O eleitor do Bolsonaro é uma cebola
Segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O eleitor do Bolsonaro é uma cebola

Pode ser que tenhamos de conviver, no futuro, com o registro histórico triste de um fascismo que não foi imposto ao povo, mas sim escolhido por este

O eleitor médio de Bolsonaro é como uma cebola: é necessário tirar as várias camadas de desculpas democráticas para o seu voto a fim de chegar ao núcleo de suas verdadeiras intenções. A camada mais superficial da cebola é o argumento do candidato ficha limpa: Bolsonaro ostentaria as credenciais para sentar na cadeira da Presidência da República simplesmente por não possuir condenações por desvio de dinheiro ou corrupção. Mas seus eleitores têm dificuldades em explicar por que a mesma justificativa não vale para outros candidatos, tanto à direita quanto à esquerda, que também possuem ficha livre de condenações.

A segunda camada é a do bem comum. Votar em Bolsonaro é estar ao lado da Pátria, pois ele é a única opção para superar o trauma dos governos petistas e colocar as coisas de volta nos trilhos (embora ninguém saiba para onde levam). É um expurgo necessário para dar ao Brasil condições de se livrar de um “comunismo” que sempre esteve à espreita para nos tirar do caminho de nossa verdadeira vocação. Tendo em conta que o tal comunismo (nunca consumado) foi a desculpa para a implantação dos dois piores períodos autoritários da história brasileira, o Estado Novo e a Ditadura Militar, parece que nossa vocação, para essas pessoas, são a violência e o desrespeito a direitos humanos, características principais desses regimes.

Chegamos à terceira camada. Essa é mais densa e difícil de remover. Votar em Bolsonaro é dizer não à frouxidão de costumes e à negação da tradição cristã do País. Ninguém aguenta mais ver homens de mãos dadas nas ruas, novelas em que a diversidade sexual é representada, feministas de peito de fora, enfim, pessoas que antes estavam nas sombras e que agora vivem como todas as outras. Os eleitores dele só não conseguem explicar aonde querem chegar confiando a um governo a tarefa de mudar os costumes. Como um governo faria isso? Enviando cartilhas com orientações de etiqueta aos lares dos “desajustados”? Ou legitimando repressão e perseguição? Quem estudou História já sabe a resposta. E quem não nasceu ontem também.

 

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A quarta e última camada é o argumento da negação da política. Bolsonaro não é dado a conchavos e mudará a forma de governar o Brasil. Não fará alianças espúrias, nomeará técnicos para assuntos que não domina (quase todos) e restabelecerá a ordem e o progresso. Bolsonaro sentará na cadeira e dará ordens direto do Planalto ao Congresso, esperando cabeças baixas e obediência incondicional. É de certa forma a lógica militar transplantada à política, onde o coronel manda, e os subordinados apenas cumprem. Renascimento da velha tara autoritária de uma parte da elite que nunca aceitou qualquer divisão do poder.

Ao remover essas camadas e algumas intermediárias, a cebola fica pequena, murcha e feia. O eleitor de Bolsonaro não votará para melhorar o Brasil ou acabar com a corrupção. Poderia fazer isso dando seu voto a candidatos democráticos, mas não o faz porque Bolsonaro tem “aquele 1%”: o discurso de intolerância e ódio. É esse discurso que dá voz a todo o preconceito represado de muitas pessoas que não aceitam que negros, pobres e gays vivam como elas e tenham os mesmos direitos. Sentem-se forçadas a dividir o espaço público com quem consideram indignos dele e por isso desejam alguém que restabeleça a ordem, vale dizer, que coloque esses indesejados no lugar de onde nunca deveriam ter saído.

Ouviremos muitas dessas justificativas ao longo da campanha. Mas só são camadas para dar lustro e volume a um cerne podre que não contém nada além de preconceito e violência. No passado, esses fantasmas autoritários se impuseram pela força de golpes militares, mas pode ser que tenhamos de conviver, no futuro, com o registro histórico triste de um fascismo que não foi imposto ao povo, mas sim escolhido por este.

 

Leonardo Gomes Miranda é bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo.

 


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