Brasil sob o signo da Guerra
Segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Brasil sob o signo da Guerra

Surgiu recentemente a notícia de que as ações da empresa Forjas Taurus, fabricante brasileira de armas, munições e outros artigos do gênero, estava em alta nos últimos meses, muito em razão da ascensão de Jair Bolsonaro na corrida presidencial deste ano. Contudo, analistas dizem que esta valorização é pura especulação, que a alta não possui sustentação devido aos planos que Jair Bolsonaro possui para a área: diz-se que o presidenciável propõe quebrar o monopólio que ostenta hoje a Taurus.

Se a abertura de mercado no Brasil para outros fornecedores de armas pode representar uma ameaça para a Taurus, para o mercado brasileiro de armas a ascensão de Bolsonaro é evento bem mais auspicioso. Eu não falo apenas do mercado de armas no varejo, com a ampliação de consumo que pode ocorrer com o “destravamento burocrático” para se comprar uma arma – a famosa revogação do Estatuto do Desarmamento. Falo também do que J. Bolsonaro representa como influenciador de hábito e como propulsor e agente de uma política externa.

Que Bolsonaro é mais forma que conteúdo, está cada vez mais claro. Seu forte são as suas performances, e nelas a sua marca registrada tem sido simular disparos de armas de fogo usando as mãos, esticando os dedos polegar e indicador. Todos os seus seguidores imitam este ato, tiram fotos, meninos arremessam seus braços pelas janelas dos carros fazendo o sinal da arma nas carreatas em apoio ao candidato. Garotos na escola, crianças de colo, os seus pastores neopentecostais. Nas redes sociais, eleitores exibem suas armas reais ao lado da urna eletrônica ou na companhia do cachorro vendo televisão. Todos os seus seguidores tiram fotos e celebram o seu candidato repetindo estes gestos. Tais gestos, repetidos à exaustão, acabam por trazer para o nosso convívio a constante presença das armas, ou a ideia de sua permanente presença. Não sei quanto JB está recebendo por isso, mas o fato é que está se saindo um excelente garoto propaganda.

 

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Se é verdade que ele vai abrir o mercado de armas para quebrar o monopólio da Taurus, também é verdade que ele precisa tornar o ambiente local atrativo para o consumo das armas. Isto é: além de gente comprando, é preciso que haja pessoas usando armas, munições, coletes etc. É preciso estimular o surgimento de clubes de tiro, liberar a caça, facilitar a abertura de empresas de segurança particular e, por que não, criar muitos conflitos internos. E JB está preparando o campo para isso. A preparação consiste em encorajar fazendeiros e posseiros a tomar as terras de indígenas, quilombolas e de ribeirinhos. Consiste em criar crises internas para justificar mais e maiores intervenções militares nas periferias das cidades brasileiras.

Mas talvez o consumo interno e individualizado não seja suficiente para atrair para o Brasil as fabricantes de armas. Assim, é preciso que a missão do messias militar abra o caminho para o consumo nacional de armamentos, e o candidato das armas vai pavimentando este caminho com a construção de muitos inimigos a serem eliminados. O inimigo do tráfico de drogas, o inimigo do ativismo que confronta os “valores da família”, o inimigo que defende as minorias. Como resposta a tudo isso, ele com certeza aplicará medidas que criem demandas para usar bastante dinheiro público na construção de cadeias, nas compras de armas, blindados, coletes à prova de bala, munições, bombas etc.

Tudo isso no âmbito interno. Mas no limite é possível recorrer também à ameaça do inimigo externo – a saber, o comunismo e/ou o bolivarianismo. Bolsonaro já disse que a Amazônia não é Brasil, que deve ser internacionalizada. Curiosamente, é a mesma região que nos encontramos e nos separamos dos perigosos bolivarianos da Bolívia e da Venezuela. Os Estados Unidos da América também possuem interesse na Amazônia, vêem a Venezuela como um entrave e ainda têm muitas restrições quanto à Bolívia. Assim, seguramente, a ocupação militar das fronteiras pode ser uma forma de “nos proteger” do bolivarianismo. “Proteger” a Amazônia, por exemplo, permitindo a ocupação de americanos, fazendo com que o Brasil se coloque como um intermediário do imperialismo americano na América do Sul.

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É claro que para isso também é necessário que haja força humana voltada para cumprir esta tarefa. As medidas de desproteção social, desemprego e baixa oferta de vagas nas universidades e institutos técnicos tornam a opção de servir às Forças Armadas com uma grande oportunidade na vida dos jovens pobres e negros das periferias. Experiência já testada nos EEUU, as FFAA vão passar a recrutar estes jovens para dar conta desta demanda, e quando isso se tornar corriqueiro, o Brasil poderá contratar os serviços de empresas que prestam serviços de forças armadas mercenárias – como também fazem os EEUU (EUA).

É uma grande oportunidade de o Brasil entrar na economia da guerra, e para os nossos jovens será uma nobre oportunidade de oferecer sua vida e sua morte para o combate ao comunismo e ao bolivarianismo nas fronteiras, assim como o será combater a ameaça aos valores da família. Crises de popularidade são frequentes nos mais diversos governos. Em geral, a respostas mais fáceis são medidas populistas e extremas. Com um militar à frente do governo brasileiro, todas as condições para responder com guerra a estas crises estarão postas.

Seria a passagem do Brasil como reconhecido player internacional do Soft Power para uma tentativa de potência periférica de Hard Power – com a ajuda dos 96 tanques que os norte-americanos já nos enviaram. Como Jair encarna bem a figura que não respeita protocolos, regras e etiquetas, a produção das mortes se dará nos parâmetros que Aquile Mbembe chamou de necropolítica, as formas de gestão da vida e da morte na periferia da modernidade. Assim, nos juntaremos aos desastres da Palestina, do Kosovo, do Kwuait, entre outras tragédias.

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E pensar que, a partir dos anos 30, o Brasil selou uma imagem tão forte de convivência harmônica e pacífica que, quando as Nações Unidas quiseram curar as chagas abertas pelo Nazismo na Europa, vieram buscar aqui a fórmula do respeito entre os povos e as raças. Será um marco na sua história quando a Conferência Anual da ONU for aberta por um sujeito que não partilha de qualquer valor universal, como o combate às desigualdades ou a defesa das liberdades individuais. Pelo contrário, fará um discurso pelos valores religiosos, pela defesa da família tradicional, pelo combate a “todas as formas de ativismo”, pela guerra contra o marxismo cultural, contra o Foro de São Paulo e contra o bolivarianismo. Mais marcante ainda será quando a Conferência for aberta com a frase de sua campanha eleitoral “Brasil acima de todos”, inspirado no hino-tema do Nazismo: “Alemanha, Alemanha acima de todos”.

Paulo Ramos é cientista social, mestre em sociologia (UFSCar) e doutorando Sociologia (USP). Seus temas são Relações raciais, Violência e Movimentos sociais.

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