Cadê a sociedade educadora?
Terça-feira, 16 de outubro de 2018

Cadê a sociedade educadora?

Arte: Caroline Oliveira

Apenas responsabilizar os professores é fácil e se manter cego à totalidade do problema é de uma miopia sem tamanho

Desde sempre é difícil ser professor em qualquer nível ou modalidade de educação no Brasil. Sempre estivemos pressionados pelos saberes que os estudantes adquirem fora da escola. Nestes dias sombrios de ameaças físicas e simbólicas, as nossas dificuldades aumentam e nos levam a muitas indagações, a começar por aquelas que nascem diante da massa de homens de ultradireita e “esquerda” que ameaça a nossa frágil democracia. A maioria passou por nossas classes escolares e hoje nos ameaça com a escola sem partido, com a militarização das escolas, banimento de livros contrários às suas ideias e até nos agridem fisicamente. Trata-nos a todos como subversivos como se isto fosse verdade e nos acusam de querermos pintar de vermelho a nossa bandeira, transformar o Brasil numa nova Cuba ou Venezuela. 

Vivemos tempos de uma irracionalidade cruel que sequer percebe a contradição das suas afirmações: sempre acusou a escola de ser reprodutora do modo de viver, pensar e ser da classe dominante e agora vem a público nos acusar de ideologizadores do comunismo e da crise de valores que a sociedade atravessa. Teríamos nos libertado das estruturas autoritárias do sistema escolar que impõe os currículos, conteúdos, livros, procedimentos didáticos e controles pedagógicos e administrativos? Que poder é esse que atribuem a nós professores? Fizemos uma revolução sem nos darmos conta dela?

 

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Não, não somos, os professores, os responsáveis exclusivos pela libertação dessa massa de homens ignaros que picham igrejas, tatuam suásticas a canivete, perseguem negros e homossexuais, matam indígenas, hostilizam imigrantes, espancam, assassinam mulheres e agridem os seus opositores políticos. É preciso que a sociedade volte os seus olhos críticos para as demais agências educativas: famílias, igrejas, quarteis e hospitais, jornais e televisão, sindicatos, movimentos e organizações sociais, empresas públicas e privadas, e se pergunte que tipo de educação têm oferecido. 

Apenas responsabilizar os professores é fácil e se manter cego à totalidade do problema é de uma miopia sem tamanho. 

A sociedade é que não está sendo educadora como deveria. É ela que não consolida e aprofunda os saberes adquiridos nas escolas, que não exige mediações importantes diante da realidade concreta. É ela que mercantiliza e empobrece a música, o cinema, as colunas de jornais, o teatro, os cultos religiosos, a ordem unida, as assembleias, as reuniões corporativas, as conversas familiares, os simples saraus e tertúlias nas praças.

Nós, os professores, não temos tamanha capacidade e abrangência.

 

Zacarias Gama é professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Faculdade de Educação (UERJ/EDU), professor permanente do PPG em Políticas e Formação Humana – PPFH, membro do Conselho Nacional e Diretor Executivo da Cátedra REGGEN/UNESCO.  

 

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