Responsabilidade da Imprensa
Terça-feira, 16 de outubro de 2018

Responsabilidade da Imprensa

Por André Zanardo

 

Nós perdemos o controle. O fascismo se alastrou por responsabilidade de todos nós. Como imprensa naturalizamos discursos absurdos como se coisas corriqueiras fossem.

A grande questão até então era saber o que fazer com um personagem caricato que rendia inúmeras notícias enquanto ofendia pessoas e pregava bizarrices. Para alguns, parecia até inofensivo, outros se indignaram e rebateram enquanto contribuíam para que houvesse réplica, tréplica e ainda mais exposição. Sorrateiro, sem que percebêssemos, o mal se tornou banal. As tochas estão acesas e Madalena segue sendo apedrejada até o segundo turno. Certamente, na imprensa não há consenso sobre como lidar com personagens que ao mesmo que vendem muitas notícias e pregam a normalização de comportamentos que violam Direitos Humanos.

“Se ele diz inverdades, devemos chamá-lo de mentiroso? Se ele usa linguagem depreciativa repetidamente, nós o chamamos de racista?”

Esta reflexão, trazida à tona após a ascensão de figuras como o presidente americano Donald Trump e Jair Bolsonaro, foi alertada por Kyle Pope, editor da Columbia Journalism Review, principal publicação sobre mídia nos EUA. Para o jornalista, os ataques à credibilidade das instituições jornalísticas está nos trazendo de volta aos momentos mais sombrios da nossa história e isto está acontecendo em diversos lugares do mundo.

Aqui no Brasil o bizarro se tornou comum. Nos consumiu, nos possuiu sem percebermos. Um dia todos acordamos no meio de um festival de mentiras que tornou imprensa e público cúmplices de um grande teatro jornalístico. Primeiro ato, retirar um partido legítimo do poder. Regras, a imprensa pode tudo, seus amigos também.

“Os Poderes estão à beira de um colapso, inclusive o quarto”

Os grandes veículos de informação esqueceram de analisar o fato que todos os Poderes estão à beira de um colapso, inclusive o quarto. Enquanto as mídias se enganavam em uma suposta ideia de imparcialidade, queriam na verdade insuflar o pensamento punitivista na sociedade, direcionando todos os canhões em políticos no setor progressista. Com isso, acreditando nos heróis do judiciário e do Ministério Público, ensinaram a arte de delatar. Criaram delatores e fomos todos da imprensa sumariamente deletados nas fake news. Nos tornamos irrelevantes a ponto de não comprarem mais histórias de verdade. Verdade é coisa do passado, agora somos fruto da “pós-verdade”. A Revista Veja, a beira da insignificância, que o diga.

Incentivaram e naturalizaram toda sorte de manobras jurídicas praticadas pelos diversos escalões do judiciário, dos nossos ilustríssimos ministros aos mais pequenos Moros da vida. Sem direito a defesa, atacaram a política, ofenderam as bandeiras, sucatearam a representatividade, abafaram as nossas vozes, esvaziaram a Constituição. Prenderam um ex-presidente sem provas e sustentam até hoje que isto foi o certo, o justo – segundo ato.

Já imersas nesta bolha de mentiras, às vésperas da eleição, sem ter em quem se apoiar, pessoas estão acuadas num cenário de terror, fugindo de seus próprios afetos e familiares. Restou a fuga da vida real, com a partilha de nossas angústias nas redes sociais. Viciados nos algoritmos dopamínicos que nos fazem mais felizes, dar e receber likes continua a nos iludir, abafando o fato de que estamos caminhando em direção a um futuro governo totalitário. Mais mentiras, mais um like, compartilhamos que o Estado vai distribuir mamadeira erótica no Kit Gay e que o adversário político incentiva o incesto. Vale ganhar de qualquer jeito, na verdade vale tudo, inclusive autogolpe, como anunciou o candidato à vice-presidente, General Antônio Hamilton Mourão, do PSL.

 

+[ASSINANDO O +MAIS JUSTIFICANDO VOCÊ TEM ACESSO À PANDORA E APOIA O JORNALISMO CRÍTICO E PROGRESSISTA]+

 

Hoje o sujeito médio brasileiro não acredita mais em nada. Pra que defender o direito de defesa se a condenação é a que queremos? Por que pagar imposto se o serviço nunca é satisfatório? De que adianta pensar, raciocinar se a conta nunca fecha? Pra que verdade e certeza se na prova dos nove o resultado é sempre incerto? As pessoas aprenderam agora a contar sua própria fantasia no Whatsapp. Não precisam mais de uma imprensa que invente mentiras e fantasias para elas. Pulsa a vontade de resolver os problemas com toda ira do mundo, punir os corruptos, fazer justiça com as próprias mãos. Quem precisa de representatividade se estamos todos preparados para tomar a decisão por nós mesmos?

“As opiniões hoje valem tanto quanto os fatos”

É nítido que o próximo passo será a uma escalada de violência contínua contra as minorias sociais. Vulnerabilizadas, elas estão sendo atacadas por Bolsonaristas nas ruas, escolas, ambientes de trabalho. Esta é uma responsabilidade de todas as pessoas que contribuíram de alguma forma para a naturalização da violência. As opiniões hoje valem tanto quanto os fatos, indignados com a opinião do outro passamos para o faça você mesmo e ataque seu “inimigo” favorito. Culpa da imprensa e dos eleitores que endossam toda sorte de barbárie como se fosse algum tipo de brincadeira, sem perceberem que as consequências no mundo real resulta também em tragédia.

Afinal, “quem gosta de homossexual”? De preto e de pobre?

Bolsonaro que não. Assuma pelo menos esta verdade e reflita se você quer fomentar um ataque massivo e sangrento às minorias. Quantos já não são os relatos de Bolsonaristas que atacaram estas pessoas, marcaram outras com símbolos nazistas e até mesmo mataram um mestre de Capoeira? Fake News? Não!

Sejamos reais neste momento e reflitamos em terceira pessoa. Que tipo de gente defende um homem que prega a esterilização de pessoas pobres?

Que tipo de sujeito alimenta a ideia de que para acabar com o crime na favela da Rocinha bastaria jogar folhetos de um helicóptero pedindo para todos saírem, caso contrário metralharia as pessoas que estivessem lá dentro?

Que tipo de “gente de bem” defende que o problema da ditadura foi não ter matado mais pessoas, inclusive advogando a ideia que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deveria ter sido morto?

Dizer que votará em Bolsonaro pois não aguenta mais o PT é alimentar uma falsa simetria para ver satisfeita os desejos inconscientes de ataque a todas estas pessoas. É equivaler-se ao seu candidato e ser tão fascista quanto ele. Traduzir a posição dos candidatos em dois extremos para parecer isento politicamente, para justificar sua escolha como “falta de opção” é ser desonesto intelectualmente e fantasiar o cenário político de um falso paralelismo.

 

Leia mais:
Ditadura militar no Brasil: o golpe de ontem e seus defensores de hoje
Brasil e o infeliz retorno à 1964
OAB repete 1964 e se torna a coveira da democracia
O ódio como política

 

O lado democrático se utiliza da eleição para defender um ponto de vista político e ideológico, assim como todos os outros candidatos à presidência que concorreram justamente no primeiro turno. O outro presidenciável literalmente não quer o debate, quer seu esvaziamento, para não dizer o aniquilamento e fim da democracia. Vale rememorar que, em fala recente, o candidato disse que deseja para o futuro um Brasil que conhecemos quarenta ou cinquenta anos atrás. Em suma, ele se utiliza da liberdade de expressão para advogar que não haja mais liberdade de expressão, vontade popular, nem direitos das minorias.

Neste momento devemos nos perguntar. Quando foi que naturalizamos o ódio e permitimos que este homem fizesse de 28 anos de carreira pública um espetáculo contra os Direitos Humanos? O que acham que ele fará quando assumir o poder? Respeitar a Constituição?

Estamos à beira de um colapso legitimado por boa parte da população, um caminho que pode não ter mais volta no curto ou médio prazo. Até então, ignorávamos o fato de que este parlamentar estivesse causando prejuízos às liberdades democráticas incitando o ódio, estimulando os horrores individuais de cada cidadão enquanto acusava a imprensa de injustiça. O gigante acordou, o fascismo chegou e todos nós conhecemos um amigo ou familiar que apoia as ideias deste candidato à presidência.

Agora pode ser tarde demais pois, mesmo que Bolsonaro não assuma a direção do Planalto, parlamentares com o mesmo tipo de mentalidade autoritária tomaram o protagonismo do Poder Legislativo e outros ainda disputam o Executivo Estadual. Na reconfiguração das cadeiras pós eleição certamente eles serão a maior bancada do país. Estamos todos em risco e a imprensa pode não ter mais a condição de reverter este quadro. O jornalismo está em crise e sem credibilidade, assim como nossas instituições e democracia.

Não adianta mais se esquivar, este é um cheque-mate. Você jornalista, de que lado você está?

 

André Zanardo é ativista pelos Direitos Humanos, advogado e diretor de redação do portal de notícias Justificando.

 


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Terça-feira, 16 de outubro de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]