Ele não porque eu sou judeu
Segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Ele não porque eu sou judeu

No dia em que termino a revisão desse texto, a página “Judeus Contra Bolsonaro” é atacada com dizeres antissemitas

Na noite do dia 19 de setembro, judeus de todo o mundo celebravam o fim do jejum de Yom Kipur, o Dia do Perdão, data mais importante do calendário litúrgico judaico. No jantar da minha família, que não é exatamente uma família religiosa, mas frequenta anualmente alguma sinagoga aleatória nesta data, a minha octogenária avó Frida levantou um debate sobre pessoas próximas a ela que declararam seu voto em Bolsonaro. Entre essas pessoas estão parentes meus cujo avô paterno é um sobrevivente de Auschwitz.

Em tom melancólico, minha avó reclamava na mesa que já não se sentia com a destreza necessária ao debate político, embora tenha se mostrado veementemente contrária à escolha desses parentes bolsonaristas. Ela escutava atenta a mim, à minha mãe, ao meu pai e irmão, todos anti-bolsonaros convictos e cada um com sua escolha pessoal quanto aos candidatos à presidência (que vai de Álvaro Dias a Fernando Haddad). Escutava como quem assiste a um debate, buscando argumentos para se posicionar. Esse texto é uma tentativa de organizar para a minha avó Frida alguns pensamentos acerca do que acredito ser a ressonância de um anseio, senão uma lógica, totalitária na engenharia política que dá corpo e vigorosidade à candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República brasileira.

Existem episódios suficientes envolvendo judeus e o capitão reformado do exército que justifiquem uma reflexão ampla acerca dessas relações. De um certo modo, parece haver uma expectativa, por parte da sociedade brasileira “progressista”, de que os judeus, por terem vivido durante séculos a violência e o genocídio oriundos das formas de ódio contra minorias na Europa, se posicionassem contrários à candidatura de Bolsonaro. Talvez o primeiro esclarecimento que deva ser feito é que, diferente da Igreja Católica, o judaísmo não se organiza hierarquicamente, respondendo a uma lógica una. Inexiste, portanto, uma posição “da” comunidade judaica, quanto à escolha política de seus membros, sendo ela absolutamente individual, e que usualmente oscila entre centro, centro-esquerda e centro-direita. A própria história do judaísmo é marcada pela pluralidade de interpretações e controvérsias a respeito dos textos sagrados; e até incentivada. Nenhum rabino, de nenhuma vertente, pode almejar representar a totalidade de opiniões sobre temas religiosos, o que vale também para temas sociais.

Ainda assim, a recepção que recebeu o candidato Jair Bolsonaro no clube A Hebraica do Rio de Janeiro, em abril de 2017, associou-o à imagem dos judeus como um todo. Especialmente diante do conteúdo das falas proferidas pelo candidato nessa ocasião, utilizando-se de linguagem pejorativa para referir-se a quilombolas (“Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem pra procriador ele serve mais” — guardem essa frase) e ameaçando indígenas e seus modos de vida (“não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou quilombola”). Tais falas renderam ao deputado a abertura de uma investigação criminal por parte da Procuradoria Geral da República sob a suspeita de crime de racismo, que o STF arquivou no dia 11/09, ao rejeitar a abertura do processo por 3 votos a 2. Bolsonaro tornou, de alguma forma, indissociável a sua imagem com a daqueles judeus que lhe escutavam.

O infame episódio rende até hoje. Em meados de setembro, com os ânimos eleitorais se acirrando diante da alta de Bolsonaro após o atentado que sofreu em Juiz de Fora (MG), uma corrente de internet surgiu, propondo a realização de um exercício: substituir as frases em que Bolsonaro vocifera palavras de ódio contra gays, negros e indígenas por judeus. A ideia é que com essa substituição se tornasse mais evidente a violência e racismo dessas falas, gerando resultados como: “os judeus querem se passar por vítimas, querem superpoderes. Qualquer judeu que morre no Brasil, logo a mídia está dizendo que é antissemitismo” (na frase o termo originalmente utilizado é “homossexuais”, substituído por “judeus”, e “homofobia”, substituído por “antissemitismo”); ou mesmo “não [corro o] risco de ter uma nora judia porque meus filhos foram bem educados” (substituindo “negra” por “judia”)  —  guardem essa frase também. As famigeradas frases de Jair Bolsonaro na Hebraica também foram utilizadas no exercício.

Circula na internet fotos em que Bolsonaro posa ao lado de Marco Antônio Santos vestido de Hitler, um neonazista assumido e que reivindica ser professor. Marco Antônio ganhou notoriedade ao comparecer em 2015 em uma audiência na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e gerar tumulto  —  foi proibido de se pronunciar no dia, em que se debatia os limites do posicionamento político de professores em sala de aula. Outro material que circula pelas redes é o vídeo de Jair Bolsonaro participando de um “teste da verdade” pelo programa televisivo CQC. Quando questionado se admira a figura de Adolf Hitler, Bolsonaro gagueja, e responde pausadamente que não chega a admirá-lo, mas que reconhece que ele foi um grande general na defesa do seu povo. Ora, o grande feito militar de Hitler, frente àqueles que ele definia como inimigos do povo alemão, foi o extermínio sistemático de 6 milhões de judeus como política de Estado.

Também nas primeiras semanas de setembro, outro caso, desta vez envolvendo uma postagem da Embaixada da Alemanha explicando o nazismo em português, moveu as redes sociais, recebendo inclusive cobertura jornalística internacional. Um grupo de internautas, muitos simpatizantes a Bolsonaro, questionaram a postagem da embaixada, alegando que tratava-se de uma perspectiva enviesada por considerar o Nazismo de extrema-direita. Para eles, o Nazismo seria uma tendência política de esquerda, já que o partido se chamava Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Kai Michael Kenkel, professor de ciência política alemã da PUC-Rio comentou sobre o caso para a mídia brasileira: “nunca tinha visto essa discussão sobre o nazismo ser de esquerda na Alemanha”, afirma o professor, que continua: “lá é muito simples: trata-se de extrema direita e pronto. Essa discussão sobre ser de esquerda ou direita parece existir só no Brasil”. Além de questionarem que o nazismo era de esquerda, muitas postagens tinham cunho revisionista, e afirmavam que o genocídio de 6 milhões de judeus eram uma farsa, fruto do lobby judaico.

 

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Neste mesmo mês, judeus de diversas posições políticas criaram a página de facebook “Judeus Contra Bolsonaro”, que com mais de 7mil pessoas traz como imagem de capa dizeres antifascistas em italiano: “Il fascismo non passerá” (O fascismo não passará, em português).

Judeus que defendem Bolsonaro têm realizar malabarismos teóricos para justificar o seu apoio ao candidato, tentando minimizar essas associações com o nazismo, sejam as criadas pelo próprio deputado, por seus seguidores ou por seus críticos . Além de terem no mesmo barco pró-Bolsonaro a nada agradável companhia de neonazistas que exaltam as propostas do ex-capitão do exército.

Evidentemente, é uma grosseria sem tamanho afirmar que Bolsonaro seja nazista. Tout court. Mas por que o imaginário nazista é reivindicado pelos críticos de Bolsonaro? Seriam apenas delírios e forças de expressão? Ou o pequeno número de neonazistas que aderiram à campanha do candidato, assim como determinados discursos de seus eleitores possuem, efetivamente, algo a nos dizer sobre os posicionamentos pessoais de Bolsonaro? Permitam-me adentrar esse perigoso nevoeiro com uma pequena digressão histórica.

Uma das obras de referência no estudo do nazifascismo europeu é o trabalho da filósofa judia Hannah Arendt. Em As Origens do Totalitarismo, Arendt propõe um exercício de interpretação do totalitarismo nazista a partir de suas origens no colonialismo e no antissemitismo. No último capítulo do livro, aquele propriamente dedicado ao fenômeno totalitarista, a filósofa elenca uma série de características que definem a experiência totalitária. Entre elas, uma me parece reverberar na discussão iniciada acima: o desmerecimento da realidade em nome de uma lógica coesa, existente apenas em um plano ideal sem correspondência com o mundo vivido. Ou seja, o mundo tal como o experimentamos, repleto de contradições e heterogeneidade, é submetido a uma organização lógica, um processo de purificação que pouco tem a ver com a vida cotidiana. Entretanto, esse mundo imaginário é capaz de criar uma realidade autônoma, coesa e perfeita.

Diante desta segunda realidade, puramente mental, o mundo da experiência sensível pode  —  e este é o traço característico do nazifascismo  —  ser submetido a uma transformação forçada e violenta. Se para Hitler o problema da Alemanha era a mistura entre judeus e alemães, a infiltração de judeus em todos os âmbitos da sociedade alemã, degenerando-a, suas propostas políticas começavam e terminavam com a questão judaica. Não por acaso a questão reprodutiva, do contato entre judeus e alemães, está na base de seus discursos, e uma das primeiras leis do Führer foi a proibição dos casamentos mistos.

A temática do degenerado é central para o pensamento nazista, que se propõe a missão estética de embelezar o mundo. Como? A partir da extirpação da diferença, de todos aqueles que eram considerados uma ameaça à supremacia da raça ariana, a começar por pessoas com dificuldades motoras, malformações, problemas cognitivos, estendendo-se a judeus, ciganos e homossexuais. Nos planos de Hitler, a violência e a guerra tinha um potencial criador e estabilizador do mundo, que lhe garantiria a coerência mentalmente produzida, permitiriam-lhe modificar o mundo e a natureza humana, resguardando ao povo alemão seu grandioso destino.

 

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Talvez um dos motivos de Bolsonaro reacender o imaginário acerca do nazismo esteja, justamente, na temática do degenerado e da degeneração da sociedade. As frases do candidato que pedi para o leitor guardar em mente logo acima trazem como pano de fundo uma reflexão a respeito da procriação, e reverbera o cerne do debate racista sobre a mistura de raças e seu fundo supostamente genético: os perigos das misturas entre negros com brancos, judeus com não-judeus. As falas de Bolsonaro acerca da esterilização dos pobres como forma de conter a explosão demográfica que assola o planeta correlaciona, de maneira ainda mais evidente, temas caros ao pensamento nazifascista, para os quais a crise da modernidade se confundia com o esquerdismo e o aumento da população degenerada que destruiria a raça ariana; os “homens de bem” de seu tempo.

O discurso do candidato se centra em pautas morais, esvaziando os seus conteúdos e debates ao redor dos temas, neutralizando-as. Sexualidade, quotas, questões étnico-raciais, acesso à educação e cultura, direitos indígenas, preservação ambiental. Tudo aquilo que difere do padrão normativo homem-hétero-branco-cristão é considerados um desvio, e portanto ideológico, sem razão de ser. Não se entra no debate, mas criam-se pressupostos que inviabilizam uma discussão séria sobre os temas.

No plano da segurança, sua proposta mais consistente é armar a população “de bem”. O deputado já chegou a falar que acredita que apenas uma guerra civil salvaria o país. Aqui está a crença no poder criador da violência, um dos elementos que define o totalitarismo. Bolsonaro acredita que o problema da criminalidade urbana se resolve dando um ultimato para bandidos se entregarem, senão metralharia favelas como a Rocinha. Não leva em consideração que em nenhum lugar do mundo a guerra ao crime pelas vias das forças de segurança gerou resultados positivos  —  e todos os países que adotaram medidas educacionais e culturais para lidar com a violência observaram transformações significativas. Não leva tampouco em consideração a morte dos policiais que se envolverão nas operações, nem de civis inocentes.

Assusta a concepção de humano que subjaz à lógica de suas propostas. Um ser humano frágil, sujeito à manipulações perversas por ideologias que sequestram sua verdadeira natureza, e que apenas um homem forte, como ele, poderia restituir. Um ser humano como uma massa amorfa a ser defendido com força de projetos que lhe degenerariam, que o fariam perder sua integridade. Essa visão abstrata de ser humano é explorada no eleitor brasileiro, cativado por um discurso voltado ao cultivo de sentimentos mais imediatos e aos impulsos impensados, relacionado a uma forma de desejo existente em nossa sociedade, marcada pelo ímpeto de resolução imediatista, muitas vezes pela força.

Como chegamos até esse ponto? Como é possível que cerca de um terço do eleitorado brasileiro apoie, ativamente, um candidato cujas propostas concentram-se majoritariamente em pautas vazias de significado concreto e no uso da violência, sem nenhum debate consistente sobre governo, Estado, pobreza, saúde, segurança educação e economia? A que desgaste foi submetido o sistema político brasileiro, a permitir que tal radicalismo emerja como viável?

Essa resposta excede o objeto deste pequeno ensaio, mas o caminho, seguramente, deve levar em consideração o desgaste do sistema político nacional, a crise econômica, os escândalos de corrupção de todos os grande partidos da república, os erros do Partido dos Trabalhadores e o clima de instabilidade política criado pela oposição para tomar o poder à força, a reação à mudanças nas formas de comportamento moral. Também no plano internacional a democracia vem sendo colocada em cheque, tanto à esquerda quanto à direita: de Putin na Rússia à Maduro na Venezuela, de Viktor Orban na Hungria ao aumento da extrema direita na França (com o clã Le Pen) e na Alemanha (com o AfD). Sem falar na evidente reverberação dos discursos de ódio do próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

 

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Sobre a relação com a comunidade judaica, minha interpretação é que Bolsonaro explorou a relação criada no clube A Hebraica para tentar se mostrar menos outsider. Tentou, e de certo modo conseguiu, aproximar-se da ideia de que uma minoria, que no Brasil é associada a uma estabilidade financeira, profissional e intelectual, lhe abriu as portas. Soube surfar nessa onda, com viagens a Israel e admiração pelo país sionista, o que agrada a muitos judeus brasileiros, filhos e netos de sobreviventes de perseguições antissemitas. De certo modo, as falas de Bolsonaro reverberam no discurso conservador israelense: o militarismo, a violência, a negação da humanidade do outro (em Israel, os palestinos, no Brasil, as populações negras e indígenas) — que não são consenso entre os judeus, mas sim uma política de Estado de um governo.

Hoje em dia é comum pensar que judeus no Brasil são de direita. Trabalhei na Casa do Povo, um dos principais espaços culturais de São Paulo, instituição fundada e mantida por judeus de esquerda, e que abriga atividades com o Movimento Passe Livre, população Trans, imigrantes bolivianos entre outras. Além do fato da página “Judeus Contra Bolsonaro” ter 7.947 membros no facebook, enquanto “Comunidade Judaica Brasil” possui 7.426 (dados de 01/10/2018).

Jair Bolsonaro não precisa ganhar as eleições para Presidente da República para gerar danos ao processo democrático. Sua presença fez o debate pender, necessariamente, para um polo mais à direita do que aquele que usualmente marca a corrida presidencial brasileira. Ocupou o espaço antipetista anteriormente resguardado ao PSDB. Tornou falas de ódio e insultos à minorias menos reprováveis. Esvaziou o debate sério e urgente sobre segurança pública, em nome de posições espetaculares e pouco efetivas. Deslegitima o próprio processo eleitoral, ao questionar a confiança que se podem ter nas urnas.

Nada indica que a onda de instabilidade democrática gerada por movimentos populistas, presidentes com tendências autocratas e processos ditatoriais tenderá a acabar em breve. Um dos pontos que o debate político precisará incorporar de mais essa experiência de crise da democracia é a abertura para uma reflexão: em que medida a democracia deve tolerar a dispersão de conteúdos anti-democráticos.

Existe um paradoxo saudável à democracia no que diz respeito à liberdade. Esse paradoxo consiste no fato de que ninguém é (ou ao menos não deveria ser) livre para proferir discursos que ameacem a liberdade do outro. Trata-se de um paradoxo constitutivo da experiência democrática. Não existe totalitarismo parcial, pois a sua razão de ser é total: um governo em que terror e violência estão na base da gestão da política. É, entretanto, na negação do paradoxo da liberdade que o totalitarismo reside enquanto projeto.

Espero, avó, ter conseguido esmiuçar um pouco do que tentei te dizer na quebra do jejum de Yom Kipur, no dia do perdão, na quarta-feira a noite. Judeus também são uma minoria, e devem se lembrar desse passado, pois os ataques à minoria marca a história de nossa família, e das famílias de nossos amigos. Judaísmo é a memória do que aconteceu com os judeus no passado. Uma memória para sempre atualizada, criticamente, no presente.

Ps: no dia em que termino a revisão desse texto, a página “Judeus Contra Bolsonaro” é atacada com dizeres antissemitas.

Fábio Zuker é escritor de não-ficção, jornalista e antropólogo.

 


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