Bolsonaro é um boçal?
Quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Bolsonaro é um boçal?

A língua é rica e viva. Ela pode nos surpreender com a historia que está por trás das palavras que usamos

O resultado do primeiro turno para Presidência trouxe alegria e euforia para alguns, tristeza e desespero para outros. Em se tratando de Bolsonaro x Haddad, as emoções são, digamos, bastante polarizadas.

E em meio a esse esforço colossal de se tentar dizer que um ou outro candidato é uma ruim, tem sido frequente ler ou ouvir por aí que Bolsonaro é um boçal. Como linguista, pergunto a você que me lê: já parou para pensar o que significa a palavra boçal? Ou de onde vem o termo? Seria o candidato do PSL digno de receber tal alcunha? Vejamos.

Se você procurar a palavra boçal no dicionário, uma das definições possíveis é que ou aquele que é falto de cultura; ignorante, rude, tosco. E muito possivelmente esse é o sentido que as pessoas pretendem ao chamar Bolsonaro de boçal. No entanto, além desse sentido, há outro que traz o aspecto histórico do emprego do termo, que foi-se modificando ao longo do tempo.

De acordo com o Dicionário Encyclopedio, de 1874[i], “A palavra boçal vem do Italiano ‘abbozzado’ – esboçado (de bozza, que significa desenho tosco, esboço). Aquele que não fala ainda a língua do país em que se acha; dizia-se, propriamente dos pretos que vinham da Costa da África por oposição aos ‘ladinos’ ou nascidos no país; significa também: rude, noviço, ainda não ensinado, ignorante”.

Ou seja, o vocábulo era utilizado, no passado, para designar escravos que não conheciam a língua portuguesa. Uma triste curiosidade: membros da mesma família ou que falassem a mesma língua eram separados para evitar que usassem sua língua materna, forçando-os a aprender português para se comunicarem com os brancos.

E embora, como linguista, eu tenha plena consciência de que as línguas, todas elas, dão inúmeras voltas, e alguns sentidos ou a etimologia das palavras passem a ser desconhecidos de boa parte dos falantes, neste caso, eu gostaria de trazer algumas observações.

 

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Bolsonaro é um candidato de extensa vida em cargo eletivo. Serviu ao exército de 1971 a 1988. Já capitão, foi afastado junto com outro colega por um plano atribuído a eles de explodir bombas em unidades de uma Vila Militar. Em seguida, tornou-se vereador, cargo que ocupou por apenas dois anos, quando decidiu concorrer para deputado federal.

Esse foi o cargo que ocupou por quase 30 anos, até a corrida presidencial, e não sem poucas declarações polêmicas ao longo do caminho. Um dos exemplos: ao narrar sua visita a uma comunidade quilombola, disse de seus membros que eram tão gordos que sequer serviriam para procriar. Além disso, em entrevista ao programa Roda Viva, ao invés de se opor a qualquer manifestação de escravidão, ele é o candidato que defende que os negros foram escravizados por eles mesmos. Para Bolsonaro, os portugueses sequer pisavam na África para promover a escravidão.

Diante desse panorama, por que chamar boçal não é a melhor escolha para caracterizar Bolsonaro?

Em primeiro lugar, porque ignorante, um dos sentidos de boçal, é aquele que ignora, que não tem conhecimento. Após anos de vida pública e possibilidade de acesso a informações as mais variadas, o candidato do PSL não ignora as discussões presentes em nossa sociedade – e também na Câmara – sobre as diferentes minorias e o forte processo de exclusão que vivem e viveram em nossa sociedade. Nesse sentido, suas declarações não são fruto de desconhecimento, mas sim de desrespeito às pessoas e ao conceito mais básico de democracia.

Em segundo lugar, porque na origem do emprego da palavra está sua relação com a comunidade de escravos que foi trazida para e explorada neste país.

As palavras, que nada têm de inocentes, funcionam como uma espécie de atlas para compreendermos a história de nosso país. E por mais que o emprego de um vocábulo ao longo dos anos vá deixando para trás alguns sentidos ao passo que ganha outros, em tempos como o que vivemos é fundamental fazermos esse resgate para reconhecermos o lugar do racismo também na linguagem.

Boçal é uma dessas palavras que revela o racismo presente em nossa língua e em nossa sociedade. Talvez este seja o único elemento que a conectaria com Jair Bolsonaro: o racismo. Usada para caracterizar de maneira pejorativa os negros que eram explorados como escravos em nosso País. Retomá-la, no entanto, para caracterizar Bolsonaro é um equívoco. De nenhuma maneira me parece justo que o candidato seja colocado em paralelo com aqueles que tanto lutaram, e ainda lutam, para serem reconhecidos como indivíduos, para deixarem de lado o estigma de “desenho torto” que carregaram por tantos anos.

Bolsonaro é um boçal? Não necessariamente. Ele pode ser rude, barulhento, hostil. Mas é também inteligente o bastante para fazer uso dos recursos da língua justamente para chamar a atenção das pessoas para si, como se o que dissesse fosse apenas “modo de dizer”, “uma brincadeira”. Um fanfarrão em um espetáculo de palavras que incitam o ódio e o preconceito, ao mesmo tempo em que mantém seus eleitores ligados a ele. E essas artimanhas revelam o quanto ele está ciente do poder da linguagem e da comunicação.

Uma dica: estejamos também.

Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP, com passagem pela UniFreiburg, na Alemanha. Faz vídeos semanais sobre linguagem e comunicação (e otras cositas más) no canal do Youtube que leva seu nome.


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[i] De acordo com http://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/glossario/verb_c_bocal.htm

Quinta-feira, 11 de outubro de 2018
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