Como é o plano de governo de Bolsonaro?
Segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Como é o plano de governo de Bolsonaro?

O plano de governo lançado pelo candidato Bolsonaro nessas eleições de 2018 tem o nome de ‘O Caminho da Prosperidade’ [1]. Não é diferente das nomenclaturas usadas por outros candidatos nesse nosso país. Como ‘Ponte para o Futuro’ do Temer e do MDB antes do impeachment de Dilma Roussef. É um a tentativa de dizer que o candidato e seu partido representam uma “direção” até  qualquer coisa. Uma ponte, um caminho, que eles representam. Porém, o futuro nos oferecido por Temer foi tenebroso. Tratava-se de um aponte para o inferno.

Ciro Gomes foi mais sisudo em seu título e vai de ‘Diretrizes para uma Estratégia Nacional de Desenvolvimento para o Brasil’. Marina entrou na corrida com bordões que habitam as mentes de qualquer um que não odeia o Brasil. Ela escolheu: ‘Brasil Justo, Ético, Próspero e Sustentável’. O candidato Fernando Haddad decidiu um título mais coca-cola e nomeou seu plano de ‘O Brasil Feliz de Novo’. São títulos que aludem às futuras gestões e o que eles planejam fazer com o Brasil. É o momento de uso da retórica (a arte de enrolar? Arte de emperiquitar ideias? Arte de convencer?). Em campanha, o candidato que não domina eufemismos, engambelação, meias verdades, omissão de fatos ou mentiras, não está fazendo um bom trabalho.

Não é o momento do candidato fazer sua política sair do papel, é o momento de convencer os eleitores e eleitoras de que ele conhece os problemas e sabe como resolvê-los. Mas o que nos interessa aqui é ver como um candidato e sua equipe criam um plano de governo para mostrar aos eleitores quais são os problemas que o candidato identifica e como ele busca solucioná-los, caso for eleito. É por isso que o programa de Bolsonaro é tão interessante. O leitor que é novo na mentalidade desse candidato poderá ficar surpreso, mas não será nenhuma surpresa aos que conhecem a cabeça da pessoa que arrisca ser presidente do Brasil.

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A primeira pagina do programa de Bolsonaro começa com o seu slogan, ‘Brasil acima de tudo. Deus acima de todos’. O nacionalismo de Bolsonaro fica abaixo da sua ideia sobre o que é deus ou cristianismo. Tem mais. Três palavras anunciam como promete ser o plano e o possível governo: Constitucional, eficiente e fraterno. Obviamente o plano de governo tem que ser constitucional. Fica difícil sustentar um plano de governo que promete destruir a constituição ou não a levar em conta. O segundo termo é eficiente. Eu desconheço candidato a presidente que se considere ineficiente para concorrer ou governar o país. Retórica do seu programa apenas. Fraterno: mais tarde veremos o que o candidato quer dizer, pois assim, isolado na capa, pode dizer tudo, nada e qualquer coisa. É importante notar que Bolsonaro promete declarar a verdade e libertar os eleitores. Não está claro se é pela leitura desse documento, pelo voto ou pela fé no candidato. Está lá, “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (João 8:32).” O candidato parece ter sido tomado pela voz e vontade de Deus.

O documento abre propondo um BRASIL LIVRE, decente, diferente, sem tomá-lá-dá-cá e que “atenda os anseios dos cidadãos e trabalhe pelo que realmente faz a diferença na vida de todos.” Qualquer candidato em qualquer lugar do mundo poderia usar as mesmas palavras. São vazias, mas permitem ao leitor colocar o sentido e o sentimento que quiser sobre os termos ‘governo decente’, ‘toma lá-dá-cá’ e ‘anseios dos cidadãos’. Dificilmente alguém se oporia a essa proposta. Mas se perguntarmos como alcançar tudo isso o texto se dissolve e nada fica no lugar.

O candidato entra no texto com caixa alta e afirma seus compromissos: “liberdade, PROPRIEDADE PRIVADA e FAMÍLIA” (liberdade não teve a mesma ênfase do que as duas outras no texto). O plano diz que família é sagrada seja como for e que o estado não deve interferir em nossas vidas. O plano continua de forma que me lembra das aulas de catequese: “Liberdade para as pessoas, individualmente, poderem fazer suas escolhas afetivas, políticas, econômicas ou espirituais.” E mais: “Devemos ser fraternos! Ter compaixão com o próximo. Precisamos construir uma sociedade que estenda a mão aos que caírem.” Está aí a fraternidade anunciada na capa de seu plano de governo. Fraterno é isso, é ser fraterno. Estenda a mão aos que caírem e não estuprem os que não merecem ser estuprados, como o candidato nos ensinou em famoso vídeo em que ele discute com uma colega de profissão. Esse texto parece ter sido produzido em clima de gritaria e segue conclamando que o povo precisa ser livre de “VERDADE!” Caixa alta e exclamações formam parte do estilo da escrita.

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Disponibilizamos na íntegra o plano de governo do seu candidato à Presidência da República

Por fim, nessa introdução, o plano afirma que o candidato e seu governo se comprometem a defesa e a obediência à Constituição e, “NOVAMENTE, ressaltamos que faremos tudo na forma da lei!” Fica claro que o candidato tem interesse em convencer o eleitor de que vai respeitar a constituição do Brasil pois ele afirma isso quatro vezes. O plano ainda afirma que defende liberdade de opinião, de imprensa, de religião. O que contrasta com as inúmeras vezes que o candidato desrespeitou ou ofendeu aqueles que ele odeia. O plano de governo fica com cara de que foi escrito por um estudante escolar que busca produzir um texto no qual ele não acredita, mas que, ao ser avaliado, permite tirar uma boa nota com o professor. O candidato consegue ser racista fora do plano de governo, mas no plano ele é comportado. No documento onde ele se apresenta ao Brasil ele tiraria uma boa nota.

Mas o candidato e seu plano são profundos como um pires. Os chavões da direita enfeitam o documento. “A nossa bandeira é verde-amarela” e depois diz que precisamos no libertar e vamos nos libertar. O texto diz que estamos todos ameaçados e que não somos livres ainda que não indique quem tirou nossa liberdade ou contra o que nós nos libertaremos. São fórmulas antigas. Se anuncia um inimigo, ‘os judeus!’, ‘os comunistas!’, ‘os imigrantes!’, ‘os persas!’, e depois parte-se para dizer que só ele, só o candidato, só quem anuncia os perigos é que pode derrotá-los.

O programa promete mais Brasil e menos Brasília, diz que a esquerda corrompeu a democracia e estagnou a economia por mais de 30 anos e promete uma nova forma de governar. Bolsonaro passou uns 30 anos em Brasília, mas não tem nada haver com o que aí está. Agora, diz ele, vai vir o novo governo. Depois o plano se repete mais, dizendo que vai seguir a lei e a constituição. É grande o medo do candidato de ser acusado de não seguir os caminhos da legalidade. Por vários momentos o leitor se deparará com o atestado de que o candidato fará tudo dentro da lei.

‘O Caminho da Prosperidade’ depois passa aos velhos argumentos anti-esquerda que alimentam às mentes antipetistas. Relaciona um milhão de mortos com o Foro de São Paulo, diz que as FARC introduziram o crack no Brasil, afirma que o legado do PT é a ineficiência e a corrupção e acusa Paulo Freire de ser o problema das escolas. Nada disso ele explica. O candidato Bolsonaro ainda afirma que o governo petista da cidade de São Paulo dava bolsa crack aos usuários da droga e relaciona aumento da criminalidade com estados governados por partidos integrantes do Foro de São Paulo. Diz que a esquerda mente e que a polícia mata poucas pessoas (ou será que talvez ele tivesse a intenção de escrever que a polícia não mata o suficiente?).

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Lendo o plano tem-se a impressão de que tudo está beirando o colapso. Soa como trombetas do apocalipse sobre o Brasil, como se só Bolsonaro pode nos salvar. É um argumento comum na política, de que tudo é ruim, está errado ou não funciona. É difícil imaginar como a vida pode existir num lugar onde, supostamente, nada está certo e tudo é um lixo. Esse argumento, de estarmos a beira do colapso, parece persistir em cenários de disputas políticas ao redor do globo. É como se o candidato nos falasse: ou você aceita as minhas propostas ou você morrerá e tudo será destruído. O argumento da calamidade que beira nossos lares mexe com o sentimento de medo dos eleitores, apavora-os. É uma forma de pensar que é fruto da irracionalidade. Aos que acreditam nesse palavreado sombrio esse plano atrai o voto.

Para falar de segurança o candidato se utiliza de um documentário da Globo, A Guerra do Brasil, de 2017, para compreender e tratar o problema da violência no Brasil. Diz que tem que prender e deixar preso, que é necessário combater o estupro de crianças e de mulheres, reduzir a maioridade penal para os 16 anos, investir em equipamentos, facilitar a posse de armas, tipificar como terrorismo qualquer tipo de invasões de propriedade. O candidato não diz como fazer isso.

Sobre as forças armadas, Bolsonaro segue o mesmo blá-blá. Fala de investimento em equipamentos, uso das forças armadas no combate ao crime organizado, segurança das fronteiras, diz que o golpe de 64 foi revolução e que o exército tem uma história que nos orgulha pois o exército lutou contra o Nacional Socialismo (e esse é o único dado da história do exército que ele nos trás). Mas, um dado é novo (ainda que sem sentido): “participação das instituições militares no cenário de combate a todos os tipos de violência.” Brigou com o vizinho? Exército. Teu cachorro saiu da coleira e mordeu um transeunte? Fuzileiros navais. O candidato não diz como fazer isso.

Na área da educação o documento diz que Bolsonaro visitou Japão, Taiwan e Coréia do Sul e afirma que nesses países o investimento em educação fez com que eles ficassem ricos em uma geração. É um argumento absurdo e fruto do desconhecimento. Afirma: “SEM DOUTRINAÇÃO E SEXUALIZAÇÃO PRECOCE.” Depois diz que as universidades devem desenvolver novos produtos através de parcerias com a iniciativa privada e que o jovem deve sair da universidade “pensando em abrir uma empresa.” Diz que o empreendedorismo deve ser ensinado em todos os cursos de qualquer universidade e que os mestrados e doutorados devem ser feitos “sempre próximos das empresas.” Isso coaduna com o que o candidato já declarara anteriormente: “O objetivo da educação é ajudar na economia formando bons profissionais. E não formando militantes [2].” O plano segue argumentando que a educação nacional deve ser integrada. Fala em criar hubs tecnológicos e estimular a parceria com empresas privadas.  O Brasil, segundo as propostas, deve ser um centro mundial em pesquisa do nióbio e do grafeno, pois o candidato visitou o Japão e viu que eles usavam grafeno na construção de um submarino nuclear. O candidato não diz como fazer isso.

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O general Alésio Ribeiro de Souto, parte do grupo que auxilia Bolsonaro, afirmou em entrevista que pretende banir livros de história que não falem a verdade. Qual verdade? A verdade que ele quer que seja a verdade [3]. Outra proposta que o candidato já afirmou em eventos é que pretende construir mais escolas militares nas capitais estaduais [4]. O candidato não diz como fazer isso.

Bolsonaro não separa saúde da educação. Diz que se deve abandonar questões ideológicas para fornecer um atendimento melhor. Além dessa novidade, Bolsonaro vai “libertar”o brasil dos médicos cubamos e fornecer cuidados com a saúde bucal e o bem estar da gestante. Sobre o aborto, em diversas ocasiões o candidato já disse ser contra. O candidato não diz como vai fazer nada disso.

Sobre a economia, Bolsonaro faz um planejamento generalista e sem explicação. Gerar crescimento, oportunidades, emprego e tudo aquilo que qualquer brasileiro é a favor, mas não explica sem ser por beirolas que mal tocam nos assuntos. Banco Central independente,  ministério da economia com funções do ministério da fazenda e enxugar o estado. O plano não é novo, a junção dos ministérios já foi efetuada pelo ex-presidente Fernando Collor em 1990, além de outras propostas fora da realidade [5].

O plano segue afirmando que a administração pública está inchada e descontrolada, fala em redução das despesas e fala em privatizações. Diz que o Bolsa Família é inspirado no economista e ideológo Milton Friedman (economista da Universidade de Chicago, onde o economista de Bolsonaro, Paulo Guedes, adquiriu seu doutorado). É um aceno aos eleitores que recebem o programa e uma afirmação de que o Partido dos Trabalhadores teria se apropriado de uma ideia da direita dos Estados Unidos. Por outro lado, a única coisa que o candidato considera bom do governo petista é, na verdade, algo da direita.

Bolsonaro diz que vai introduzir carteiras de trabalho com novas cores na capa, vai facilitar o comércio internacional e afirma que países mais ricos são mais abertos. O liberalismo e uma economia sem interferência do estado são os sustentos do plano econômico que o candidato adotou. E, sem deixar uma das velhas ideias da direita de lado: menos ministérios. Não é relatado como o candidato vai realizar tudo isso.

Em linhas gerais, ainda que o plano ainda toque em outros dados, as ideias do candidato não são mais profundas do que o modo que eu as apresentei. Aviação? “atrair investimentos”. Itamaraty? “Deixaremos de louvar ditaduras” (no caso, só consideram ditaduras as ditas “comunistas”). Ao final? A frase ‘Ordem e Progresso’. As ideias do candidato refletem sua mentalidade, de seus filhos e outros parentes que ele colocou na política. São frágeis, rasas e olham ao mundo como se usassem antolhos de cavalo. Seus apoiadores, tristemente, como já notara o ganhador do nobel de literatura, Wole Soyinka, participam constantemente e ajudam na sua humilhação diária [6]. Bolsonaro não é mudança benéfica é aprofundamento da nossa desgraça. Sua mente vazia de ideias concretas, análises profundas, conhecimento da realidade brasileira e de fundamentos básicos de economia, sociedade, história, saúde e educação comprometem o bom funcionamento do Estado. O programa de Bolsonaro é um atestado de sua incompetência. Um candidato a presidente deveria ter vergonha de concorrer a tal cargo com propostas e ideias tão rafeiras. A ignorância, nesse caso, torna-se virtude.

Bruno Oliveira é formado em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e é mestre em história pela Universidade de Lisboa com ênfase em história de África, história do Quênia e literatura africana. 

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Notas:

[6]  SOYINKA, Wole. Deves Partir de Madrugada, Ed. Pedra da Lua, 2008, p.173.
Segunda-feira, 8 de outubro de 2018
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