As correntes e o mito
Quinta-feira, 4 de outubro de 2018

As correntes e o mito

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

O mito confirma a necessidade do machista assediar mulheres, do racista ofender determinadas etnias, do homofóbico atacar o diferente

O mito (mithós) nos estudos da cosmogonia tem como objetivo fornecer elementos para a arkhé filosófica, explicar a origem do universo, de tudo e de todos sem a necessidade de serem explicados, apenas aceitos e reverenciados, sem uma análise científica ou crítica. O mito consegue penetrar em todas as instâncias que sua voz consegue reverberar. O mito pode se violento, agressivo, tolo, vaidoso, mentiroso,  incompreensível, de linguagem chula, mas a única coisa que importa é que ele é o mito. A ele cabe somente o arquétipo de salvador, messias, titã ou deus, deus das muitas obras, dos doze trabalhos, do apostolado, das muitas guerras, do senhor dos povos. O mito confirma a necessidade, a ideia pré-concebida, explica de forma pragmática, mesmo quando não conhece o assunto de sua tese.

O mito confirma a necessidade do machista assediar mulheres, do racista ofender determinadas etnias, do homofóbico atacar o diferente. O que resta aos que não acreditam no mito é serem banidos do Olimpo. Aos homoafetivos resta as sombras e a noite, às mulheres a submissão e a casa, o castelo que se funde com prisão, aos negros a senzala ou a concordância induzida em um sorriso amarelado.

Todavia o mito também possui pés de barro, e tem que confrontar forças que surgiram de onde menos se esperava – sua fragilidade se mostra quando a virtualidade se torna real – onde as telas não podem proteger os pensamentos, frases e insultos racistas, machistas, homofóbicos e xenofóbicos. No dia 29 de Janeiro de 2018, isso ficou claro na passeata ele não! No centro do Rio de Janeiro, o número de mulheres contra o mito superou numericamente em muito aquelas que tentavam subir ao Olimpo do capitão na passeata ele sim, em Copacabana, um bairro abastado da mesma cidade, mas condizente com os seguidores do mito.

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A dicotomia ficou tangente entre as que se sujeitavam à submissão e aquelas que rompiam a ultima corrente. Uma coisa ficou clara, no meu lugar de escuta, observação e espanto, no sentido socrático da palavra espanto,  como homem hétero, cisgênero, sem lugar de fala, nesse momento apenas na análise investigativa do fato social: essas eleições serão definidas pelas mulheres! Única e exclusivamente pelas mulheres.

Uma reflexão simples, mas não simplória, pois representa uma etapa disruptiva entre aquelas que querem uma nova narrativa e aquelas que se prendem a uma cosmogonia falida, mas que agoniza querendo renascer. Não seria somente um retorno de quatro décadas em direitos reais, mas um avanço assustador da capacidade de imputar um ideologia de submissão e culpa a determinados grupos. Isso fincaria um retrocesso a conquistas femininas e de minorias em geral, pois em determinado momento, tocar em temas como racismo, feminicídio, liberdades individuais, passaria pelo crivo do agrado do mito ou de seus titãs previamente alocados em posições privilegiadas.

A família tradicional serve para manutenção de um sistema de controle social bem ao gosto de oligarcas do olimpo. Ela funciona como um reflexo de nosso medos, pois se a “mulher” não estiver nesse organismo no papel central de submissão, novos paradigmas surgirão e a quebra com o “antigo” não será vantajosa para quem se beneficia do antigo paradigma. A submissão guia mercados, negócios, vidas e produz vantagem para uma economia direcionada para mitos de pés de barro. Mas tal subida ao Olimpo da intolerância não será tão fácil pelo menos no que depender das guerreiras do Ele não.

 

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Edição Caroline Oliveira

Jucemir de Oliveira Vidal é pós-graduado em Recursos Humanos pela Universidade Candido Mendes, graduado em Administração pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e em Sociologia pela Universidade do Norte do Paraná.

 


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