É apenas um voo
Quinta-feira, 4 de outubro de 2018

É apenas um voo

“Judiciário, Generais e Globo tentam impor, mesmo que ao custo de dilacerar a própria democracia liberal burguesa, um projeto em que os mais pobres paguem um conta cada vez maior para que os mais ricos continuem a aprofundar o terrível abismo social”

Entre São Paulo e Brasília se leva 1h20min de voo. De lá de cima se vê a transição da mata atlântica para ao cerrado, bem ali perto da divisa entre Minas e São Paulo. São rios que olhando daqui, paulistanamente falando, descem lá do Planalto Central meio que escorregando, sinuosamente por entre pequenas montanhas e vales. O que era para ser apenas uma rápida viagem entre um ponto e outro, se transformou em medo e bloqueio. Quando estava para entrar no ônibus que levaria à aeronave, travei.

O medo é algo que se constrói paulatinamente e as travessias que essa sensação percorre até levar a uma situação como essa, são os mais diversos e insondáveis possíveis. Falarei apenas do viés político. Estamos a poucos dias das eleições e as redes sociais estão inundadas de mentiras, pesquisas, memes, análises e expectativas que levam muitas vezes a mais ansiedade num círculo vicioso. Esses grandes processos coletivos, como é o caso das eleições, afetam individualmente e nos sobrecarregam. Alguns perdem o sono, outros perdem amizades e, alguns, como no meu caso, perdem voo. 

O próprio formato dessas eleições, com redução do tempo de campanha, da propaganda eleitoral gratuita e da propaganda nas ruas, transferiu a angústia e a ansiedade para um já sobrecarregado espaço de interação social que é o celular. 

Acrescente ao processo coletivo que é uma eleição, o componente do ódio, da negação do outro, do preconceito de classe, da estigmatização, criminalização e o sufocamento da esperança em crescente espiral desde o processo de golpe ocorrido em 2016. A prisão (injusta) de um líder popular e carismático, a tentativa do seu banimento, inclusive impedindo de exercer a sua liberdade de expressão e o direito a voto são componentes importantes do atual quadro.

 

+[ASSINANDO O +MAIS JUSTIFICANDO VOCÊ TEM ACESSO À PANDORA E APOIA O JORNALISMO CRÍTICO E PROGRESSISTA]+

 

Mas, antes mesmo de 2016 já se via pelas ruas do país sinais de que alguma coisa não ia bem. Justiçamentos de pobres em bairros nobres, perseguição a quem denunciava a tortura e tentativa de assassinato de um adolescente por grupos e hordas de justiceiros em pleno aterro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro. Operações judiciais policialescas que desrespeitavam direitos, destruíam reputações e prezavam pelo espetáculo mórbido da execração pública, a exemplo de verdugos da idade média ou meganhas da ditadura militar. E programas policiais que invadem em horário nobre a casa das pessoas e disseminam medo e justificam execuções públicas de pobres, jovens e negros. 

Quando trabalhei na Câmara dos Deputados, justamente nesses grandes processos políticos como o impeachment é que aumentavam e muito as ligações de pessoas com claros sinais de distúrbios e com a saúde mental alterada. Muitas vezes, queriam apenas falar, intervir de alguma forma naquele processo, dar dicas, participar. Catatônicos, ficamos horas perante a TV acompanhando aquilo, assim como passamos horas esperando a soltura de Lula em mais uma ação ilegal do Poder Judiciário que se recusou a cumprir alvará de soltura. 

São características do aprofundamento da racionalidade neoliberal que avilta princípios, valores e tornam a democracia mero brinquedo. Judiciário, Generais e Globo tentam impor, mesmo que ao custo de dilacerar a própria democracia liberal burguesa, um projeto em que os mais pobres paguem um conta cada vez maior para que os mais ricos continuem a aprofundar o terrível abismo social, nódoa ainda não cicatrizada da escravidão. Paradoxalmente, a democracia, ainda que tão ultrajada, é um dos poucos espaços em que o eleitor ainda pode assumir o comando. Um dos poucos campos de imprevisibilidade do golpe em marcha no Brasil.

Daí a imposição do medo. O medo do PT, o medo do “comunismo”, o medo do vermelho, da história real de um povo, o medo do pobre e o medo do amor em todas as suas possibilidades. Medo que se potencializa como ódio e intolerância. Aí é que mora o perigo de projetos de poder que são vazios por dentro, mas que se impõem pela violência. Felizmente, essa proposta não tem eco na maior parte da sociedade brasileira e haverá de ser derrotada no segundo turno. Mas, mesmo que isso aconteça, ainda ficará como espectro nos rondando. Por isso, a eleição é apenas uma etapa. A vitória de Haddad ou de outro candidato sobre o terror, implicará na exigência da construção de uma ampla frente para desarmar paulatinamente essas armadilhas fascistas.

 

Leia mais:
Pesquisa mostra como pensam os eleitores de Bolsonaro
17 vezes em que Bolsonaro foi Bolsonaro
O comunismo voltou e não nos avisaram!

 

Quando não consegui embarcar no ônibus que levaria à aeronave, fiquei alguns minutos em paralisia e me sentindo meio que ridículo e perdido. Fui consolado por um funcionário da TAM. Indeciso, e sem saber para onde ir, reconheço um amigo que há anos não encontrava. Era o pai de uma grande amiga. Justo ele que, no início da minha Faculdade de Direito, acordava todo o dia às 5hs da manhã para percorrer comigo e sua filha, 100 km de carro da nossa cidade até a sala de aula. Fez isso durante semanas até que encontrássemos um lugar para morar. 

No caminho desse trajeto que por sinal levava o mesmo tempo do voo que acabava de perder, lá pelos anos de 1997, falávamos muito sobre política. Eu, um pirralho de 17 anos sem saber o que a vida me traria pela frente e ele um homem maduro, vereador com vocação para o que a política tem de mais nobre e bancário de profissão, assim como meu próprio pai.

Esse reencontro me acalmou, meio que me abraçou e reviver aqueles momentos, trouxe de volta um sentido que acabara de perder. Vinte anos depois, numa cadeira de aeroporto, continuamos a falar de política e do Brasil. Até agora, pensando bem, não sei se o que me levou à perda do voo foi o medo de embarcar ou a surpresa e a alegria do reencontro. Talvez nisso esteja um dos antídotos para a angústia do tempo presente. A conversa, o acolhimento e o abraço, mas sobretudo o desejo e a esperança de um país melhor e mais justo para todos e todas.

 

Patrick Mariano escritor, advogado popular e mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília. 

 


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Quinta-feira, 4 de outubro de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend