Tenho medo das “pessoas comuns” que veem em Bolsonaro um exemplo
Sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Tenho medo das “pessoas comuns” que veem em Bolsonaro um exemplo

Arte: Caroline Oliveira

O que Bolsonaro representa é a liberdade de poder odiar a diferença, tudo aquilo que não cabe em padrões extremamente restritos de existência e, ainda assim, não sofrer repreensões morais, éticas e até mesmo penais

Hoje fui resolver algumas questões burocráticas num departamento público. Em meio a troca de papeladas e assinaturas, o funcionário faz um comentário positivando a “honestidade” do candidato Jair Bolsonaro: “eu gosto dele, porque ele pelo menos diz a verdade. Ele fala o que pensa, sem medo do que os outros vão falar”.

Eu começo a argumentar (consciente de que não estava sendo ouvida) que a valorização dessa dita liberdade de expressão, na verdade, mascara o apoio ao conteúdo do que ele está falando, e não a forma. Ou seja, o que seria um simples “apoio a forma livre e desimpedida de falar do candidato’, na realidade, é um apoio às ideias racistas, homofóbicas e machistas que ele propaga. É apoiar o ódio à diferença. É apoiar a possibilidade de expressar abertamente e mesmo colocar em exercício esse ódio. Tanto é isso, que logo em seguida o funcionário começa a defender a importância de se legalizar o porte de armas, para que “as pessoas possam se defender”.

Questiono ele se a resposta à violência seria propagar mais violência, ao facilitar o acesso e a convivência com armas letais. Ele, então, pega um pesado grampeador que estava na mesa, aponta o grampeador na direção da minha cabeça e diz, enquanto eu me encolho ao seu movimento, “isso pode ser uma arma. Se eu quisesse, podia te matar com uma paulada disso na sua cabeça. Não precisaria de um revólver.”

 

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Ainda continuando a conversa, porque, afinal, eu aguardava o término do processamento dos meus documentos, ele continua: “Porque eu, por exemplo, não tenho nada contra homossexual, contra negro, contra mulher. Mas isso é a opinião pessoal dele, do Bolsonaro. Cada um tem a sua. Agora, se tem uma coisa que eu odeio, é motoqueiro.”

Eu interrompo: Ok, você não gosta de motoqueiros, mas nem por isso você prega a violência contra os motoqueiros. — “Eu já atropelei um motoqueiro”. — Peraí, você PROPOSITALMENTE atropelou um motoqueiro, na intenção de machucar/matar ele? — “Sim. Esses caras não têm limite, eles têm que aprender o que é limite”.

Fico muda. Pergunto se preciso assinar mais alguma coisa, ele diz que não. Pego meus papéis e saio da sala, pálida.

 

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Me assusta menos pensar o que efetivamente vai fazer o candidato Jair Bolsonaro – que conseguiu aprovar dois projetos em quase 30 anos na política – se ganhar as eleições, do que a revelação daqueles/as que o têm como exemplo, como alguém a se admirar. A admiração da sua “liberdade de fala” é, na verdade, a libertação que ele representa de todas as amarras morais e éticas que fazem com que um holocausto, tal qual aconteceu na Alemanha nazista, por exemplo, não volte a acontecer.

O que ele representa é a liberdade de poder odiar a diferença, tudo aquilo que não cabe em padrões extremamente restritos de existência (ser homem, branco, hétero, magro, não pobre…) e, ainda assim, não sofrer repreensões morais, éticas e até mesmo penais. É a liberdade de poder atropelar o motoqueiro “para ensinar limites”. De fingir ameaçar uma mulher com um grampeador para ilustrar o lugar de vulnerabilidade dela na conversa.

Um Hitler, por si só, seria totalmente incapaz de criar a magnitude de todo um sistema genocida responsável por matar mais de 6 milhões de pessoas. Foram “pessoas comuns”, funcionários públicos, profissionais das mais diversas áreas que não apenas apoiaram o ódio à diferença pregado por Hitler, como efetivamente tornaram possível a existência e perpetuação de campos de concentração que exterminavam centenas de pessoas por dia.

Me assusta pensar que, em larga medida, a maior parte das pessoas são fascistas. E agora elas têm um exemplo para poder se espelhar, orgulhosamente.

 

Sara Vieira Antunes é doutoranda em Antropologia Social pela USP. Mestre em Antropologia Social pela UNICAMP. Graduada em Ciências Sociais pela UNICAMP. Integrante do Grupo de Trabalho “Saúde Mental e Liberdade” da Pastoral Carcerária de São Paulo. 

 


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