Democracia: tempos tardios para todo e qualquer maniqueísmo
Quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Democracia: tempos tardios para todo e qualquer maniqueísmo

Arte: Caroline Oliveira

É de extrema relevância o entendimento de que a política está para além de esquemas binários de raciocínio

Após assistir ao filme argentino El Clan, dirigido por Plabo Trapero, peguei-me pensando sobre a frágil linha que nos separa da barbárie. Em geral, levamos a vida como se ela fosse coisa dada, comum e natural. Contudo, ao revés disso, somos guiados por regras básicas que garantem, entre a padaria e a nossa casa — ressalvas sejam feitas — que possamos exercer nossas vontades e usufruirmos de nossa existência de forma livre e democrática. Essa linha, claramente, volta a ser ameaçada na atual circunstância, de uma forma ou de outra.

A partir do momento em que usamos de argumentos para legitimar e justificar ações cometidas, pelo Estado ou por grupos quaisquer, que atentam contra a segurança física, cognitiva e polítca do outro, estamos colaborando para que a linha entre civilidade e barbárie se torne difusa, opaca e escorregadia.  Damos brecha para que ideias de tom arbitrário e que desrespeitam à integridade humana e o direito de defesa tomem espaço no debate e espaço públicos, dizendo-se em nome do “cidadão de bem”, confundido, lamentavelmente, como algo democrático. Tais ideias, por vezes, aparecem no seio de nossas instituições ou emergem em nosso cotidiano revestidas de naturalidade e de boa intenção, ambas suspeitas.

De seus motivos, o mais preocupante é o maniqueísmo que se instaura na política, que demoniza as ideias e projetos alheios, criando uma atmosfera de radicalização bipolar, que justifica como correto e necessário qualquer ato violento contra o outro, passando por cima dos direitos que garantem a própria defesa, a privacidade e a liberdade de trânsito, de expressão e até mesmo de vida.

Convivemos com tais discursos, queiramos ou não. Eles enquadram comportamentos, ideias, gostos e formação dentro de um espectro político que no Brasil vem, sobretudo agora, tornando-se binário. O que se vê na opinião pública é que nada escapa a esse esquema, e que há uma tensão entre um e outro que, pelo andar da carruagem, já configura uma disputa violenta entre ambos os lados. Se antes os inúmeros exemplos nas redes sociais, onde questões que são de âmbito político e público eram discutidas, e ainda o são, como se dissessem respeito ao privado e pessoal apenas, agora reverberam no espaço público com linchamento de pessoas e ataque a monumentos e a uma memória que dizem respeito às minorias e à diferença. Tais pessoas e monumentos têm um endereço político e social: são, principalmente, pessoas e memórias de um passado que representam a diversidade e que estão no seio de toda luta e projeto político por um país igualitário, justo e democrático. O linchamento até à morte de José Antônio González de dezenove — dezenove anos! — em Roraima e o vandalismo contra a placa que nomeava a rua com o nome de Marielle Franco não são acontecimentos isolados. José, estrangeiro venezuelano em fuga de seu país que enfrenta uma das maiores crises de sua história.

 

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Testemunhamos um ódio peçonhento que tem sido respaldado pela sociedade e, infelizmente, muitos dos que o sustentam fazem parte, inclusive, de seu alvo. Indivíduos, às vezes muito próximos de nós mesmos, erguem-se em defesa da violência contra o outro, calcados em uma moral e ética fajutas, em nome da religião, da política, da nação e da propriedade. Deparamo-nos com falas nas quais a defesa da supressão de sujeitos e de corpos do espaço público ou a discriminação crua são apresentadas como saída lógica para problemas que são estritamente sociais e políticos, e que demandam um comprometimento maior do Estado na defesa dessas pessoas — o que está, aliás, em risco maior, visto que tal discurso ameaça a compor de vez as instituições.

Reside aí o maior perigo da naturalização de nossa realidade, problemas que são sociopolíticos são compreendidos como condições que já estavam dadas e que não possuem solução a não ser a subtração e controle do outro pela violência. Quando, na verdade, são resultados de escolhas de âmbito político e público que foram tomadas ao longo dos anos e que nos levaram até o presente momento, não necessariamente de forma linear. Isto é, são marcas históricas.

Essa saída, equivocadamente lógica, da deslegitimação do outro como um meio plausível, ao menos para mentes mais imediatistas e egocêntricas, faz-me lembrar de uma passagem da obra do escritor britânico J. R. R. Tolkien (1892-1973), O senhor dos anéis (1954-1955). Em uma passagem da trilogia, Frodo, representação da esperança num momento em que uma grande guerra e um futuro obscuro se aproximavam, expressa a vontade de ver morto a personagem Gollum, que caíra em desgraça, levada pelo vício e ganância. Gandalf, um homem sábio, domado pelas rédeas da inteligência e sensatez, então, repreende a Frodo com a seguinte resposta:

Muitos que vivem merecem morrer. Alguns que morrem merecem viver. Você pode lhes dar a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém a morte, pois mesmo os mais sábios não podem ver os dois lados.

 

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O apontamento, com ares de um Cristo de uma Idade Média fantástica, que o escritor inglês nos faz a partir da fala de Gandalf está ligado à necessidade imprescindível de sermos empáticos. Colocarmo-nos no lugar do outro e entender as causas de suas ações, sofrimentos e desejos, além de assumirmos para nós mesmos que não podemos ser a medida de todas as coisas. Como um compositor baiano dizia: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, não nos venha dizer a malícia inventada sobre o outro. Compreendermos, portanto, que certos problemas sociais são ligados a questões que estão para além do indivíduo é algo que tempos como estes nos exigem. Há de se ter sensibilidade para com o outro!  A trilogia O senhor dos anéis foi escrita por Tolkien num período em que se viu a ascensão de Hitler e a expansão do nazismo na Alemanha, bem como o fascismo em países europeus e latino-americanos. A democracia e a liberdade individual sofreram ataques seguidos em nome de ideias nacionalistas, embasadas em uma moral excludente, violenta e supostamente cristã. Naquela altura, Gandalf, de codinome o Cinzento, representava a racionalidade e a ponderação num mundo dividido e tomado por perspectivas maniqueístas.

Hoje, presenciamos, novamente, essa exacerbação das discussões em âmbitos públicos, seja nas ruas, seja nas redes sociais ou nas universidades, à maneira que tomam um formato bipolar, num sentido de “se não está conosco, está contra nós”. A ponderação passa ao largo, enquanto um grupo demoniza ao outro, e vice-versa. O que torna o abismo entre as partes ainda mais agudo com a inviabilização do diálogo, ao passado que o ódio toma os corações e fala por nossas bocas.

É mais do que necessário assumir a complexidade da política e da nossa cultura. É de extrema relevância o entendimento de que a política está para além de esquemas binários de raciocínio: há divergências e distinções internas tanto nas esquerdas, quanto nas direitas. Sobretudo, é urgente que compreendamos que o outro não pode ser desqualificado pelas suas diferenças (seja racial, sexual, social ou política), e que estas compõem a verdadeira riqueza e força de nossa democracia.

Estamos em um momento no qual os estereótipos apenas aprofundam a distância entre os diversos grupos que formam nossa sociedade e que ameaçam às medidas tomadas em âmbito público. É de suma importância que sejamos cada vez mais inclusivos, sensatos e que saibamos ouvir, expor e aprender com as inúmeras diversidades de nossa realidade, sem que faltemos com o respeito e a ética para com nossos interlocutores. Do contrário, a crise política em que vivemos só se fará acentuar e seremos todos vítimas e testemunhas de experiências que o passado, mais do que nunca, insiste em nos trazer à memória. Apesar dos pesares, nunca foi tão urgente que abracemos, de uma vez por todas, à democracia!

 

Marcos Vinícius Gontijo Alves é licenciado em História, e bacharelando pela Universidade Federal de Minas Gerais.


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[1] HOLLANDA, Sérgio Buarque de. O homem cordial. In.: Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das letras, 1995, p. 139-152.

[2] TOLKIEN, J. R. R. O senhor dos anéis. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

[3] Ibidem, p. 61.

[4] Sobre o espectro e a conjuntura políticas no Mundo e no Brasil ver entrevista conferida pelo prof. dr. Rodrigo Patto a Ewerton Ribeiro para o site de notícias da Universidade Federal de Minas Gerais em dez. de 2016. Disponível em:<https://www.ufmg.br/online/arquivos/046192.shtml> Acesso em: dez. de 2016.

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