O Fenômeno “Bolsonaro” no País dos Brucutus
Quinta-feira, 4 de outubro de 2018

O Fenômeno “Bolsonaro” no País dos Brucutus

Arte: Caroline Oliveira

O exemplo mais contemporâneo de Brucutu é Jair Bolsonaro

É nítido que o candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro consegue simpatizar dois grandes grupos sociais.

O primeiro, e acredito que minoritário, é aquele composto por pessoas que em verdade simpatizam com os ideais propostos pelo candidato. Esses, por sua vez, são divididos também em dois universos: o daqueles que, por alienação política, acreditam que as frases de efeito destiladas pelo Presidenciável possuem o condão de provocar mudanças estruturais na sociedade brasileira; e aqueles que, deliberadamente, pactuam com os discursos odientos destilados por Bolsonaro e com suas atitudes.

Quanto aos primeiros, não podemos julgá-los. O processo construtivo hegemônico da educação emancipadora é injusto e não permite que todas as pessoas enxerguem o mundo empaticamente. Já aos segundos, cabe à militância política desconstruir os valores reverberados, através de diálogo, inclusão e respeito.

O segundo grande grupo social que vota em Bolsonaro não enxerga, necessariamente, propostas factíveis de mudança na figura do político. São pessoas que, a pretexto de reafirmar sua antipatia ao Partido dos Trabalhadores, reforçam que preferem qualquer um menos o candidato de Lula no poder.

O grande problema desse grupo é que os seus componentes ignoram que voto é um ato político, capaz de provocar mudanças estruturais e sociais de natureza generalizada. São pessoas que se limitam à polarização Haddad vs. Bolsonaro, e ignoram a conjuntura eleitoral composta por 11 candidatos ao Palácio da Alvorada.

Dessas pessoas, podemos apenas exigir coerência política e existencial. Clamar que não votem em quem profere discurso de ódio, fascista, machista e LGBT+fóbico; e que o disfarça, posteriormente, de mera “brincadeira” ou de “vitimismo”.

 

+[ASSINANDO O +MAIS JUSTIFICANDO VOCÊ TEM ACESSO À PANDORA E APOIA O JORNALISMO CRÍTICO E PROGRESSISTA]+

 

Mas, dito isso, como podemos desconstruir essas pessoas do primeiro grupo e que leitura conjuntural e política podemos fazer sobre as eleições de 2018?

Bem, para lidar com esse fenômeno do Bolsonaro precisamos falar da palavra “maldita” e “tabu” que o candidato tenta, diuturnamente, expurgar do dicionário: Gênero.

E por que o gênero importa para a conversa?

Justamente pelo poder estrutural que ele exerce na sociedade. E antes de tudo, para que possamos compreender essas diversas faces do gênero, cumpre introduzir o personagem da nossa conversa: os Brucutus.

Brucutu é um personagem dos quadrinhos dos anos 1930, ilustrado pelo desenhista Vincent Hamlin, corporificando-se entre o homem das selvas e um animal irracional. É um ser pré-histórico, que porta sempre um martelo de pedra e tem como hobbie combater dinossauros da região. É um sujeito bruto e sem modos nas atitudes ou nas ideias.

Liricamente, Debora Diniz os define como: “ele usava pijama branco de linho, alpargatas nos pés, sentava na cadeira de balanço do copiar, ordenava que os meninos do engenho lhe arrancassem os cabelos brancos, enquanto gritava “Ô Mulher” e fincava os olhos na mulata que lhe faria uma visita naquela noite”.

Brucutu é, portanto, um sujeito macho, que se reafirma como tal em suas atitudes e modos. É a corporificação máxima das ideias do patriarcado sobre os corpos. É aquilo que tentamos diuturnamente romper: os padrões heteronormativos dominantes, excludentes e opressores.

Assim, cumpre afirmar que os Brucutus não são corpos específicos e não se reverberam em sujeitos com nome, sobrenome ou forma. Brucutu é um construto social, extraído a partir da estrutura sexista e excludente formada ao longo dos séculos, com a máxima reafirmação da superioridade do macho sobre a fêmea e todas as consequências provenientes de tal perspectiva.

Dessa forma, o Brucutu não é necessariamente o macho nessa ideia de corpos sexados ao nascer. Mas sim o resultado da formação proveniente da influência da estrutura social sobre os corpos e sobre como estes interagem com o ambiente que os rodeiam.

Por isso existem gradações de Brucutus. Desde aqueles que se manifestam na esteira do patriarcado e sem disfarces, até aqueles que se escondem por detrás do mantra da pseudo-civilização proveniente das desconstruções sociais libertadoras.

 

Leia mais:
Nem patriota, nem honesto, nem cristão: desmitificando Jair Bolsonaro
O Messias Bolsonaro

 

Isso significa dizer que o Brucutu pode estar em qualquer lugar e corporificado em qualquer pessoa. Dessa forma, pode ser o pai que agride a mãe (na concepção extrema), ou aquele que proíbe a filha fêmea de usar roupas curtas, mas influencia o filho macho a ter uma vida sexualmente ativa precocemente. E por poder estar em qualquer ser, o Brucutu pode corporificar-se em autoridades, em Padres, em Médicos, Juízes, Promotores, ou até, no Presidente da República.

E o exemplo mais contemporâneo de Brucutu é Jair Bolsonaro. Um Brucutu que não esconde sua face e que simpatiza diversas gradações de semelhantes. É um exemplar que flerta com o fascismo, com o autoritarismo e com o preconceito generalizado. É um Brucutu que tenta reafirmar a sua cultura e proteger a sua espécie.

Ele representa todos os valores que tentamos expurgar da sociedade brasileira, mas que, infelizmente, por uma falha nossa (esquerda), ganha força e se reafirma no mundo moderno.

E pelos fatores descritos no começo desta carta, cada vez mais Bolsonaro consegue simpatizar com as gradações mais “leves” de Brucutus, os quais justificam suas concepções pessoais em um voto simbólico “contra o PT”.

E o fenômeno Bolsonaro nos mostra muito sobre o Brasil. A polarização que passamos no momento, aliás, talvez seja o fenômeno político mais curioso que vivemos desde a redemocratização, onde dois candidatos opostos empatam no nível de rejeição e, mesmo assim, seguem ao segundo turno.

Mas se os Brucutus estão em todo lugar, como desconstruí-los?

Primeiramente necessitamos de coerência e de coragem da esquerda que precisa refletir e se reformular dentro de seus ideais. Afinal, infelizmente a desconstrução do personagem não se dará pela simples reafirmação de suas frases asquerosas.

Isso, porque, por incoerência lógica, o patamar civilizatório atual não me permite dizer a um carvoeiro do Tocantins que Bolsonaro é machista porque diz que “mulher tem que ganhar menos porque engravida”, porquanto a criação desse cidadão foi na concepção de que à mulher cabe cuidar do lar e dos filhos.

Da mesma forma, não posso afirmar a um seringueiro no Acre ou a um sertanejo do Nordeste que Bolsonaro é homofóbico porque afirma que se ver “dois gays na rua, ele bate”, porquanto esses cidadãos foram criados em uma concepção heteronormativa de que o “natural” é apenas a relação macho-fêmea; e que qualquer coisa que fuja dessa concepção é antinômico.

Com as mulheres atingidas pelo Brucutu patriarcal a mesma lógica se aplica: não posso dizer que Bolsonaro é racista quando afirma que “seus filhos jamais se relacionariam com negras, porque tiveram uma boa educação”, porquanto essas pessoas foram criadas em um mundo desigual, onde a negra é a diarista, a passadeira ou a serviçal.

A (des)construção deve ser paulatina e realizada a partir da alocação de diversos recursos humanos, de ideias e de projetos políticos. À esquerda cabe deixar de atuar no campo da mera evidenciação dos fatos e passar a atuar no campo propositivo ativo, a partir da educação emancipadora, a qual é a única que tem o condão de realizar a verdadeira libertação humana dos Brucutus.

Mas se a nossa voz é urgente, ante a iminência da eleição de um Brucutu para a Presidência da República, o que podemos ainda fazer a poucos dias das eleições?

A essa pergunta infelizmente não existe resposta coerente formada. Combater os ideais de Bolsonaro deve ser um dever diário e paulatino, a partir de eixos ativos propositivos que fomentem mudanças a partir do diálogo.

Esse movimento iniciou-se pelas mulheres. São elas que guiarão o nosso futuro imediato. O #EleNão nos mostra que as mulheres decidirão essa eleição.

 

Leia mais:
Pesquisa mostra como pensam os eleitores de Bolsonaro
17 vezes em que Bolsonaro foi Bolsonaro
Porque voto em Bolsonaro

 

João Victor Barbosa Ferreira é estudante do último ano do Curso de Direito na Universidade de Brasília, pesquisador em Projetos de Iniciação Científica, coordenados pelo CNPq, e em projetos autônomos, sobretudo na subárea do Direito Constitucional, focado em Direitos Humanos, na tangente de diálogo com a Ciência Política.

 


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Quinta-feira, 4 de outubro de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

reda[email protected]