Um dia qualquer naquele Brasil de 2025
Quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Um dia qualquer naquele Brasil de 2025

Edição Gabriel Prado

O despertador apitou às cinco horas da manhã. Joaquim se levantou, ensonado. Havia chegado em casa do trabalho no dia anterior às dez e meia da noite, indo dormir por volta da uma da manhã. Naquele pequeno imóvel de um quarto, na periferia de uma das maiores cidades do Brasil, não havia mesa posta para o café. Joaquim vivia sozinho.

A esposa falecera alguns anos antes, e o único filho do casal, de dezoito anos, estava há quase dois cumprindo uma pena de oito anos por tráfico de drogas. “Preciso visitá-lo qualquer dia desses”, pensou Joaquim,que há seis meses não via o filho. Mas também, como se exigir que um cidadão de bem como ele tivesse suas cavidades corporais inspecionadas a cada visita àquele moleque sem juízo? “Também, ele que aprenda” resmungou um resignado Joaquim, que entendia que a prisão iria fazer bem para seu filho.

São cinco e meia e ele já pegou o primeiro dos três ônibus para a empresa em que trabalha, uma grande fábrica de eletrodomésticos. Ele e a esposa haviam aberto uma pequena prestadora de serviços para fornecer mão-de-obra para a linha de montagem daquela grande fábrica, que somente contratava os serviços de pessoas jurídicas. Era o jeito de se ter um emprego, e com a morte da esposa, ele era o único prestador de serviço de sua pequena “empresa.”

O contrato não previa carga horária, mas apenas o valor pago a cada prestador de serviços por uma determinada meta, e eles acabavam trabalhando mais de doze horas diárias, sem tempo para o almoço. Joaquim não gostava daquilo e gostaria de reivindicar seus direitos. “Preciso ir atrás de outro advogado. Aquele doutorzinho disse que eu não tinha muita chance porque sou pessoa jurídica. Ele não sabe de nada”.

A televisão no ônibus transmitia o jornal matinal, com o closedcaption ativado para que todos pudessem acompanhar a programação. Passava uma reportagem sobre a escalada da violência nas grandes cidades: roubos e homicídios haviam disparado, apesar dos esforços empreendidos pelo Governo Provisório que assumira o poder após a revolução de 2019. Joaquim nunca entendera bem do assunto, mas anos antes fora às ruas protestar pedindo ajuda aos militares para se livrar da corrupção. Lembrava que seu então patrão dizia que era necessário, que era coisa boa. “Deve ser, o doutor é estudado”, pensava Joaquim.  

O que ele lembra é que após a eleição em 2018, o presidente eleito, um cara bravo, que só falava verdades, sem choradeira esquerdista, disse que os militares assumiriam o Poder junto com ele, e que o seu primeiro ato era a suspensão da Constituição e o fechamento provisório do Congresso. Houve a promessa de uma tal de “constituinte” em dois anos, para corrigir as coisas. Como foram muitos os problemas, e a situação não era tão simples assim, ela ainda não tinha acontecido em 2025. Mas a mídia repercutia a promessa do Governo Provisório de que a constituinte ocorreria até 2027. Até lá, o Brasil era regido por atos de uma tal “junta” com quatro generais e o presidente eleito.

Joaquim também não entendia direito como funcionava aquele governo. Um dia ouviu de um gerente da fábrica que ele tinha vindo pra colocar ordem na casa. Revogaram a tal da Constituição, que pelo que diziam era uma “lei pra proteger bandidos” e melhoraram muitas coisas. Alguns partidos comunistas e ligados a outros terroristas tiveram seus registros cassados, e com apoio de 85% da população, diziam as pesquisas. E como ainda havia respeito à vontade do povo, as eleições continuavam a existir, mas os candidatos a qualquer cargo eletivo precisavam ter seus nomes previamente aprovados pelo Governo Provisório, que tinha um Ministério só para essa análise. “É bom que seja assim. Eles protegem o povo”, pensava Joaquim, que um dia viu na televisão que 70% das candidaturas eram barradas pelo Governo, o que era retratado como uma coisa boa, já que não se sabia das intenções desse pessoal todo.

Outra reportagem aparecia no monitor: dois traficantes haviam sido presos no centro da cidade com muita droga e armas, um tendo quinze e o outro treze anos. Uma senhora idosa muito distinta que estava sentada ao lado dele passou a reclamar: “Tá vendo? Só um vai ser preso. O outro vai escapar impune. E por pouco…” Joaquim ouviu e concordou.

Quando ele era mais jovem, só podia ser preso quem tivesse pelo menos dezoito anos, até que um pessoal do bem, inclusive o Presidente – em quem Joaquim votava até de olhos fechados – resolveu acabar com aquela palhaçada. Lutaram muito, tiveram que enfrentar uns defensores de bandidos que diziam que eles tinham que ser protegidos e não presos, mas ainda assim venceram. Depois de derrubada a constituição, a lei dos bandidos, baixaram pra dezesseis anos a idade para ser preso. Felizmente, alguns anos após a revolução de 2019, e sem lei pra proteger bandidos, o Governo Provisório baixou novamente a idade penal, dessa vez para quatorze anos.

Mas a situação ainda parecia difícil. Havia muitas notícias de bandidos com idades entre dez e doze anos aterrorizando os centros urbanos, certamente porque sabiam que não iriam ser presos. Mas ao mesmo tempo, a nova lei parecia funcionar: todos os dias prendiam-se muitos bandidinhos, e Joaquim ouviu que a população prisional do Brasil já atingira a marca de dois milhões e quinhentos mil encarcerados. Ou seja: não tinha vida fácil pra bandidagem.

Então por que ainda assim mais e mais crimes aconteciam? Ninguém no ônibus parecia saber responder a pergunta, mas o Governo Provisório já sinalizava que emergencialmente reduziria mais uma vez a idade penal, dessa vez para doze anos. No momento em que isso foi anunciado na televisão, o ônibus vibrou: era a guerra contra o crime, e a vitória dos bons era certa.

A programação passou para o noticiário político. O presidente fizera um pronunciamento no dia anterior, prometendo continuar o combate severo à heterofobia. “Adoro esse cara”, comentou um animado Joaquim com a senhora ao seu lado, que apenas concordou com a cabeça. O presidente era uma figura muito conhecida, e havia sido eleito em 2018, presidindo depois a junta do Governo Provisório, após ter sido um dos apoiadores da revolução de 2019.


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Joaquim o achava muito esperto, especialmente pela forma como ele humilhava os comunistas, gays e pessoal dos direitos humanos em geral, além de saber como colocar as mulheres em seu devido lugar. Não tinha como argumentar com ele, ele era bom demais. Se alguém viesse com intenção de aprofundar um assunto besta ele já soltava uma de suas frases míticas e matava a discussão. Filho gay? É falta de porrada. Direitos para presos? Preso tem mais é que se ferrar. Direitos humanos? Segundo o Presidente, só merecem proteção pessoas que são realmente seres humanos, e não vagabundos. Era o herói do Joaquim e de boa parte da população, que se identificava com a cultura do Presidente.

E o Presidente vinha ajudando muito o Brasil: desde que assumira, alterara aquele negócio do aborto, que agora era proibido em qualquer hipótese, e punido com cadeia brava. A população carcerária feminina cresceu muito após isso, provando a eficácia da lei nova. “Deus quer assim”, pensava Joaquim. Além disso, o presidente tinha acabado com aquela palhaçada de gay adotar criança. Joaquim lembrava que pouco antes da revolução uma turma de deputados tinha tentado aprovar uma lei neste sentido, mas acabaram perdendo lá no tal do STF. Felizmente, alguns ministros foram trocados com a revolução e mais tarde o Presidente conseguiria aprovar a lei.

Também tinham proibido o casamento gay, sendo que quem se declarasse homossexual precisava se cadastrar no Ministério da Saúde para receber cartilhas educativas que alertavam para o aspecto pecaminoso e insalubre daquela prática, esclarecendo inclusive sobre as possibilidades de cura.

Mas não parou por aí. O Governo também conseguiu desmantelar movimentos criminosos que pleiteavam reforma agrária ou moradia. Desde a revolução, a maior parte dos líderes acabou presa ou desaparecida, além dos que morriam em violentos confrontos com o exército, que com blindados enfrentava paus, facões, foices e algumas armas de fogo rudimentares. Sem lideranças, e com medo dos militares, os movimentos acabaram perdendo força. “Esquerdistas vagabundos”, pensava Joaquim, que pagava de forma suada o aluguel de seu casebre, trabalhando de sol a sol para aquela gente que tanto o ajudava e que só queria o bem do país.

E a corrupção, o maior mal desse país? Nunca mais. Desde a posse do Governo Provisório não se viu mais na televisão ou em jornais notícias sobre corrupção. Claro, no início foi dada ampla cobertura ao caso dos corruptos do regime anterior, exemplarmente punidos em processos rápidos, sem aquelas enrolações que existiam antes e só ajudavam gente ruim. Mas depois disso, feita a limpeza, nunca mais se ouviu falar em corrupção. Sequer uma notícia.

A revolução colocara o Brasil nos eixos, de tal modo que nem protestar era necessário. Quem tentava sair às ruas era rapidamente dispersado pelo exército e pela polícia pela confusão causada, até porque não havia mais motivo para manifestações: o povo tinha conseguido o que queria, e a revolução salvara o Brasil. Por isso Joaquim se orgulhava de ter saído às ruas dez anos antes…

Infelizmente sempre havia críticos, principalmente no exterior. Comunistas da ONU, da Alemanha ou do Vaticano, por exemplo. A reportagem seguinte mostrava que o Presidente respondera a líderes europeus que tinham ofendido o Brasil. Eles haviam dito que aqui não eram respeitados direitos básicos da população e que minorias eram perseguidas, o que inclusive sujeitaria o país a punições internacionais. O Presidente simplesmente disse: “Aqui pessoas de bem são respeitadas. O resto é o resto. E quanto às minorias, que se conformem. A maioria é que governa”. Animados, os passageiros aprovavam o seu líder.

A viagem até o trabalho parecia transcorrer normalmente, com as ruas patrulhadas pelos militares. Joaquim gostava dos tanques de guerra, porque davam a certeza de segurança. “Quem iria tentar fazer alguma coisa errada com todos aqueles soldados nas ruas?”, pensou ele já em seu terceiro e último ônibus.

Próximo ao cruzamento com uma grande avenida o ônibus precisou parar, a despeito do semáforo estar no verde. Joaquim esticou o pescoço e avistou um grande aglomerado de pessoas caminhando pela avenida. Carregavam cartazes, mas ele não conseguia lê-los, dada a distância. O trânsito parou definitivamente.

Joaquim ficou intrigado, pois há muito tempo que não se tinha notícia de uma grande manifestação como aquela fechando a avenida, ainda mais tão cedo, pouco antes das oito horas da manhã. E o que aquele povo queria? Após vinte minutos parado, Joaquim desistiu de esperar e desceu da condução para atravessar a pé o protesto, já que faltavam apenas dez quarteirões até o seu trabalho.

Misturou-se aos manifestantes, que eram muitos, talvez milhares. Com dificuldade, ia tentando atravessar as oito faixas da avenida enquanto lia os cartazes e ouvia as palavras de ordem. As pessoas pediam “democracia”, e cobravam a realização da tal “constituinte”. Outros pediam a libertação de parentes e amigos presos ao mesmo tempo em que cantavam o hino nacional.

Joaquim ainda tentava atravessar a multidão quando reconheceu um antigo amigo, que estivera ao seu lado nos protestos de dez anos antes. Àquela época, lutaram contra a corrupção, implorando ajuda aos militares para que fosse salva a democracia, e algum tempo depois tiveram seus desejos atendidos. Então qual era o motivo daquela nova luta? Joaquim não teve tempo para perguntar.

Fortes explosões foram ouvidas e uma densa fumaça envolveu manifestantes e um confuso Joaquim. Seus olhos ardiam, e ele não enxergava nada.  Gritos eram ouvidos em meio a novas explosões e estampidos de armas de fogo. Em desespero, as pessoas se empurravam sem saber para que lado fugir. Algumas caíam e eram pisoteadas. Novos disparos e explosões. Joaquim tentava ir naquilo que imaginava ser a direção para sair do meio da avenida. Mas ele tropeçou, e no solo não teve como evitar que um cavalo da tropa de choque o pisoteasse. A última coisa que viu foram cascos e ferraduras.

Passados alguns dias, o filho receberia com certa indiferença a notícia de sua morte. “Nunca mais me visitou mesmo”, pensaria o garoto, com longos anos de pena em regime integral fechado para cumprir. O lugar de Joaquim na fábrica seria tomado por outro prestador de serviços e a vida continuaria para o restante dos brasileiros, felizes com o país que haviam conquistado.

Bruno Bortolucci Baghim é Defensor Público do Estado em São Paulo.

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