A dor de ser gay e votar no Bolsonaro
Terça-feira, 16 de outubro de 2018

A dor de ser gay e votar no Bolsonaro

Arte: Caroline Oliveira

O apoio a Bolsonaro por parcela da comunidade LGBT está relacionada ao fato de não se enxergarem efetivamente como pertencentes a um grupo social estigmatizado e à dificuldade de conseguirem olhar para própria experiência de vida

Em uma entrevista concedida ao Estadão em 2010, com 18 anos de idade, Neymar Júnior foi questionado: “Já foi vítima de racismo?”. E ele respondeu: “Nunca. Nem dentro, nem fora de campo. Até porque eu não sou preto, né?”[1]. Alguns anos depois, o atual jogador da seleção brasileira de futebol mudou de posicionamento e começou a denunciar o racismo que sofria em campo.

Relatado o episódio acima, adianto que não voto em Bolsonaro. O título é tão somente para chamar a atenção do leitor para um episódio que deveria parecer contraditório, porém que agora vemos com relativa frequência. Levando em consideração que o bolsonarismo (forma particular do fascismo no Brasil) cresce com a exploração da LGBTfobia e outras formas de discriminação, o que pode levar uma pessoa LGBTI+ ou de outras minorias[2] já vítimas de seu discurso de ódio a votar nesse presidenciável? Acredito que a resposta tenha relação com o episódio acima.

Bolsonaro é um candidato conhecido por ser uma apologeta da violência e do ódio. Não apenas pelos discursos antipetistas que tem pronunciado em campanha, mas também aqueles que marcaram sua trajetória na vida pública.

Pouco afeito às diferenças, o candidato já chegou a enaltecer torturador e insurgir-se contra mulheres, quilombolas e LGBTI+. Alguns de seus posicionamentos mais agressivos estão exatamente contra esta minoria – não é à toa que este é um dos grupos que lutam mais contundentemente para descortinar o fascismo.

Entre as suas declarações estão: “O povo (a sociedade brasileira) não gosta de homossexuais”; “Nenhum pai (nem você, nem eu) tem orgulho de ter filho gay”[3]; “O filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro, ele muda logo o comportamento dele”[4]; “Não vou combater, nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”[5]; “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”; “se um casal homossexual vier morar do meu lado, isso vai desvalorizar a minha casa! Se eles andarem de mão dada e derem beijinho, desvaloriza”[6].

Então, a pergunta é: o que faz com que um homem declaradamente gay possa não se sentir ofendido com as declarações de Bolsonaro? Ou ainda: por que, mesmo acreditando que sua postura foi excessiva, ainda conceda seu voto ao candidato quando Haddad possui propostas de políticas públicas para o reconhecimento da população da população LGBT que iria beneficiá-lo? Por que, mesmo sendo ofendido, alguém vota em quem o ofendeu? Não acredito que o famigerado antipetismo, tão somente, possa criar uma repulsa mais forte ao candidato do Partido do Trabalhadores do que a uma pessoa que o ofende diretamente – apesar de não desprezar a força que o antipetismo possui.

Acredito, contudo, que esse fenômeno pode ser bem explicado do ponto de vista da dor de ser vulnerável. Para além da LGBTfobia internalizada e reproduzida pelas próprias minorias na forma de apoio a um movimento de violência contra sua comunidade, penso que há outras duas razões fundamentais.

 

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Primeiro, a falta de sentimento de pertença a um grupo. Essas pessoas não conseguem enxergar a si mesmas como parte de um conjunto que tem a identidade sexual como característica comum. Ou mesmo, quando se enxergam, não alcançam a relação necessária entre a atuação do Estado e o reconhecimento social de sua forma de existir. De modo que acabam, por vezes, endossando o discurso de que os direitos das minorias são privilégios.

Isso está relacionado à hiperindividualização dos tempos modernos e à sensação falsa de autonomia que o atual estágio do capitalismo impõe-nos. Essas pessoas acreditam que estão imunes à violência por qualquer tipo de blindagem individual (corpo nos moldes heteronormativos, dinheiro, capital social, etc.). A verdade é que nenhuma delas está imune! O estigma continuará sendo uma marca coletivamente compartilhada. E isso leva ao fato de que a falta de sentimento de pertença está igualmente relacionada ao estigma que é ser gay.

Ninguém quer enxergar-se como pertencente a um grupo estigmatizado, especialmente se são educados para ter vergonha de quem são. Por isso acharem que está tudo bem com o discurso de violência de Bolsonaro, visto que nada acontecerá de fato.

 

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E, em segundo lugar, olhar para as próprias vulnerabilidades é muito doloroso – algumas vezes, insuportável. Não é nada fácil olhar para si e enxergar-se como alguém suscetível ao outro e aos males que este pode causar. A violência é a experiência comum das pessoas negras e LGBTI+. Olhar para seu histórico de vida, portanto, significa revisitar o percurso da violência de que já foi vítima. E isso se torna ainda mais complicado de se lidar quando as próprias minorias costumam ser responsabilizadas pela violência que sofreu.

Trago essas razões porque é preciso compreender que essas minorias não estão movidas apenas pelo antipetismo – que é a ideologia que tem transformado os grupos sociais em massas irreflexivas. O apoio a Bolsonaro por parcela da comunidade LGBT está relacionada ao fato de não se enxergarem efetivamente como pertencentes a um grupo social estigmatizado e à dificuldade de conseguirem olhar para própria experiência de vida.

É preciso, portanto, que nós, pessoas LGBTI+, falemos sobre nós mesmos. Apenas nossa dor poderá constranger o outro a enxergar em nós a si mesmos e provocá-lo à reflexividade que é suprimida pela ação da massa. Neste momento, é preciso mostrar as próprias feridas escondidas e contar com a potência do reconhecimento.

 

Emerson Erivan De Araújo Ramos é professor universitário, mestre pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Jurídicas da Universidade Federal da Paraíba e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da mesma instituição.

 

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________________
[1] RACY, Sônia. Quero um Posche e uma Ferrari na garagem. Estadão, 26 abr. 2010. Disponível em: <https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,quero-um-porsche-e-uma-ferrari-na-garagem,542923>. Acessado em 10 de out. de 2018.
[2] É preciso pensar as minorias não em termos numéricos (em quantidade de indivíduos), mas em termos de condição política. Ser uma minoria não é participar de um grupo com poucos membros. Antes, trata-se de pertencer a um lugar desprivilegiado na arquitetura do poder. Sobre esse conceito de minoria, ver o texto de Joan Scott intitulado O enigma da igualdade, publicado na Revista Estudos Feministas (v. 13, nº 1, p. 11-30, jan-abr 2005).
[3] Ambas as declarações podem ser encontradas ipsis litteris na série documental Out there (2013), episódio 2, quando da entrevista concedida a Stephen Fry.
[4] A declaração foi dada na oportunidade do programa Participação Popular da TV Câmara no dia 17 de novembro de 2010, cuja pauta era Lei da Palmada.
[5] Declaração emitida em 2002, quando o deputado criticava o fato do presidente Fernando Henrique Cardoso estar segurando a bandeira do movimento LGBT durante solenidade no Palácio do Planalto que pedia o reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo gênero (o “casamento gay” (sic)). [SUWWAN, Leila. Apoio de FHC à união gay causa protestos. Folha de São Paulo, 19 mai. 2002. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1905200210.htm>. Acessado em: 10 de out. de 2018.
[6] Estas duas últimas declarações foram emitidas à revista Playboy em 2011.

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