“Querido Tio do Whatsapp”, uma carta, com amor!
Segunda-feira, 15 de outubro de 2018

“Querido Tio do Whatsapp”, uma carta, com amor!

Arte: Caroline Oliveira

“Acho que podemos afirmar sem medo de errar que a maior força política do Brasil no momento é o Tiozão do Whatsapp.” (…)

“O jovem, coitado, vai lá achando que vai ganhar corações e mentes compartilhando em rede social seus textos de Foucault, Marx, Adam Smith e Milton Friedman, mas no fim é uns ‘tio’ espalhando boato de Jean Wyllis casando com animal que define os rumos do país.”

Ricardo Coimbra, cartunista

Querido Tio,

As frases acima refletem para mim uma importante questão sobre o momento político do País. Falam do tio, mas pode também ser tia, primos, pais, avós, colegas de empresa.

Com minha caixa postal e o grupo da família cheios de Fake News compartilhadas por você, acabei virando de fato o fact-checker aí de casa: verificando para todos a veracidade dos boatos que você espalha. Veja, não estou falando de conteúdo informado ou interpretação relativa: falo de fotos e vídeos adulterados, capas de revista que nunca existiram, frases que nunca foram pronunciadas sendo atribuídas a pessoas. Não são divergências, são comprovadamente falsas. Mentiras. Você posta, eu desminto, e você torna a postar outra.

Não sei se você cogita, mas qual é a fonte desse material? Quem paga o técnico para adulterar a imagem, fazer o même, encontrar os grupos certos para disseminar e fazer a coisa viralizar? Você pode imaginar que seja o tiozão do tiozão do tiozão que criou esse conteúdo, mas não é. É material concebido por gente engravatada, traçando perfis com mega-dados das redes sociais, e monitorando a sua resposta. Se você recebeu e repassou o conteúdo, é porque esse grupo de engravatados apostou que conseguiria manipular sua opinião e instrumentalizá-la para influenciar os demais. E a aposta confirmou.

Se não acredita, busque saber sobre o papel da Cambridge Analytica no referendum sobre o Brexit ou na estratégia de Steve Bannon na eleição de Donald Trump. Seu preconceito e indignação foram extraídos do seus perfis e atividade nas redes sociais, transformados em um produto e vendidos como armas políticas para enfraquecer a democracia.

Até o presente momento, levei tudo isso com certa naturalidade. Muito pelo afeto familiar, gratidão pelo papel dos meus tios na minha criação e na tentativa de ter esportiva ao ser a ovelha negra nas discussões políticas da família. Não me engajei muito no debate, principalmente porque achei que faltava vocabulário comum às duas gerações, duas formações políticas.

Não consegui discutir as nuances da minha preocupação sobre a adequação processual da Lava-Jato aos padrões internacionais de direitos humanos, porque a sua posição de completa convicção de que o “Lula é um bandido” não se importa com provas ou presunção de inocência, advém de um posicionamento martelado lá no ‘Zap’:  ele é ladrão, deve estar preso, ponto final.

Também não consegui conversar sobre uma crítica real às falhas dos governos Lula e Dilma, os pontos controversos do plano de governo de Haddad, e alternativas a ele. A conversa nunca deu liga, porque não existe base fatual ou intelectual para debater a posição que o PT é comunista, análogo aos governos de Cuba e Venezuela. Qualquer cientista político ou analista são para você fonte secundária ao ‘Zap’, que tem te afirmado sem pestanejar que todo esquerdista é igual. Não consigo discutir nenhuma questão de direitos humanos no Brasil sem que você tente direcionar para a as violações da Venezuela. Mas quando eu tento discutir Venezuela, você traz de volta para o ‘comunismo’ do PT. É frustrante.

 

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Em um debate acadêmico, numa disputa política, no mundo externo ao nosso almoço de domingo, não perderia muito tempo conversando com interlocutores que procedem assim. Debate qualificado e civilizado é uma habilidade que se aprende e treina. Não é prazeroso se engajar com quem não obedece às regras mínimas de uma conversa edificante. O problema é que não posso desistir de você, a quem amo, respeito, e cuja convivência eu prezo. Então relevei, engajei-me pouco, e busquei falar de futebol e da vida familiar.

Mas confesso que tenho desenvolvido uma certa mágoa. Eu convivo dentro da esquerda, irrito-me também com as mazelas que se instalaram nesse grupo. Já inclusive escrevi sobre isso. Entendo, portanto, a satisfação ao ver a esquerda dar com a cara na parede, pagar pelos erros que cometeu, descer do salto-alto e ser forçada a lidar com coisas varreu para debaixo do debate. Ao vê-lo vociferar contra “comunistas” e “petralhas”, tentei empatizar com essas frustrações,que estão bem disseminadas na classe média,  ao invés de te excluir como intolerante.

Mas, poxa, quando você aplaude um candidato que pede que a esquerda seja erradicada, “petralhas metralhados”, e fala que ativistas de direitos humanos são o “esterco da vagabundagem, você lembra que essa ameaça me inclui? Que, se isso for levado a cabo, posso correr risco real de dano físico ou encarceramento arbitrário, só por falar o que penso, escrever o que escrevo, e me associar com quem me associo?  Pensou que outros defensores de direitos humanos, amigos e colegas que expuseram violações graves cometidas por policiais, estarão sob ainda mais risco? Que o próximo meme caluniando e difamando um defensor assassinado, como foi feito com Marielle Franco, pode ser sobre o seu sobrinho? Cogita que aquele casal de amigos gays que jogou baralho contigo na minha festa de aniversário agora tem motivos reais para ter medo?

Quando aplaude um candidato que pede que as minorias se adequem, ou simplesmente desapareçam, eu sei que você projeta isso em um militante bitolado exigindo tratamento especial, e não na minha filha com Síndrome de Down. Mas em quem você acha que eu penso?! Penso também nas minhas primas perdendo proteção contra discriminação no mercado de trabalho, retrocessos em sua habilidade de escolher quando, com quem, e de que forma se relacionam.

Pra você, o Whatsapp tem minimizado esse risco criando outro maior: o risco de um Brasil bolivariano, comunista, de feministas radicais e ativismo gay destruindo a família e a estrutura da sociedade. Porém, depois de 14 anos de PT, o Brasil continua capitalista, o sistema eleitoral e a separação dos poderes permanecem. E nossa família continua aí: com a mesma religião, todos fazendo suas escolhas econômicas, afetivas, políticas e culturais sem intervenção de ninguém. Não há ameaça ao pluralismo, nunca houve. Tivemos governos bons e ruins, mas a democracia e a liberdade estão acima disso tudo.  

Talvez você acredite que o candidato não estava falando sério, ou que não vá conseguir implementar essas ameaças. Mas me magoa que você esteja disposto a correr esse risco e endosse essas ameaças com seus compartilhamentos e com a sua zoeira.

 

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Desculpe, Tio, mas você já não é uma questão familiar mais. Seu compartilhamento de propaganda e disseminação de mentiras está criando uma massa crítica que ameaça muito mais do que a paz nos almoços de domingo. Se é uma questão de ignorância ou etiqueta tecnológica, aprenda a usar o Google, digite o texto da manchete que você pretende compartilhar antes de espalhar essas mentiras. Aplaudo que queira se engajar em assuntos políticos, mas peço que seja ao menos diligente. Cansei de fazê-lo por você!

Gostaria de descartar a possibilidade de que você não se importe de espalhar mentiras, fazendo-o de forma maliciosa para avançar uma narrativa que confirma preconceitos. Seria decepcionante, considerando os valores éticos, morais e familiares que você sempre defendeu. Entenda o impacto do que está acontecendo, meça o peso das suas ações. No fim das contas, estaremos juntos no Brasil que resultar dessa epopeia.

Um abraço cordial, seguido de um ‘#elenão’ ressonante,

Seu sobrinho.

AVISO: Nenhum ‘tio’ foi ferido na produção dessa carta. O ‘Tio’ acima-referido é baseado em várias pessoas que se encaixam na definição de “Tiozão do Whatsapp”.

 

Leo Nader é mestre em Direito Internacional dos Direitos Humanos pela Universidade de Oxford.

 


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