A tal autocrítica
Terça-feira, 9 de outubro de 2018

A tal autocrítica

Arte: Gabriel Prado
Dia 08 de Outubro de 2018. Talvez seja o dia mais difícil e desanimador da minha vida. Escrevo este texto um dia após as eleições do mesmo ano, em que fomos às ruas saldar a democracia com nosso voto. O resultado, bem, o resultado destas eleições só nos mostrou como o Brasil pensa atualmente e, antes de tudo, como foi moldada a pensar nos últimos anos. Este texto é de uma pessoa de esquerda e certamente será endereçado para este grupo, grupo ideológico do qual pertenço, no qual luto, no qual me vejo incluído.

Aquela primavera de 2013… 

Para entender todo o desenrolar dos fatos e de como chegamos nessa situação, temos que, obrigatoriamente, nos remeter a 2013. Naquele ano, após o início de manifestações estudantis acerca de insatisfações relacionadas com o transporte público, presenciamos, talvez, o maior motim popular contra a política caricata, contra a política tradicional. O recado estava sendo muito claro: Não há mais como sustentar um sistema que parecia falido, putrefato, com pessoas que por muitos e muitos anos viveram exclusivamente de política. O foco da revolta estava residente em uma sequência inacreditável de descobrimentos de corrupção praticados no executivo federal e que estava afetando, também, o já combalido legislativo federal, além de maus pressentimentos com os gastos astronômicos que estavam sendo despejados para a Copa do Mundo de 2014.

As eleições presidenciáveis de 2014 veio acirrar o que já estava claro: Havia um consenso na população de que a política tradicional parecia que já não iria mais funcionar, mas os modos de como superaríamos a crise eram antagônicos. De um lado, tínhamos um projeto agressivamente liberal na economia que, logo no segundo turno, se uniu com todo o tipo da direita, desde os liberais, libertários, demagogos, moralistas, cristãos e intervencionistas, até mesmo grupos como nazistas e fascistas, apenas com um único fim: acabar com um governo propensamente socialista, mas que, na prática, não lutou para implementar, de fato, um regime socialista. De outro lado, tivemos o PT, guinado por Lula, trabalhando intensamente para uma reeleição improvável de Dilma Rouseff, haja vista que as coisas já não estavam funcionando mais no governo.

A proposta nacional desenvolvimentista de Dilma era o que estava no papel, mas todos nós sentíamos que nem a mesma acredita nas palavras de seu programa de governo. Naquela altura, estávamos começando uma severa crise fiscal e econômica e ainda na vigência de uma operação policial não afeita aos moldes legais, que a todo instante trabalhava intensamente para que o PT não fosse reeleito.

O final todos nós já sabemos: Mesmo com uma união sem precedentes entre a direita, unindo cristãos e nazistas, liberais e intervencionistas, o PT de Dilma Rouseff teve uma sobrevida e se elegeu ao Governo Federal. Porém, na prática, o projeto vendido pelo PT e por Dilma jamais  foi tentado ser colocado em prática, haja vista que, na primeira semana de governo, a austeridade fiscal, necessária para um país com as contas combalidas, foi o que imperou, o que, obviamente, não ficou despercebido pela massa que a elegeu.

Ali, o PT começou a perder as bases sociais que o manteve no poder desde 2002, como pessoas ligadas a centrais sindicais. Ali, começava a série de erros do PT que nos trouxeram a este trágico dia 08 de Outubro de 2018.

Vítima principal de centenas de investigações de corrupção comandadas por um juiz central, autoritário e com visível desapreço às garantias individuais e trâmites processuais, 2014/2015 se tornou um verdadeiro pesadelo para o cidadão comum, que estava sendo duramente castigado pela inflação incontrolável, crescimento do desemprego, austeridade fiscal severa e com um Congresso que promoveu um verdadeiro contra ataque ao povo e ao erário público, aprovando inúmeras pautas que fragilizaram ainda mais as contas públicas, pseudo reforma política e previdenciária, cujos verdadeiros reflexos e resultados ainda não foram realmente percebidos pela sociedade.

Naquele momento, as leituras políticas do PT, lideradas por Lula e o núcleo duro do partido, estavam tremendamente fora da realidade. Não era por causa de um simples sentimento de “mal perdedor” do PSDB que as coisas estavam indo na direção que estava. Havia por trás todo um sistema que estava se alinhando. As redes sociais ali já demonstravam indícios da máquina de aniquilação de honras e reputações que hoje conhecemos.

O ano de 2015 certamente foi um dos mais difíceis na vigência da Constituição Federal de 1988. As crises eclodiram. Os programas sociais, a economia, a saúde, a segurança pública, a educação; tudo entrou em ebulição. Tínhamos manifestações de milhares de pessoas a todo instante, a todo o momento, dos mais variados grupos, que também embarcavam todos aqueles que endossaram a candidatura de Aecio Neves. Nas manifestações ocorridas na Avenida Paulista, não era difícil ver um grupo cristão de um lado cantando louvores e do outro lado da rua pessoas com uniformes militares pedindo intervenção. Não era incomum vermos posições nazistas claras contra a raça dos negros, amparadas por toda essa revolta popular com a situação do país. Não era incomum vermos extrapolações da liberdade de expressão individual. Havia um claro sentimento de “matar ou morrer”.

Paralelamente a isso, as redes sociais borbulhavam. O pequeno progresso econômico da classe menos favorecida nos anos de governos petistas permitiu a aquisição de materiais eletrônicos e a internet definitivamente se tornou realidade no país e, visivelmente, o país estava aprendendo a se expressar e se organizar politicamente em sua jovem democracia.

O ano de 2016 talvez foi o mais caótico para a combalida população brasileira. Em mais uma amostra do modus operandi particular das investigações policiais denominadas Lava a Jato, o juiz centralizador divulgou grampos telefônicos ilegais da então Presidente da República, o que por si só já se configurara violação à soberania social, mas a convulsão social era tamanha que até hoje poucos se lembram deste crime grave ao país. Ali, nosso Supremo Tribunal Federal (STF) já não tinha forças e já não resguardava a Constituição.

Foi até onde as estratégias e planejamentos errados do PT conseguiram chegar enquanto governo.

Veio o impeachment de 2016, com a cadeira da Presidência sendo entregue a um programa de governo perdedor, conforme o resultado das urnas de 2014. O que presenciamos foram forças anti petistas obterem tanta força que ficou impossível se manter no poder. Com uma investigação implacável, que só tinha o Partido dos Trabalhadores (PT) como alvo, toda a convulsão social, aliada à perda do poderio financeiro de grandes influentes no país, somando uma série de decisões erradas do PT, como desonerações desequilibradas e as tentativas vãs de combate à inflação com um aumento abusivo dos juros, o partido não teve chances de lutar. Os que em 2014 colocaram o PT no poder foram os mesmos que o tiraram de lá dois anos depois.

Entregues a um programa liberal excessivamente agressivo, vimos inertes, sem poder de lutar, ao desmantelamento das riquezas nacionais, desarmamento da população de suas garantias individuais e trabalhistas, o desequilíbrio da balança pró empregador, o congelamento criminoso de investimento público e quase uma reforma da previdência devastadora para a classe trabalhadora. O sentimento de impotência imperou nas esquerdas. Perdemos o apoio social. Não estávamos em maioria. Nas redes sociais, mentiras criaram um mito.

Redes sociais: A criação de um mito

Paralelamente a todos os fatos citados acima, o crescimento do alcance da internet banda larga estava a pleno funcionamento, enquanto a população adquiria com entusiasmo cada novo Iphone que era lançado. Quem não tinha seu perfil no Facebook parecia que estava em outro planeta. O Twitter já era usado por famosos e muitos políticos pelo mundo e o Instagram estava em um crescimento muito vertical de usuários. O Whatsapp era imprescindível para a vida. O YouTube era uma novidade muito divertida. A era tecnológica e da informação, via digital, havia chegado de fato no Brasil. A sensação era de um mundo novo por vir, um mundo tecnológico, em que a informação é difundida rapidamente.

As manifestações anti Dilma e PT que ocorreram desde 2013, especialmente aquelas ocorridas em 2015, tiveram uma influência e ajuda enorme das redes sociais. Pontos de manifestação eram rapidamente divulgados e compartilhados nas redes e, um tempo depois, a mobilização já estava maior. Todos presenciávamos algo inédito no país.

No YouTube e Facebook, o clamor geral era para a ascensão de um líder fora da política, fora do estabilishment, anti político, que não comungava com valores morais da classe política. Nas redes, além da glorificação ao juiz central Sergio Moro, outro político estava ganhando mais e mais adeptos: Jair Bolsonaro.

Bolsonaro faz parte do espectro político fisiológico, aquele vulgarmente denominado como “baixo clero”, ou seja, nunca foi um político com muitas convicções, com trabalhos marcantes, sempre sendo mais lembrado por uma discussão no programa da Luciana Gimenez ou dos embates com Maria do Rosário ou por causa de suas peculiares manifestações anti minorias, notadamente contra os homossexuais, do que por seu trabalho de fato. A particularidade maior era que Bolsonaro sempre foi um ferrenho defensor do regime ditatorial militar. Para o mesmo, talvez fosse o melhor período político brasileiro. Afeito às práticas de tortura, nunca escondeu seu fascínio pelo Coronel Ustra, primeiro torturador devidamente julgado em um processo legal.

Mas, curiosamente, foi apelidado de mito nas redes sociais e internet no geral.

Outro fato marcante e curioso da jornada política de Bolsonaro foi quanto aos temas de segurança pública, em que era comumente aplaudido por milhares de pessoas. Sofismas e frases prontas eram exaltadas. Bolsonaro sempre foi eleito pelo Rio de Janeiro, sendo que aquele estado estava em iminente caos social, desencadeado pela violência sem limites.

Mas mesmo assim a figura do salvador da pátria, tão comum aos brasileiros para eleger seus representantes, era a narrativa que estava imperando. Apesar de Bolsonaro nunca ter lutado contra a vinda da Copa do Mundo e para ajudar o transporte público, fatos estes que iniciaram a inesquecível primavera de 2013, bem como nunca ter efetivamente liderado ou organizado ou proposto frentes contra corrupção, bem como ter sido apenas mais um parlamentar entre os figurantes do impeachment, que estavam sendo estrelados pelo então deputado federal Eduardo Cunha, vice presidente Michel Temer e a cúpula do PSDB, a fama de nacionalista e um verdadeiro herói estava sendo muito reforçado nas redes sociais.

Os fatos não ancoravam e justificavam a guinada de Bolsonaro, mas o que estava sendo dito nas redes sociais sim. Houve a cristalização / implementação de toda uma narrativa que estava sendo falada nas redes: a culpa pelo o que o país está passando não é uma briga política ou de poder que está jogando à margem a população brasileira, e sim um socialismo implementado durante os anos de governos petistas, alinhadas à uma silenciosa arquitetura revolucionária internacional, que levou à falência social, educacional e moral brasileira. Esta narrativa era muito forte e foi impulsionada pelas investigações policiais Lava a Jato. O sentimento de que toda a classe política estava podre e falida era geral. Não havia mais salvação na política.

Logo, haveria de aparecer um Messias. Para muitos, o Messias era Lula. Para outros, o Messias era Jair Bolsonaro.

A guerra de informações entre o bem e o mal foi difundida, sendo que a Lava a Jato, amparado por um complexo sistema de poder de comunicação, teve voz ativa nesse processo. O inimigo do povo estava claro: o ex Presidente Lula e todo o esquerdismo.

O poder das redes sociais foi tamanho que Jair Bolsonaro foi lançado à referência militar, mesmo ele tendo sido praticamente expulso da corporação antes de ser político. Foi lançado à referência nacionalista, mesmo tendo votado contra o Plano Real e a favor de diversos projetos privatistas e de parcerias público privada que devastou o patrimônio nacional e demonstrando mais apreço e orgulho aos EUA e Israel do que ao próprio Brasil. Foi alçado como unificador, mesmo tendo diversos materiais que demonstram, durante o passar dos anos, seu desmerecimento à mulheres, indígenas, negros e homossexuais.

Quer ordem e estabilidade na segurança, mas seu discurso é completamente violento e truculento. Foi  alçado como salvador econômico, mesmo o próprio admitindo não ter a mínima ideia do que isso implica. Foi considerado um anti político, mesmo o sendo há mais de 28 anos. Foi considerado um combatente dos privilégios absurdos que imperam no Brasil, mesmo sendo um dos maiores exemplos de como se legislar em causa própria, como seus sucessivos auto aumentos de salário e utilizador ostensivo de tais privilégios.

As eleições de 2016 e seu presságio

Os acontecimentos de 2016, ano do impeachment, da divulgação das espúrias gravações ilegais e das diversas prisões de políticos, majoritariamente ligados ao PT, deixaram a sociedade impactada e chocada, principalmente aquela proveniente do estado do Rio de Janeiro. Lá, a corrupção descoberta foi tanta que paralisou seu funcionamento. Naquele ano, haveria as eleições municipais, a primeira eleição em que de fato iríamos descobrir os efeitos da Lava a Jato no resto do país.

Para a esquerda, nada poderia ser pior. A perseguição por meio de aparatos judiciais à ideologia estava clara. O STF permanecia rendido à Curitiba. Nenhum partido foi tão achincalhado e humilhado como o PT.

Além de tudo isso, as redes sociais, diuturnamente, propagavam que o comunismo e/ou socialismo iriam nos levar ao caos. Mas o caos que estava implementado na sociedade teve origem nos gabinetes de políticos de direita, que, incansavelmente, trabalhavam contra a sociedade e asseveraram a crise fiscal enfrentada. Porém, as redes sociais fizeram estas coisas ficarem invisíveis, como se não existissem. Tudo não se passava de uma afirmativa mentirosa do PT, eles eram nosso verdadeiro problema.

Então, em Outubro de 2016, a primeira grande derrota da esquerda e do PT, eleitoralmente, foi conhecida. Diversas cidades foram tiradas do domínio petista. Seu algoz, o PSDB, que naquele momento estava intacto, foi o grande vencedor, partidariamente falando.

Entretanto, em que pese as prefeituras terem caído no colo do PSDB, nas redes sociais e no linguajar do povo quem foram os verdadeiros vencedores foram a moral, o bem, o conservadorismo e o combate ao socialismo. O PSDB foi apenas o meio temporário para se alcançar este resultado.

A guinada rumo à falsa imparcialidade

Após a derrota imposta à esquerda e ao PT, nas investigações policiciais Lava a Jato, a  sensação era de dever cumprido. Foi livrado o país, pelo menos naquele ano, das forças do mal que estavam imperando no país, porém, a sociedade não estava perdoando a parcialidade dos investigadores, que identificaram, até então, diversas denúncias de irregularidade dos mais variados políticos e partidos, mas só as denúncias contra o PT eram levadas adiante. Até mesmo denúncias completamente vazias, como uma pretensa corrupção em compras de caças para a Força Nacional e arquivo de acervo presidencial foi levado à exaustão. A parcialidade era nítida e a operação estava em cheque.

Eis que houve a falsa guinada da operação a uma imparcialidade que nunca existiu, mas que refrescou corações. Maior bancador da operação até então, o PSDB não foi poupado, bem como o PMDB, partido que tomou o poder em 2015/2016, com seus caciques em provas de corrupção que faziam as denuncias petistas parecerem peças amadoras.

Começou, ali, logo após as eleições, a desmoralização da política por completo pelas  delegacias de polícia.

Porém, o mito criado em torno de Bolsonaro permanecia intacto, haja vista que as investigações não o tinham como alvo, nem queriam chegar perto dele.

Foi-se criando o ambiente perfeito para ele e todo espectro da direita.

A relação entre as redes sociais e as estratégias da esquerda

Quando a esquerda se deu conta do quão eficiente são as redes sociais, muito tempo já havia se passado. Com o Presidente Temer envolvido em muitos escândalos de corrupção, fragilizou- se. Momento ideal para uma nova subida da esquerda, do Lula e do PT. O problema era os diversos empecilhos judiciais, fraca representação no Congresso e fragilizado poder influenciador. Paralelamente a isso, a Lava a Jato estava focada em prender o líder popular e não dava fôlego e sobrevida aos petistas. Nesse cenário de correria, a esquerda viu nas redes uma forma de mudar a história que estava sendo contada.

Contudo, o que a esquerda não previa (até com certa ingenuidade) era o fato de que ali já era um campo dominado. A direita e a extrema-direita já haviam convertido fiéis e são eles quem davam as cartas digitais. O que a esquerda constatou é que era um campo difícil de ser penetrado, pois os feudos já tinham donos. Ainda, se surpreendeu com a organização destes grupos, que minavam qualquer crescimento de uma ideologia oposta.

Nas redes sociais e na internet em geral, já havia um dono bem claro.

Passado muito tempo desde 2013, com o golpe parlamentar consumado em 2016, a perseguição judicial implacável desde meados de 2014, as demonizações dos ex Presidentes Lula e de Dilma, achincalhamento de políticos da esquerda, STF conivente com ações ilegais do judiciário em todo o Brasil e a criação de um novo mito, todos estes fatos derivaram e só puderam ser realidade devido às estratégias equivocadas da esquerda e, principalmente, do PT e de Lula.

Lá atrás, em 2013, Dilma e equipe petista subestimou a profundidade das reclamações e reivindicações populares. Ali, podemos considerar o divorcio do PT para com a sociedade. Rodeada de burocratas petistas que pouco tinham contato com o povo e com vozes ativas no governo, como Mercadante, Jaques Wagner e Cardoso, Dilma deu ouvidos a conselhos errados e, com suas ações através da caneta de Presidente, asseverou a grave crise fiscal que o país enfrentava no momento.

A sensação de que poderia usar Lula como casaco de proteção infalível se mostrou  equivocada. Dilma, a partir dali, foi surrada pela sociedade, que teve como constatação esse sentimento principalmente através as redes sociais. A realização de um governo completamente oposto ao que ela mesma havia prometido fez a romper com importantes organizações sociais, que até então davam a pouca base e viabilidade de governo.

A estratégia de ter Lula com voz política ativa no governo também se mostrou um desastre. Isso apenas asseverou a impressão de que eles tinham culpa da corrupção descoberta e da situação que o país estava passando. Além de que o judiciário interviu, incabivelmente, nos atos de governo.

O país estava divorciado com o PT não por causa da corrupção, mas sim porque pais de família perderam seus empregos, filhos estavam passando fome, jovens tiveram que ver suas faculdades trancadas e ter a sensação de um futuro roubado, o poder de compra do cidadão foi reduzido à quase nada.

Durante o impeachment, as ações e estratégias do PT também se mostraram equivocadas.  Não estava havendo um processo “de verificação de contas com base na Lei de Responsabilidade Fiscal”, e sim um escrutínio de tudo que o PT fez no governo federal e um julgamento moral e político por políticos que realizavam as mesmas práticas. Foi um grande teatro com apoio popular, mas cujo resultado já sabíamos. Mesmo nestas condições, o PT se mobilizou como se o que estava enfrentando fosse decorrente de uma normalização institucional, não que houvesse todo um plano arquitetado de dentro do governo para a tomada do poder.

Talvez esse tenha sido um dos maiores erros do PT.

A facilidade com que tomaram o poder, a falta de combatividade do PT nesse período foi muito evidente. Tão evidente que o partido sofreu uma desintegração com muitos deputados, prefeitos, vereadores e senadores saindo do partido para não serem mais vinculados aos petistas. O enfraquecimento era evidente.

Foi selado por todos nas redes sociais: A culpa de toda essa desgraça do país é do PT!

A confusa estratégia do PT para com as investigações sobre o Lula

 Diante do cenário achincalhador e de plena perseguição judicial que o PT e, especialmente, o ex Presidente Lula estavam enfrentando, evidenciava-se que era estritamente necessário um combate ao que vinha ocorrendo, pois o recado estava dado e era bem claro: A Lava a Jato não estava interessada em investigações de corrupção e sim em dizimar o PT, Lula e as esquerdas em geral.

Logo quando do oferecimento da denúncia, num show midiático realizado pelo membro do Ministério Público Dr. Deltan Dallagnol, estava claro e muito evidente de que, por mais que Lula provasse sua inocência, seria condenado. A própria condução da investigação já tinha realizado diversos atropelos à lei penal, como a condução coercitiva do ex Presidente sem ser intimado em outrora (nota: as ilegalidades foram tão evidentes que o próprio STF, conivente com as práticas da Lava a Jato, teve que proibir a operação em utilizar o instituto jurídico).

Por mais incrível que possa parecer, a defesa de Lula agiu sob um aspecto, novamente, de normalidade institucional, outorgando a defesa de Lula apenas em nível jurídico, ou seja, respeitar um propenso devido processo legal que, com o passar do tempo, vimos que foi um julgamento de exceção. Correria nos prazos, peças que já estavam prontas há muito tempo, julgamentos de recursos em tempo recorde. Um nível de agilidade para fazer inveja a qualquer tribunal brasileiro, porém, adotado em apenas um processo.

Numa sentença extremamente capenga e altamente discutível (não é consenso até hoje a sentença do juiz central Moro), Lula é condenado na Lava a Jato, sendo este o auge da investigação.

Importante ressaltar alguns fatos nesse período: (i) a militância sempre foi de resistência, queriam um combate maior do PT; (ii) estavam fechados com Lula e o PT até onde fossem as investigações e (iii) o que não poderia haver era a auto entrega para a derrota. Para o Moro.

Pois bem, nem neste momento triste, quando Lula é condenado numa operação que tinha  esta finalidade, as estratégias do PT pareceram coerentes e coesas. Nem mesmo o fato do MP denunciando Lula por uma coisa e Moro o condenando por outra, o que por si só já é aberrante, parece que não foi suficiente para alertar o PT dos fins verdadeiros de todo esse processo. Lula e PT decidiram seguir com a briga apenas no campo jurídico. Erro crasso. Não haveria outro resultado.

O decorrer do tempo só afirmou essa narrativa. Um julgamento de exceção foi visto no Tribunal Regional Federal 4 (TRF4), e assistimos a mais um esmagamento da lei: Revisionismo de pena à desfavor do réu. Além do reforço de que, de fato, Lula foi denunciado por uma coisa e condenado por outra no mesmo processo.

No fim de tudo, o que foi julgado, similar ao processo de impeachment, foi tudo menos de fato o que estava sendo denunciado. O que foi julgado foi um governo de mais de uma década, seu modo de operação, seu modo de fazer política.

Tudo isso porque o PT não se atentou à um pequeno detalhe: As redes sociais já tinham definido a narrativa da história. As sentenças, recursos, decisões interlocutórias e despachos eram apenas acessórios para se chegar a essa narrativa.

Ao fim de todo o processo, não entrando no mérito desse texto a espúria decisão do STF que relativizou uma cláusula pétrea, fixo no Sindicado dos Metalúrgicos do ABC e rodeado de milhares de militantes, Lula e PT decidiram trair o único pedido de sua militância que ainda restava: Não se entregar facilmente a Moro e Cia. Porém, hoje, sabemos que até esta última súplica foi ignorada pela cúpula do PT e de Lula.

Eleições de 2018 e a maior traição de Lula e PT para com sua militância e para com o povo brasileiro.

Diante do cenário de caos, onde garantias individuais estão sendo relativizadas, bem como a lei têm sido diariamente violentada, crise econômica, desemprego nas alturas, informalidade cada vez mais alta, Presidente que não governa mais nada, o Rio de Janeiro em ebulição social, dentre outras tragédias brasileiras, tudo nos faziam olhar para as eleições de 2018 e, claro, o PT teria participação fundamental nesse jogo. Só que o que a esquerda não esperava era que Lula e PT iriam promover, novamente, mais um erro de estratégia e de planejamento.

Lula foi condenado em segunda instância e preso por volta de Abril de 2018. Todos os brasileiros já conheciam a lei da ficha limpa, amplamente divulgada pela mídia e redes sociais. Todos já sabíamos que Lula não iria ser candidato para a Presidência, mesmo se mostrando resiliente e liderando em todos os cenários uma corrida presidenciável, com quem quer que seja.

Contudo, todos sabiam a esta altura que o Lulismo é maior que o petismo, ou seja, Lula sem PT continua sendo Lula, PT sem Lula é um partido caído à desgraçada por descobertas de corrupção e má gestão pública. Logo, não havia no horizonte nenhuma possibilidade real do PT ganhar, haja vista que Lula não poderia ser candidato e nenhum outro membro do partido tem tantas chances de vitória como Lula.

Neste cenário, um nome na esquerda estava despontando: Ciro Gomes. Ciro esteve presente desde as fatídicas manifestações de 2013, se apresentando como uma pessoa de centro- esquerda e que tinha ideias totalmente novas para governar o país.

Ficha limpa, ao contrário de muitos petistas, Ciro Gomes se mostrou como um candidato viável, pois sua proposta nacional desenvolvimentista abraçava completamente as necessidades atuais do país. Além de ter se preparado a vida toda para este momento, Ciro tinha sido muito duro com o PT, porém, muito leal à Lula.

A candidatura de Ciro Gomes foi uma coisa que desagradou demais o PT, pois Ciro se mostrava (e ainda se mostra) muito superior e mais bem preparado técnica e politicamente do que qualquer outro petista. O discurso de Ciro Gomes, tirando as amarras ideológicas da cegueira e o olhar atento à realidade do país, seduzia, enquanto a narrativa do golpe e do “Lula Livre” naufragava. Ciro cada vez mais vinha ganhando adeptos para fazer essa frente progressista contra o neo conservadorismo em ascensão no país. Muitos já nem cogitavam PT disputar o poder.

Eis que veio o pedido espúrio de Lula à Ciro: Ser vice-presidente de Lula numa chapa PT/PDT. A recusa foi óbvia da parte do Ciro. Não é porque Ciro respeita Lula que também respeita e outorga os petistas. Claro que essa recusa deixou todos os petistas, incluindo Lula, um pouco ressentidos.

Tudo isso ocorrendo em paralelo à alavancagem de Jair Bolsonaro e seu batalhão de mentiras nas redes sociais. Ou seja, o inimigo ideológico e eleitoral era Bolsonaro, logo, Ciro e PT começariam a lutar contra ele e sua onda violenta. Porém, incrivelmente, o PT elegeu Ciro Gomes como seu inimigo.

A grande briga entre as esquerdas aconteceu quando Lula e o PT insistiram com uma chapa que não iria nunca existir: Lula Presidente e Vice Presidente Haddad. Lula e PT decidiram levar essa candidatura até as últimas consequências e, como são as eleições, coligações e apoios são necessários. Por intermédio de Lula, o PT intercedeu uma negociação entre Ciro Gomes e o

PSB e fez esse último retirar todo apoio que daria à Gomes a troco de imparcialidade. Parece uma simples ação eleitoral, porém, essa ação em particular foi muito mais profunda, pois contrariou milhares de militantes e minou, ou seja, jogou por terra toda chance de vitória de Ciro Gomes nas eleições de 2018, o deixando com uma campanha minúscula, sem recursos financeiros e sem tempo digno de campanha.

Não adiantou nem os militantes mostrarem suas indignações. O PT não deu ouvidos aos mesmos, bem como também demonstrou total soberba em tratar Ciro do jeito que tratou. O pior disso tudo: Lula e PT demonstraram para o Brasil que não estavam mais preocupados com o futuro desse país e sim preocupados com o futuro dos dirigentes do PT e de Lula. Uma demonstração de traição que não será perdoada pelos militantes de esquerda e, acima de tudo, pelo povo brasileiro.

Levar essa candidatura que nunca existiu foi outro grande erro de análise. Enquanto Lula e o PT estavam nesse teatro de ilusão, os debates indo acontecendo, e o PT e a esquerda estava sofrendo ataques de tudo quanto é lado. As narrativas da história estabelecidas nas redes sociais eram endossadas por candidatos como Alvaro Dias, Meirelles, Marina, Bolsonaro e Alckmin durante as campanhas, sendo que só Ciro Gomes estava, de fato, dando alternativas à esquerda. Isso aprofundou no povo a sensação de que o PT é o culpado por tudo o que aconteceu no Brasil.

Há vinte dias da eleição, a estratégia do PT continuou a todo vapor, com uma chapa poste Haddad e Manuela. A propagando Lula é Haddad e Haddad é Lula soou como um insulto. PT não estava mais preocupado com o país.

PT é problema de tudo. Bolsonaro é a salvação. Se você está contra Bolsonaro, é PT.

As marcas profundas da agressividade ao modo de fazer política do PT estavam evidentes, porém, do outro lado, quem estava despontando era um candidato racista, homofóbico, segregador, misógino e sectarista. Logo, as minorias se unirem era mais do que conveniente e, até mesmo, óbvio. Além de tudo, as mulheres se unirem era necessário, haja vista a truculência de Bolsonaro e sua campanha.

Assim criou-se o movimento “#Elenão”, movimento liderado por mulheres, mas que foi complementada por todos os grupos que compõe as minorias sociais.

Este movimento foi bem maior do que a esquerda imaginava, porém, mais uma falha de análise foi percebida: O que as redes sociais estavam falando e estavam indicando. As redes sociais estavam dando a direção, a narrativa de tudo o que acontecia no país.

E este lindo movimento foi associado ao PT, ao Lula.

As redes sociais ainda construíam e trabalhavam para um mito.

Reta final de campanha e apoio determinante das igrejas protestantes

Na última semana, evidenciou-se o que estava claro: Ciro Gomes apresentava uma proposta completamente distinta da de Haddad e PT, enquanto os mesmos apresentaram um programa vazio, sem garra e sem identidade para com o país. Pior ainda, a própria chapa fazia questão de lembrar que quem governaria e quem daria as cartas era Lula, ou seja, Haddad nada mais seria do que um poste, no jargão político.

Aqui, tivemos uma esquerda fragmentada. Boa parte dos progressistas e dos que  analisaram as propostas, viram em Ciro Gomes uma pessoa capaz de conduzir o país nos próximos anos com uma política de conciliação, que ataque as mazelas do país mas que não comprometesse o lado social e assistencialista do governo. De outro lado, apoiadores de Haddad, sem muitas perspectivas de governo, mas com a convicção de que, com a ajuda de Lula, ele poderia fazer o Brasil feliz de novo…  mero devaneio.

Os fatos determinantes na reta final foram as conclusões relacionadas ao movimento “#Elenão”. Como já abordei um pouco acima, as redes sociais ditaram a conclusão do movimento: Se não à Bolsonaro, sim à Lula e ao PT. E o PT já não é o partido escolhido pelo povo, nem mesmo o PT está se atentando às necessidades do povo.

Inegável dizer que esse foi entendimento de boa parte da população e que o tamanho das manifestações em 29 de Setembro influenciou diretamente o voto de muitas pessoas. Dentre tais, muitos evangélicos.

Isso ficou ainda mais profundo quando observamos que diversos líderes religiosos estavam ordenando seus fiéis a votar em Bolsonaro. Nas pesquisas de semana passada, reta decisiva para as eleições, houve uma curva vertical para com as intenções de votos de Bolsonaro, e as igrejas protestantes começaram a fazer campanhas maciças nas redes sociais e em seus cultos.

As campanhas sempre foram muito baixas e sujas. Eu mesmo tive acesso a conteúdos vinculados à igrejas em que o tom e os argumentos baixos foram absurdos, no modo típico da campanha dos Bolsonaristas. Na reta, houve a instalação de um pânico generalizado entre os cristãos, alardeado por seus pastores, muitos deles candidatos, inclusive. A onda pró  Bolsonaro foi automática.

A eminência de um novo governo de esquerda e o crescimento de Haddad, guinado por Lula, foi tocada nas igrejas com o uso do medo, pela insinceridade e toneladas de mentiras e ausência de esclarecimentos.

As redes sociais já estavam avisando onde isso nos levaria.

Dia 08 de Outubro de 2018

Escrevo este texto dia 08 de Outubro de 2018. Talvez seja o dia mais difícil e desanimador da minha vida. Escrevo este texto um dia após as eleições do mesmo ano, em que fomos às ruas saldar a democracia com nosso voto. O resultado, bem, o resultado destas eleições só nos mostrou como o Brasil pensa atualmente e, antes de tudo, como foi moldada a pensar nos últimos anos. Este texto é de uma pessoa de esquerda e certamente será endereçado para este grupo, grupo ideológico do qual pertenço, no qual luto, no qual me vejo incluído.

Não vamos nos iludir. A chapa Haddad e Manuela não irá governar o país. A derrota ontem foi acachapante e só é resultado de um desdobramento de fatos que datam desde 2013. A derrota petista e da esquerda já estava decretada desde essas datas. A esquerda foi varrida no país, não só na eleição presidencial. A derrota nas frentes legislativas estaduais e federais e no Senado foi sonora.

É um recado claro do povo Brasileiro e que nós, da esquerda, não podemos negligenciar.

O PT, como demonstrado neste texto escrito de modo enxuto e objetivo, já não vem se centrando no povo há alguns anos e o pior, demonstrou, com suas próprias ações, que só tem um objetivo: Alcançar seu projeto de poder. Nisso, a entrevista de José Dirceu semana passada caíram como uma bomba que nos levou a entender exatamente isso.

A derrota ontem foi impressionante. Grandes nomes petistas e da esquerda foram esquecidos pelas urnas. Dilma Rouseff, eleita duas vezes presidente do Brasil, sequer conseguiu um segundo lugar para uma vaga ao Senado. Eduardo Suplicy, grande nome pensante na esquerda, sucumbiu pela segunda vez. No Rio de Janeiro, Lindbergh Farias também sucumbiu ao Bolsonarismo. Em outros estados, o ocorrido foi o mesmo. Nas cadeiras de governadores, o PT teve desempenho pífio em São Paulo. Em Minas Gerais ocorreu a mesma coisa. No Brasil, o padrão se mostrou idêntico.

Para a Câmara Federal, a ascensão Bolsonarista foi tanta que seu minúsculo partido, o fisiológico PSL, de aluguel e sem raízes ideológicas, se tornou o segundo maior da casa, perdendo apenas para o PT e superior à bancada do PSDB e PMDB.

Como exposto durantes as páginas deste texto, necessidades de reflexões a todo instante batem na porta do PT. De uma forma ou de outra, o PT ainda é a referência para a esquerda, haja vista sua história de luta, haja vista como foram seus governos e o tamanho e estrutura  do partido. Mas erros de leitura e de governo têm limites.

Não podemos nos deixar enganar. Há sim uma perseguição política e judiciária contra o partido e tudo o que ele representa, porém, houve muitos erros nos governos. O principal deles, talvez, foi ter trazido PMDB para a base, mas o que fadou o partido à derrocada foi a falta de fiscalização de seus membros, que praticaram corrupção.

Os erros políticos discutidos neste texto foram decorrentes, principalmente, de análises políticas torpes e equivocadas pelos líderes do partido. Houve um equivoco geral quanto ao impeachment e, principalmente, nas eleições. E o pior, o partido em nenhum momento dá sinais de que irá fazer uma reflexão de seus erros.

É um recado claro que não podemos deixar desapercebido: Ou a esquerda levanta a cabeça e comece a pensar em uma nova vida sem Lula e sem PT, ou estaremos fadados, pelo menos num período de curto / médio prazo, a derrotas como as de ontem.

A esquerda está cansada de pedir reflexão e não ser atendida e ainda ter que aturar políticas sem conexão com a realidade.

O povo já decidiu que não quer mais ser liderado pelo PT.

Algo profundo mudou no Brasil

Concluindo, conforme tentei deixar bem claro ao longo deste texto, algo profundo mudou no Brasil. Trata-se da tecnologia, da internet e das redes sociais.

As redes sociais ditaram estas eleições de 2018. Esta tendência já havia sido verificada nas eleições dos EUA, porém, no Brasil foi mais profundo, pois o Presidente da República foi eleito basicamente manipulando informações e a verdade durante um período de tempo. O jogo foi sujo, baixo, tudo sob a batuta das redes sociais.

No fim das contas, tempo de televisão e rádio não determinaram nada, bem como sequer mudaram tendências de votos ou exploraram os projetos apresentados. A mini reforma política promovida pelo então Deputado Federal Eduardo Cunha só piorou e distanciou a política dos cidadãos. Menos para aqueles que souberam utilizar as redes sociais.

Aqui em São Paulo, basicamente o rol das dez primeiras colocações de candidatos a deputado federal e estadual são de pessoas que dominam estas redes sociais. No resto do país esta afirmação prevalece.

A direita e extrema-direita tomou este campo. A esquerda está iniciando ali, há um evidente desequilíbrio, porém, se quisermos nos manter vivos e ainda com a esperança de um futuro melhor, dominar e domar as redes sociais é mais do que necessário.

Daniel Fernandes da Silva é advogado, bacharel em Direito pela Universidade Nove de Julho e pós-graduado em Controladoria pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

 


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Terça-feira, 9 de outubro de 2018
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