo em que possam comprovar eventual inocência ou receber uma pena justa. Um discurso desse representa a perpetuação da condição dos negros como marginais e sem acesso a qualquer ascensão social que possa os tirar do mundo do crime, não é o que ele prega diretamente, mas é seu reflexo. Será que a maior parte da população carcerária é negra por que negro é naturalmente bandido ou por que há uma relação de causalidade no crime? O risco do discurso está muito além do que ele explicitamente diz.

Quando Bolsonaro diz, por exemplo, que vem para tirar “tudo o que está aí”, como salvador da pátria que irá acabar com a corrupção ou fazer do mundo um lugar melhor, mas na linha da banalidade do mal só demonstra um autoritarismo que ninguém quer para o país (os reflexos do discurso do Bolsonaro podem ser vistos na Venezuela, país que ele e os seus seguidores adoram usar como exemplo para criticar a esquerda). Sabe o que é tudo o que está aí? Partidos e políticos de direita, esquerda, centro que discordam de Bolsonaro total ou parcialmente. Se ele vem para acabar com tudo o que está aí, o que isso quer dizer? Parece que uma aniquilação da democracia e das diversidades.

Pode não aparentar, assim como para Eichmann ele apenas estava em “algo grandioso” e não em uma das maiores tragédias da humanidade, mas esse discurso é autoritário e tem por consequência a destruição de liberdades, sonho de qualquer autoritário, pois, assim, também se destrói a consciência coletiva e a capacidade de diferenciar o certo e o errado.

Não devemos apoiar candidatos com esses discursos. Devemos, sim, lutar sempre pela preservação da dignidade humana e democracia acima de tudo, pois, se tirar das pessoas a sua consciência, as suas liberdades, se fizer acreditar que a única coisa que pode conseguir é uma ascensão social na carreira (neoliberalismo), abre-se caminho para regimes autoritários que fazem barbaridades.

Cuidemo-nos com a banalidade, ela está mais próxima do que imaginamos.

 

Roberto Montanari Custódio é graduando em Direito e Membro do Conselho da Associação Brasileira para o Desenvolvimento e Defesa da Democracia.

 


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[1] ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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