A necessidade do PT em superar as diversas faces do antipetismo
Sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A necessidade do PT em superar as diversas faces do antipetismo

O Partido dos Trabalhadores, gigante como é, ainda exerce incontroversa força na política nacional. Este fato pode ser percebido nas últimas pesquisas, sobretudo na pesquisa de intenção de voto para Presidente da República realizada pelo Ibope no dia 03 de outubro de 2018[1]. Fernando Haddad cresceu de forma exponencial, chegando a 23% das intenções de voto no primeiro turno da eleição e 43% no segundo turno, o que indica a possibilidade do candidato se tornar o próximo Presidente da República. Todavia, essa realidade mascara alguns motivos aos quais o partido deve ficar atento.

Uma grande questão diz respeito ao fato de existir, ou não, um sentimento antipetista pairando na política nacional. Em sendo a resposta positiva, deve-se questionar se o referido sentimento é sintoma de um problema maior para o regime democrático brasileiro e para o estado de direito.

Inicialmente, é necessário investigar as realidades por trás do falado sentimento antipetista. O ponto de partida da investigação, portanto, levará em consideração a referida pesquisa que aponta Haddad como portador da segunda maior intenção de votos para exercer a presidência da República.

O candidato, embora some expressiva intenção de voto, também é detentor da segunda maior rejeição, chegando a 37% de votos. Em uma primeira análise desse número, pode parecer que o alegado antipetismo é só mais um reflexo do antagonismo natural sofrido pelos candidatos à medida que exercem influência no cenário político. Os dados, contudo, devem ser contextualizados sistemática e historicamente, a fim de que se faça uma análise política mais profunda e justa acerca dessa relação.

No que tange à rejeição dos candidatos, essa não deve ser entendida como sinônimo de antagonismo partidário, uma vez que a pesquisa de rejeição tem como referencial o candidato individualizado e não o partido. Durante a propaganda partidária, a tendência é que a disponibilidade de informação possibilite a unificação candidato/partido, no imaginário do eleitor, gerando o direcionamento das críticas. Entretanto, a distinção desses dois momentos é importante quando se fala em antipetismo. Pesquisa mais específica acerca da rejeição aos partidos constatou que o Partido dos Trabalhadores seria rejeitado por 62% das pessoas[2].

O histórico do partido também tem sofrido duros golpes. Após o escândalo do mensalão, a Lava-Jato parece ter mirado sua espada também para os petistas. A crítica, porém, de que o PT estaria sendo o alvo preferencial das investigações de corrupção é questionável e, de toda forma, não invalida os casos de corrupção descobertos na vigência do governo. Outro lado da alegação, de que há um movimento de perseguição, se crível, reforça ainda mais a existência de um antipetismo, inclusive institucionalizado.

Nas eleições de 2002, Luiz Inácio Lula da Silva foi, enfim, eleito no segundo turno, com 61,27% dos votos, tornando-se o segundo presidente mais votado do mundo. A porcentagem quase se manteve na eleição seguinte, em 2006, quando Lula recebeu 60,83% dos votos no segundo turno. Em 2010, Dilma Rousseff manteve o favoritismo, sendo eleita no segundo turno com 56,05% dos votos, contra 43,95% dos votos conquistados pelo então candidato do PSDB.

A situação passou a ficar desconfortável quando Dilma foi reeleita, em 2014, com 51,64% dos votos, contra 48,36% recebidos por Aécio Neves. O momento político foi bem acirrado com passeatas favoráveis a cada um dos lados. Notou-se, sobretudo nesse momento, a perda de força política do PT ao longo dos anos. Ressalte-se que a candidata sofreu um impeachment no meio do segundo mandato em 2014. Até hoje, discute-se a existência, ou não, de um golpe.

 

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Em uma análise atual do executivo federal, Haddad disputa a transferência de votos de expressivo número de eleitores que parecem ter aderido, a princípio, aos projetos com vetores sociais paralelos ao apresentado pelo Partido dos Trabalhadores. Ciro Gomes, que acredita-se ser o maior representante de um governo social, além de Haddad, é apontado com 10% das intenções de voto e 16% de rejeição. Marina Silva, por outro lado, aparece com 4% das intenções e 23% de rejeição. Ciro e Marina, que hoje não se identificam com PT, fizeram parte anteriormente da gestão política do partido.

No plano legislativo, é certo que alguns dos maiores partidos perderam força nos últimos anos, dentre eles, o Partido dos Trabalhadores. Na câmara, o partido registra uma bancada similar aos primeiros anos antes do mandato de Lula. O expressivo aumento de assentos conquistado nos anos seguintes ao de 2002 entrou em declínio a partir do governo de Dilma. A perda de representatividade chegou ao número de vinte e seis assentos vagos de deputados federais ao longo dos últimos oito anos[3].

No Senado, em 2010, o PT tinha o total de quatorze representantes, sendo onze eleitos no ano[4]. Atualmente, a bancada do PT no Senado é composta por nove senadores[5]. O presente líder da bancada, Lindbergh Farias, enfrenta uma disputa acirrada no Estado do Rio de Janeiro, aparecendo em terceiro lugar nas pesquisas eleitorais. Mantendo-se a tendência demonstrada, o candidato não será capaz de se reeleger.

Aliado ao desgaste do partido nos planos executivo e legislativo, a criação do PSOL, ocorrida em 2004, também deve ser observada. Apesar de ser uma sigla ainda com pouca capacidade de influência no âmbito nacional, é importante atentar para a fragmentação da esquerda na política, por meio, inclusive, de um movimento de êxodo do Partido dos Trabalhadores. Nesse sentido, o surgimento do PSOL deu-se em razão de dissidências do PT. Retroagindo e comparando com a esfera executiva, também é importante consignar que Marina Silva, por exemplo, deixou o PT em 2009, sob o fundamento de poder lutar pelo desenvolvimento sustentável, pauta importante de um governo social.

O fato é que a hegemonia do Partido dos Trabalhadores vem sendo questionada de diversas formas e o desgaste tem sido inevitável nos últimos tempos. Todavia, dois outros partidos de grande expressão nacional exercem maior aversão: O Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB e o Movimento Democrático Brasileiro – MDB, cada qual representando 75% de rejeição.

Os defensores assíduos do PT talvez apontem para o fato de que o partido não é o mais rejeitado no atual cenário político. De fato, o PT pode não ser o mais rejeitado, mas responde por um dos maiores índices de rejeição. Ter um eleitorado fiel, sem dúvida de que é o caso, não anula a rejeição. É importante o reconhecimento dos fatos, tendo em vista que a democracia é o regime político mais favorável ao aprimoramento, à renovação e à reinvenção. O PT, por ser o maior partido representante de um projeto social, não pode se permitir viver na negação.

 

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Resta verificar, então, se esse sentimento negativo pode vir a ser, de fato, sintoma de um problema real para a democracia. Confirmando essa tendência, estaremos diante de, pelo menos, duas razões dignas de preocupação.

A primeira delas é que o antipetismo irracional, quando canalizado, pode servir de inimigo fictício ideal para a subversão do regime democrático, como outrora serviu a “ameaça comunista”. Convicções políticas de caráter social são, volta e meia, alvo de constantes embates, haja vista a tendência de se patrocinar o capitalismo concentrado, por meio de um conjunto de agendas neoliberais que, dissimuladamente, apontam ideais de igualdade social como ameaça à democracia.

Em entrevista recente, o principal concorrente de Fernando Haddad parece fazer mais uma ameaça direta ao PT, mesmo estando enfraquecido fisicamente em hospital, visto ter sido vítima de uma tentativa de homicídio. De acordo com o concorrente, na primeira falha do PT, poderia haver uma reação das Forças Armadas que, diz o enfermo, são as avalistas da Constituição[6].

A segunda razão diz respeito à gestão política nos anos em que o PT governou a última esfera do executivo e se manteve forte no legislativo. É inegável a existência de diversos motivos para se elogiar nas mudanças promovidas durante os governos petistas. Existem, contudo, outros tantos para se criticar. Como exposto, a própria fragmentação da esquerda pode ser um indicativo dessa discordância. Por mais que, por exemplo, o IDH do Brasil tenha saltado de 0,649, para 0,755 e o país tenha avançado no combate à pobreza durante os anos em que o PT se manteve no poder[7], o aumento do número de assassinatos no Brasil chegou ao patamar de 13,4% no período de 2002/2014. As principais vítimas: jovens negros da periferia[8].

Assim, levando-se em consideração a existência de rejeição baseada na gestão política do PT e suas falhas, ou mesmo admitindo um antipetismo manipulado, ausente de fundamentação, é certo que passa da hora do partido e da militância exercerem a humildade por meio da autocrítica. É imperioso ao partido repensar o seu projeto político, sobretudo para quem e para o que foi criado, sob pena de, no mínimo, encarcerar-se no populismo ou mesmo alimentar oportunismos.

Sabe-se que os momentos de crise podem reacender a criatividade. Mais do que um partido são as ações políticas efetivas que promovem as mudanças sociais. O ideal deve sempre se manter no horizonte, de forma que o melhoramento seja um objetivo. O poder político não deve ser visto como um fim em si mesmo, mas o meio necessário de se efetivar a justiça social.

 

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Iuri de Oliveira Araujo Soares é advogado e bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela FND-UFRJ.

 


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________________
[1] https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/10/03/pesquisa-ibope-para-presidente-bolsonaro-32-haddad-23-ciro-10-alckmin-7-marina-4.ghtml (Acesso em: 04 de outubro de 2018.)
[2] http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2017/09/1922234-dem-empata-com-pt-e-psdb-vence-em-rejeicao-a-partidos.shtml (Acesso em: 27 de setembro de 2018).
[3] https://www.poder360.com.br/congresso/numero-de-deputados-de-mdb-pt-e-psdb-retrocede-a-nivel-de-duas-decadas-atras/ (Acesso em: 27 de setembro de 2018).
[4] http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/10/saiba-nova-composicao-do-senado.html (Acesso em: 27 de setembro de 2018).
[5] https://www12.senado.leg.br/noticias/tablet/senadoresporpartido/ (Acesso em: 27 de setembro de 2018).
[6] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/09/nao-aceito-resultado-diferente-da-minha-eleicao-afirma-bolsonaro.shtml (Acesso em: 29 de setembro de 2018).
[7] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/05/160505_legado_pt_ru/ (Acesso em: 27 de setembro de 2018).
[8] http://tvbrasil.ebc.com.br/brasilianas/episodio/o-genocidio-brasileiro/ (Acesso em: 27 de setembro de 2018).

Sexta-feira, 5 de outubro de 2018
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